Desistir também é uma virtude
Desistir é muitas vezes visto como um sinal de fraqueza. Mas saber abandonar um investimento que deixou de fazer sentido é uma das formas mais racionais de proteger o seu dinheiro e criar valor.
Há decisões que nunca são fáceis, por mais anos de experiência que se acumulem. Desistir de um investimento é uma delas, não pela decisão de vender em si, mas por aquilo que ela representa.
Vender significa, na maioria das vezes, reconhecer que a realidade deixou de acompanhar a convicção inicial. Poucas situações são tão difíceis como aceitar esse momento. Talvez por isso desistir continue a ser uma palavra desconfortável.
Persistir é geralmente associado a caráter, visão e resiliência, enquanto desistir continua a ser visto como um sinal de fracasso, fraqueza e falta de convicção. Apesar de esta associação de ideias estar profundamente enraizada, ela é pouco útil quando aplicada às decisões de investimento.
Nos mercados financeiros, insistir nem sempre é uma virtude. Muitas vezes, é apenas uma forma de adiar o reconhecimento de que uma decisão tomada no passado deixou de fazer sentido. O problema não está em errar, mas em permitir que um erro, inicialmente controlável, ganhe uma dimensão muito maior porque ninguém o quis reconhecer a tempo.
Manter uma posição apenas porque um dia fez sentido não constitui, por si só, uma estratégia. É aqui que a perseverança se pode transformar numa armadilha.
A qualidade de um investimento não depende apenas da análise que esteve na sua origem. Depende também da capacidade de perceber quando os pressupostos que o justificaram se alteraram.
As empresas mudam, os setores perdem dinamismo, surgem novos concorrentes ou aparecem riscos que não eram evidentes no momento da compra. Assim sendo, manter uma posição apenas porque um dia fez sentido não constitui, por si só, uma estratégia. É aqui que a perseverança se pode transformar numa armadilha.
A mesma capacidade que permite atravessar períodos difíceis pode também levar a prolongar investimentos cuja lógica se perdeu com o tempo. A fronteira entre convicção e teimosia raramente é clara quando uma decisão está a ser posta à prova. As histórias de sucesso ajudam a alimentar essa ideia.
Quando um investimento acaba por correr bem, é frequente atribuir parte desse resultado à capacidade do investidor para resistir às dúvidas e oscilações do mercado. Porém, essas histórias raramente incluem todas as situações em que insistir apenas serviu para agravar as perdas.
O facto de alguém ter sido bem-sucedido porque persistiu não significa que persistir seja, por si só, uma estratégia vencedora. A questão não passa por insistir indiscriminadamente, mas por perceber em que circunstâncias vale realmente a pena insistir.
Ao longo do tempo, a rendibilidade de uma carteira não é prejudicada apenas pelas perdas, mas sobretudo por aquelas que permanecem demasiado tempo, ocupando o lugar de investimentos que poderiam oferecer melhores resultados.
Quem investe com regularidade sabe que o momento mais difícil raramente é o da compra, mas sim o da venda. A compra é um ato de convicção que assenta numa expectativa em relação ao futuro. A venda obriga a rever essa expectativa quando surgem factos novos.
Em teoria, trata-se apenas de atualizar uma decisão. Na prática, é muito mais difícil, porque exige separar a análise do investimento da necessidade, profundamente humana, de validar uma escolha feita no passado. Talvez por isso a venda seja, tantas vezes, adiada.
Não admira, por isso, que um dos padrões mais frequentes entre investidores menos experientes passe por realizar os ganhos demasiado cedo, enquanto as perdas permanecem em carteira durante demasiado tempo. Ganhar e vender confirma a decisão inicial, enquanto vender a perder obriga a reconhecer que ela estava errada.
Daniel Kahneman ajudou a explicar este comportamento através do conceito de aversão à perda. Para a maioria das pessoas, a dor provocada por uma perda é bastante superior à satisfação proporcionada por um ganho equivalente.
Reconhecer uma perda torna-a definitiva. Manter o investimento em carteira preserva a possibilidade de recuperação e, com ela, a esperança de que a decisão inicial ainda venha a revelar-se acertada. Essa esperança pode ser legítima, mas também pode transformar-se numa desculpa para não agir.
A esta resistência junta-se ainda o efeito dos custos irrecuperáveis. O tempo, o dinheiro e o esforço já investidos acabam por influenciar decisões que deveriam depender apenas das perspetivas futuras. Quanto maiores forem os recursos aplicados, maior tende a ser a dificuldade em abandonar o investimento.
No entanto, o mercado é indiferente ao preço de compra, às horas dedicadas à análise ou ao grau de convicção de quem investiu. O que importa perceber é se, entre as alternativas disponíveis naquele momento, aquele continua a ser o melhor destino para o nosso dinheiro. Quando a resposta deixa de ser afirmativa, insistir apenas porque já se perdeu tempo ou dinheiro raramente melhora o resultado.
Os investidores mais consistentes não são os que nunca erram, mas os que reconhecem rapidamente que nenhuma análise é infalível e que nenhuma tese de investimento permanece válida para sempre.
Annie Duke resume bem esta ideia no seu livro “Quit”. O passado explica porque foi tomada uma decisão, mas não deve determinar a seguinte. O preço de compra, o tempo decorrido e o esforço realizado já não podem ser recuperados. O que continua nas mãos do investidor é a decisão sobre onde o dinheiro deve ser aplicado a partir desse momento.
Libertar capital de um investimento que deixou de fazer sentido permite aplicá-lo noutra oportunidade com melhores perspetivas. Ao longo do tempo, a rendibilidade de uma carteira não é prejudicada apenas pelas perdas, mas sobretudo por aquelas que permanecem demasiado tempo, ocupando o lugar de investimentos que poderiam oferecer melhores resultados.
Os investidores mais consistentes não são os que nunca erram, mas os que reconhecem rapidamente que nenhuma análise é infalível e que nenhuma tese de investimento permanece válida para sempre. Quando os factos mudam, a convicção também deve mudar. Essa disponibilidade não elimina os erros, embora possa evitar que uma decisão errada se transforme num problema muito mais difícil de resolver.
A persistência continuará a ser uma qualidade indispensável para quem investe. Sem ela, dificilmente se beneficia do valor criado pelas boas empresas ao longo dos anos. A dificuldade está em perceber quando essa persistência continua a ser justificada e quando serve apenas como pretexto para adiar uma decisão inevitável. Talvez seja essa a diferença entre quem investe para ter razão e quem investe para obter bons resultados.
Assine o ECO Premium
No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.
De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.
Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.
Comentários ({{ total }})
Desistir também é uma virtude
{{ noCommentsLabel }}