A campanha presidencial está reduzida a votómetros, radares de sondagens e pensamento mágico. A campanha presidencial é o hate-bombing contra love-bombing.

A campanha presidencial sofre de um colapso político. Depois do debate entre Ventura e Seguro os portugueses sabem que o voto é entre a banalidade e o vazio. As banalidades de Seguro têm o equivalente político no vazio de Ventura. Seguro é um sussurro político para tranquilizar o sistema. Ventura é um megafone político para perturbar o sistema. Seguro não tem ideias porque em Portugal as ideias são um obstáculo ao normal funcionamento da democracia. Ventura sem megafone revela o vazio de ideias que se alimenta da crítica às banalidades de Seguro. Desta observação fica a conclusão política sobre as presidenciais – Seguro é moderado porque só pode ser moderado para existir politicamente; Ventura é radical porque só pode ser radical para existir politicamente. Seguro não pretende ir a lado nenhum. Ventura segue o impulso de uma aventura política. O paradoxo das presidenciais é que os candidatos são mais forma do que conteúdo político. O próximo Presidente da República será escolhido pela filiação a uma imagem política e não pela adesão a um programa político.

Percebe-se agora que numa segunda volta de umas presidenciais de segunda não existe voto útil nem utilidade do voto nem voto de protesto nem qualquer boicote activo à farsa eleitoral. As presidenciais estão transformadas num protocolo regimental, numa discussão cansada sem política ou ideologia. As presidenciais são a caricatura de umas eleições onde se vai escolher um estilo, uma pose, um discurso. Com a política reduzida a um pin na lapela, é natural que a direita vote à esquerda e que a esquerda vote à esquerda e que os radicais votem radical. O critério para a decisão do voto nas eleições para Belém é uma opção moral baseada na afirmação de certos preconceitos políticos e na rejeição de outros preconceitos políticos. As eleições presidenciais são um espectáculo triste onde existe uma escolha política sem existir uma verdadeira opção política.

As opiniões mais tremendistas evocam o confronto entre a democracia e o fascismo. Votar Seguro para garantir a democracia. Votar Ventura para garantir o regresso do fascismo. O problema está no facto rudimentar de que nem Seguro é a democracia nem Ventura é o fascismo. Seguro representa a ordem nacional. Ventura representa a internacional do caos. Seguro é a opção de voto para todos aqueles que pretendem viver habitualmente. Ventura é a opção de voto para todos aqueles que não pretendem viver habitualmente. A lógica das presidenciais está entre a moderação e o medo. Entre Seguro o moderado e Ventura o exaltado surge a tentação para excluir Ventura. Seguro é um produto da democracia e do Regime. Ventura é um populista e demagogo produto da democracia e do Regime. A política não é um retrato estático a preto e branco inscrito num livro de História.

O que está em causa entre Seguro e Ventura é um processo de mudança do pessoal político que provoca ondas de instabilidade na superfície política do Regime. A mudança de geração política no topo dos cargos da República terá sempre de acontecer. Toda a mudança de pessoal político implica incerteza, instabilidade e o país parece estar a entrar nesse processo de renovação política sem retorno. É natural que qualquer mudança de pessoal político implique mudança de políticas. O que parece óbvio nestas presidenciais é que esta mudança de pessoal político representa uma aceleração dos tempos políticos provocada pela distância entre a política e o país – A política habitual já não consegue acompanhar os desejos e as ambições do país. Ventura é um produto da distância e não a causa da distância política.

No contexto da mudança de pessoal político percebe-se a lógica de uma terceira volta das legislativas no centro de uma segunda volta das presidenciais. Fica ainda mais claro na corrida a Belém o argumento do confronto entre o povo e as elites, os de cima e os de baixo, o privilégio e os ressentidos. Como é hábito na política à portuguesa começa-se a mudança pelo topo e sem uma ideia, sem um programa, sem uma visão de país, sem um desígnio a médio prazo. A democracia portuguesa é uma espécie de ditadura da actualidade.

A campanha presidencial está reduzida a votómetros, radares de sondagens e pensamento mágico. A campanha presidencial é o hate-bombing contra love-bombing, mais o controlo e o descontrolo, mais a doutrinação sem doutrina, mais os segredos privados e as públicas virtudes, mais todo um elenco de sentimentos sem culpa. Com a esquerda anulada, a direita clássica está ausente, a direita populista está em roda livre e a grande família das direitas não percebe o seu papel na nova configuração do Regime. A grande família das direitas esconde-se no apoio a Seguro. Os portugueses vão escolher um Presidente da República para manter a aventura e a política nos seus devidos lugares.

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Aventura Presidenciais

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