Crescer com propósito, deixar legado

  • Carlos Abade
  • 10:00

Nas últimas décadas, o lugar da sustentabilidade na economia mudou de forma radical e poucos setores traduzem essa transformação com a eloquência do turismo.

Olhar para o Portugal turístico de hoje é ver um destino de excelência, maduro e fortemente competitivo. Mas o caminho até aqui não foi imediato; foi o resultado de um processo que transformou o nosso potencial numa história de sucesso. No início deste século, o turismo português era dependente do binómio sol e mar, fortemente sazonal e pouco escrutinado nas suas externalidades ambientais e sociais. Sustentabilidade era, então, uma palavra de circulação sobretudo académica, com escasso eco nas decisões empresariais quotidianas.

Nas últimas décadas, o lugar da sustentabilidade na economia mudou de forma radical e poucos setores traduzem essa transformação com a eloquência do turismo. Hoje, compreendemos que a sustentabilidade é estruturante e, para ser sólida, tem de integrar todas as suas várias dimensões: ambiental, social, económica e de governança.

No turismo, esta visão tem-se traduzido numa atuação continuada e estruturada, assente em estratégias, programas, instrumentos de apoio e referenciais que têm mobilizado empresas, destinos e entidades públicas e privadas em torno de objetivos comuns de sustentabilidade. A crescente adesão do setor a práticas responsáveis e a certificações reconhecidas, bem como o reconhecimento internacional alcançado por muitas destas iniciativas, confirmam uma cultura que aprendeu a olhar para o ambiente, para as comunidades e para o património como ativos a preservar. Mesmo num ciclo marcado por sucessivos choques globais, o país ganhou consciência de que o turismo só é verdadeiramente estratégico se for, para além de economicamente viável, simultaneamente sustentável em termos ambientais e sociais.”

O horizonte de 2050 exige um salto qualitativo. Importa cuidar da relação entre turismo e comunidades, promovendo um desenvolvimento equilibrado e sustentável. Será essencial qualificar e reter talento, num setor profundamente dependente das pessoas que o servem. E devemos fazer do turismo uma alavanca de coesão territorial, valorizando territórios e comunidades.

De facto, o turismo só é verdadeiramente sustentável conquanto for benéfico para as pessoas, e é sob esta premissa que estabelecemos a nossa ambição: passar de um turismo sustentável a um turismo regenerativo que devolva ao território mais do que dele retira. Mas este salto não é possível de modo isolado. Faz-se com empresas que assumam a sustentabilidade como vantagem competitiva real, com entidades que se sintam parte e beneficiárias do crescimento, e com organizações que ajudam a transformar boas intenções em compromissos verificáveis.

O futuro do turismo português joga-se aqui: crescer menos pela dimensão que assume e mais pelo legado que deixa.

  • Carlos Abade
  • Presidente do Turismo de Portugal

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