Bem vindos ao Far West mediático
A fragilidade dos media está a fazer desta era a mais proveitosa em muitas décadas para mentirosos, corruptos e outra gente sem escrúpulos. Donald Trump está na linha da frente
Sexta-feira
Estava a seguir neste artigo o correr dos dias, como habitualmente. Por exemplo, na terça-feira soubemos, pelo ECO, que a conta dos advogados que ajudaram António Domingues a ditar ao Governo a lei que se lhe ia aplicar foi paga, afinal, pela Caixa Geral de Depósitos (paga por todos nós, portanto). Se isto não é sintoma agudo da decadência do Estado e da forma como aceita ser desrespeitado, então não sei o que seja.
Nesse mesmo dia o Público contou-nos que faltavam 10 mil milhões saídos para off-shores nas estatísticas de 2011 a 2014, assunto que ainda agora começou mas já incendiou o debate político.
Estava quase terminado quando, no final da tarde desta sexta-feira, surgiu a notícia que a Casa Branca tinha proibido a entrada de vários órgãos de comunicação social — entre os quais New York Times, Politico, CNN e BBC — no habitual “briefing” diário dado pelo já tristemente famoso secretário de imprensa da Administração Trump, Sean Spicer.
É a esta escalada que estamos a assistir na maior potência mundial, historicamente orgulhosa das liberdades individuais, de expressão e de imprensa. Não sabemos até onde isto nos vai levar, mas é certo que não será a um sítio melhor do que temos hoje.
Além do acto censório em si, barrando o acesso a informação oficial de jornais e televisões tidos como “hostis”, choca igualmente a complacência com que os outros jornalistas aceitaram assistir a essa conferência de imprensa sabendo que colegas seus tinham sido deixados à porta por fazerem aqui que é suposto fazerem: jornalismo.
Já sei. Há quem ache que Trump e a sua equipa têm razões de queixa de alguns órgãos de comunicação social por terem uma atitude mais agressiva para com o presidente norte-americano e que isso justifica, ou pelo menos serve de enorme atenuante, a estes actos.
Enganam-se perigosamente os que pensam assim. Vamos mal quando permitimos que o escrutínio da qualidade ou mesmo da legalidade do jornalismo seja feito pelos próprios visados e interessados que são objecto de notícia. E que o façam de forma sumária, julgando em causa própria, de forma definitiva e sem apelo. Este é o princípio da censura, que é sempre usada para proteger o “interesse nacional”, contra “conspirações”, para travar “insurrectos” que aparecem em cada esquina e para manter a “serenidade política e social”. Mas que serve, afinal, para garantir que não há verdades inconvenientes tornadas públicas.
O momento é de elevada fragilidade para o jornalismo e para a liberdade de informação. A evolução tecnológica está a desafiar os tradicionais modelos de negócio e a crise das empresas de comunicação social abre brechas na qualidade e diversidade do jornalismo. As redacções são cada vez mais pequenas e o sacrifício vai sobretudo para as áreas mais caras da informação, que são a investigação e a reportagem.
Por outro lado, a vertigem das plataformas electrónicas e das redes sociais faz baixar as guardas do rigor, da verificação e da consistência de notícias e de linhas editoriais. É quase sempre impossível fazer depressa e bem e a velocidade é demasiadas vezes a vencedora deste dilema.
É, portanto, relativamente fácil encontrar hoje motivos de crítica para algum do jornalismo que é feito e os índices de confiança do público têm vindo a cair continuamente.
Ao mesmo tempo, os novos instrumentos tecnológicos permitem hoje a qualquer instituição ou interessado um contacto directo com os seus públicos sem qualquer intermediação dos jornalistas. No Twitter, através do Facebook, com vídeos no Youtube, em blogs ou sites próprios, cada um pode tentar passar a sua narrativa com pouca ou nenhuma verificação ou escrutínio, seja ela verdadeira ou falsa, honesta ou manipuladoramente incompleta.
Já viram a tentação de tornar descartáveis os media tradicionais mesmo para aqueles que precisam de comunicar com as massas? Os jornalistas são tão mais dispensáveis quanto mais desacreditados estiverem, deixando mais espaço livre para a estória que cada um quer contar sem qualquer mediação ou verificação prévia ou póstuma, com “fact chekings” irritantes para os submetidos à “máquina da verdade”.
Este contexto em que estamos mergulhados pode ser uma arma perigosa se for bem utilizada por gente com poucos ou nenhuns escrúpulos. É isso que Donald Trump está a demonstrar, para nossa desgraça colectiva.
Trump tem 25 milhões de seguidores na sua conta pessoal no Twitter, a tal a partir da qual parece governar o país. Já a sua conta oficial como Presidente dos EUA é seguida por 15 milhões. No Facebook são 21 milhões os que o seguem. Comparem-se estes números com outros. A audiência televisiva da sua tomada de posse nos Estados Unidos foi de 31 milhões de espectadores. E a temporada 2010-11 do seu “reality show” “The Apprentice” foi acompanhada, em média, por 4,5 milhões de pessoas.
Portanto, o homem que hoje se dá ao luxo de expulsar da Casa Branca os jornalistas da CNN, do NYT, do Politico ou da BBC, recusando-lhes o acesso a informação pública de um órgão de Estado, sente-se tentado a fazê-lo porque dispõe de outras formas de chegar a audiências de dimensão semelhante sem os chatos dos jornalistas pelo meio a seleccionar informação, a verificá-la previamente ou a noticiá-la já “desmontada” ou contraditada.
Junte-se a este pragmatismo a falta de valores democráticos básicos, um completo desrespeito pela verdade e a ausência de mínimos éticos e de sentido de serviço público, e temos o “justiceiro” que gere o acesso a informação pública de acordo com o seu “index” de jornalistas.
São tempos perigosos, estes. Começam por ser um enorme teste ao funcionamento do sistema de freios e contrapesos que faz o esqueleto das democracias liberais. Vão actuar? E serão eficazes para este nível de ameaça, vinda de alguém que venceu as eleições e desafia a estrutura por dentro?
É demasiado cedo para ter respostas. Ainda só temos ameaças, retaliações e marcação de novas linhas de fronteira, muito diferentes daquelas a que estávamos habituados.
Certo é que a qualidade das democracias cai quando se recua na liberdade de informação, quando se captura a independência dos tribunais ou quando os mecanismos de regulação instituídos são substituídos por processos de “justiça pelas próprias mãos” à margem das regras do Estado de Direito.
A fragilidade dos media está a fazer desta era a mais proveitosa em muitas décadas para mentirosos, corruptos e outra gente sem escrúpulos. As “fake news”, os “factos alternativos” e os “justiceiros” anónimos ou bem identificados fazem desta era da pós-verdade um novo Far West onde o xerife é o principal pistoleiro.
O autor não escreve segundo as regras do novo acordo ortográfico.
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