Caos & exames nacionais

O Governo pode chegar ao debate sobre o Estado da Nação em descrédito absoluto. O silêncio do Primeiro-Ministro apenas revela o holograma de um político.

O Ministério da Educação não está a fazer uma reforma do sistema de classificação dos exames nacionais. O Ministério da Educação está a provocar uma revolução no sistema de classificação dos exames nacionais. E como é comum às revoluções o processo adquire uma dinâmica própria e o controlo político perde-se no caos dos acontecimentos.

O Ministro pode ser teórica e academicamente competente, mas a inexperiência e ingenuidade políticas rebentam com estrondo na face dos portugueses e na credibilidade do Governo. O país vive suspenso de um processo que promete atrapalhar o tráfego de uma suposta igualdade de oportunidades porque o Governo está mais preocupado com a sua reputação reformista.

Se o Governo confunde uma reforma com uma revolução é porque está fragilizado na doutrina e politicamente em pânico. Digitalizar os exames nacionais não é um processo tecnológico, é uma decisão política. A confusão do Governo revela apenas que a ideia de uma reforma política significa sobretudo a utilização da tecnologia. O tempo político passa, mas a ideia de que o desenvolvimento é um produto automático associado à inovação tecnológica é uma ilusão que o país tem pago com pobreza e com atraso.

O caos nos exames nacionais demonstra também um outro preconceito da política nacional. Os reformistas de matriz liberal afirmam sempre que existe um excesso da presença do Estado, que existe um excesso de funcionários públicos, que existe um défice de produtividade nas instituições do Estado, que o Estado é um monstro ineficiente que consome os recursos do país.

Agora que a reforma do Ministério da Educação reduz em cerca de 50% a dita inércia do sistema só se pode esperar a eficiência máxima e a produtividade absoluta. O bloqueio no processo dos exames nacionais vem demonstrar a evidência política de que as verdadeiras reformas do Estado implicam a competência em qualidade e em quantidade dos serviços do Estado. Só o Estado se pode reformar a si próprio, logo fica a questão – Como é que um Estado em eficiência mínima pode produzir uma reforma em eficiência máxima? Para humilhação do Governo a resposta está na digitalização dos exames nacionais.

As reformas demoram tempo. As revoluções devoram o tempo. O espírito reformista deste Governo não é nada senão aceleração sem pensamento estratégico. O espírito reformista deste Governo não é nada senão aceleração com pensamento mágico. Digitalizar os exames nacionais é um processo mecânico, automático, rápido, que na lógica do Governo não depende do factor humano. O que falha em todo este processo é precisamente o factor humano – O factor humano na política, o factor humano nos serviços mínimos do Ministério, o factor humano no desenho e programação da plataforma nacional.

Todas as verdadeiras reformas são graduais, incrementais, sectoriais, reversíveis. Deste modo se atinge o progresso consolidado por tentativa e erro até se encontrar a solução optimizada para o problema. O Governo ignora em todo o processo dos exames nacionais a prática liberal por excelência e aplica uma versão envergonhada da lógica da grande batalha da produção. Reformar não é criar um problema onde não existia um problema. Reformar não é uma exibição de vontade, mas uma demonstração de competência.

A lógica do Governo na abordagem dos exames nacionais tem um princípio liberal implícito – Os exames nacionais são objecto de um choque tecnológico. A ideia da terapia de choque é uma ideia liberal que funciona na teoria, mas que produz na realidade confusão, angústia, incerteza, em troca de um bem maior anunciado para um futuro incerto. Convém sublinhar que o choque tecnológico é o oposto da transição digital. O que o país vive é a fase da incerteza de um choque tecnológico em tempos de volatilidade económica.

Quando o computador diz “não”, a máquina tem sempre razão. E a política fica para segundo plano, dependente de um admirável mundo novo em que a tecnologia dita as regras e a política demonstra a sua impotência.

O Governo pode chegar ao debate sobre o Estado da Nação em descrédito absoluto. O silêncio do Primeiro-Ministro apenas revela o holograma de um político.

Assine o ECO Premium

No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.

De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.

Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.

Comentários ({{ total }})

Caos & exames nacionais

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião