Democracia à prova de fogo. Quando ninguém assume responsabilidades

Se quisermos preservar a democracia liberal, teremos de aprender não apenas a defendê-la nas urnas, mas sobretudo a vivê-la no quotidiano.

Neste fim de semana estive em Paredes de Coura e vivenciei mais um dia único que o melhor Festival de Música de Portugal é capaz de nos presentear. Num dia marcado pelas atuações dos DIIV, Sharon Van Etten, Air e Franz Ferdinand estes terminaram o concerto com a electrizante “This Fire” cujo refrão é: “This fire is out of control; I’m gonna burn this city, burn this city; This fire is out of control; I’m gonna burn this city, burn this city; This fire is out of control, then I; I’m out of control and I burn.”

Esta música, cantada de forma apoteótica em Coura e neste agosto onde, infelizmente, Portugal enfrenta uma das piores vagas de incêndios florestais da sua história recente levou-me a reflectir sobre o tema da incapacidade, enquanto comunidade, de lidar com a questão dos incêndios florestais. Até meados deste mês, cerca de 30.000 hectares arderam, representando um aumento de 72% em relação ao mesmo período do ano anterior. Seis grandes incêndios, como os de Trancoso e Arganil, desafiaram os meios disponíveis, com mais de 3.500 operacionais mobilizados e com o apoio internacional a ser ativado, incluindo o Mecanismo Europeu de Proteção Civil.

Porque é que este tema é relevante? Porque todos os anos nos queixamos, todos os anos o(s) Governo(s) prometem novas medidas e contudo a situação parece incontrolável. Estes factos conjugados com as minhas leituras de férias, “Viver como um Liberal” de Alexandre Lefebvre e “O Descontentamento da Democracia” de Michael J. Sandel, colocaram-me a questão: porque parece que o nosso mundo das democracias liberais não responde aos principais desafios deste século, nomeadamente a crise demográfica (o abandono de territórios) e a crise ambiental (alterações climáticas)?

Sabemos que a democracia liberal encontra-se num dos momentos mais frágeis da sua história recente. O desencanto com a política, o crescimento das desigualdades e a corrosão do contrato social abriram espaço ao populismo e a uma polarização cada vez mais intensa. Michael Sandel, em “O Descontentamento da Democracia”, mostra como a globalização e o que ele designa de “financeirização crescente da economia” não só ampliaram a prosperidade de alguns, como também deixaram uma vasta maioria de cidadãos a sentir-se excluída e impotente perante as forças do mercado. O resultado foi o enfraquecimento da confiança nas instituições e a erosão da legitimidade democrática, claramente posta em causa pela retórica do “nós contra eles” que domina o debate público atual.

O diagnóstico de Sandel é particularmente relevante num contexto em que a economia deixou de ser apenas um motor de crescimento para se tornar um campo de exclusão social. Segundo Sandel, a perda de dignidade associada ao trabalho, a precarização das classes médias e a crescente concentração de riqueza corroem não apenas a coesão económica, mas também a base moral da democracia. Para ele, sem dignidade no trabalho e sem reconhecimento social, a cidadania enfraquece-se e a política perde vitalidade, sendo que, segundo ele, o desafio é claro: devolver à economia um sentido de justiça distributiva e devolver à política a capacidade de representar os que se sentem afastados dos benefícios do progresso.

É neste ponto que o pensamento de Alexandre Lefebvre, em “Viver como um Liberal”, oferece uma perspetiva complementar. O autor sustenta que o liberalismo não é apenas uma doutrina política ou económica, mas uma forma de vida que molda silenciosamente o nosso quotidiano. Ao mostrar como valores como tolerância, gratidão, dignidade ou generosidade estão inscritos no modo como vivemos, convida-nos a reconhecer a presença difusa mas decisiva do liberalismo no tecido da sociedade. Essa tomada de consciência não é meramente teórica: é uma proposta prática de revalorizar os princípios liberais como base de uma ética vivida que sustente tanto a vida pessoal como a vida coletiva.

Se Sandel expõe as fragilidades atuais da democracia, Lefebvre sugere que a regeneração passa por recuperar uma dimensão mais profunda do liberalismo, para lá da política institucional. Em vez de encarar o liberalismo apenas como um quadro jurídico que garante direitos, propõe vê-lo como um compromisso ativo com valores que estruturam a convivência e dão sentido à liberdade. É essa interiorização que pode devolver à sociedade uma base moral capaz de travar o cinismo e o ressentimento que hoje dominam o debate público.

O que une ambos os autores é a perceção de que a crise da democracia é, em última análise, uma crise moral. Não basta reformar instituições ou ajustar políticas económicas; é preciso reconstituir o vínculo entre cidadãos e comunidade, entre prosperidade e dignidade. Sandel mostra que a desigualdade mina a legitimidade democrática; Lefebvre acrescenta que só um liberalismo vivido, que se traduza em práticas quotidianas de tolerância e responsabilidade, pode restaurar a confiança e o sentido de pertença.

O flagelo dos incêndios florestais em Portugal repete-se ano após ano, revelando uma vulnerabilidade estrutural que transcende a meteorologia extrema ou o destino inevitável das alterações climáticas. A dispersão fundiária, o abandono do interior e a falta de ordenamento florestal compõem um quadro de risco permanente, onde a prevenção continua a ser a “parente pobre” face ao espetáculo mediático do combate (triste as horas de diretos com relação aos incêndios, alimentando o espetáculo da desgraça e da tragédia de pessoas e territórios). Apesar dos investimentos em meios aéreos e em reforço operacional, permanece a sensação de que o país reage sempre tarde, sem atacar as causas profundas de uma tragédia que é social, económica e ambiental.

Este ciclo revela, de forma crua, a incapacidade do sistema político e administrativo em lidar com um problema que é de todos, mas cuja responsabilidade permanece difusa. Entre o Estado central, as autarquias, os proprietários e a sociedade civil, dilui-se a ação coletiva necessária para transformar o território. O resultado é um país que se indigna no verão e esquece no inverno, incapaz de articular uma resposta integrada que una prevenção, gestão florestal, responsabilização e desenvolvimento económico sustentável. Os incêndios são, assim, o espelho de uma fragilidade coletiva: um Estado que reage, mas não governa, e uma sociedade que sofre, mas não se organiza.

A mensagem que emerge é clara: a democracia não sobrevive apenas de regras eleitorais nem de políticas macroeconómicas, mas da qualidade ética da vida em comum. Recuperar esse horizonte implica devolver centralidade ao trabalho e ao mérito, como insiste Sandel, mas também revalorizar as virtudes liberais que Lefebvre descreve. Para um país como Portugal, onde a dependência do investimento público e europeu convive com a estagnação da mobilidade social e com crises ambientais recorrentes, estas reflexões são particularmente pertinentes. A sustentabilidade da democracia dependerá da nossa capacidade de articular crescimento económico com coesão social, competitividade com dignidade, liberdade individual com responsabilidade comunitária.

Num tempo em que a política é dominada pelo imediatismo e pela lógica do curto prazo, Sandel e Lefebvre recordam-nos que as respostas à crise da democracia exigem mais do que medidas técnicas: exigem uma visão moral e cultural que reconcilie economia, política e comunidade. Se quisermos preservar a democracia liberal, teremos de aprender não apenas a defendê-la nas urnas, mas sobretudo a vivê-la no quotidiano.

PS: Aqui ficam as minhas leituras de verão:

Sandel, M. J. (2024). O Descontentamento da Democracia. Lisboa: Relógio d’Água.

Lefebvre, A. (2024). Viver como um Liberal. Lisboa: Gradiva.

  • Colunista convidado. Economista e professor na FEP e na PBS

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