O desconforto de dizer “não sei”

  • Pedro Barata
  • 13 Julho 2026

Nos mercados financeiros, existe uma pressão constante para aparentar certezas sobre o futuro. No entanto, os melhores resultados vêm, muitas vezes, de quem admite aquilo que ainda não sabe.

Em 2001, Howard Marks, fundador e co-presidente da Oaktree Capital e um dos mais conceituados investidores da atualidade, publicou um ensaio intitulado “What’s it all about, Alpha?”.

Nesse texto, Marks introduziu dois conceitos que explicam duas formas distintas de olhar e falar sobre os mercados e que, passadas mais de duas décadas, continuam surpreendentemente atuais: a escola do “I Know” e a escola do “I don’t know”.

Segundo Marks, a esmagadora maioria dos investidores que, ele e nós conhecemos, fazem parte da escola “I Know”. Estes investidores estão convencidos de que o sucesso nos mercados depende da capacidade de antecipar o futuro. Assim sendo, procuram prever a evolução da economia, das taxas de juro, dos mercados e das empresas, acreditando que é possível transformar essa previsão em vantagem competitiva.

Naturalmente, reconhecem que nem todos conseguem fazê-lo. Porém, acreditam pertencer ao grupo restrito daqueles que consegue ver antes dos outros aquilo que o futuro reserva. Essa convicção, leva-os a basear as suas decisões de investimento nas suas próprias expectativas.

Há uma pressão quase permanente para aparentar certezas, mesmo quando elas não existem. Segundo Amos Tversky, é inquietante e assustador admitir que não sabemos algo que os outros acreditam que deveríamos saber.

Os membros desta escola comunicam as suas perspetivas com enorme segurança e entusiasmo, mesmo sabendo que previsões realmente valiosas não deveriam, em teoria, ser divulgadas gratuitamente. Curiosamente, raramente existe o mesmo entusiasmo em revisitar previsões passadas para perceber quantas estavam, de facto, corretas. Se tivéssemos de escolher uma palavra para caracterizar esta escola, seria confiança.

No extremo oposto encontramos a escola “I Don’t Know”. Os seus membros partem de uma ideia aparentemente simples, mas profundamente difícil de aceitar: a de que o futuro é imprevisível. Precisamente por isso acreditam que uma boa estratégia de investimento não pode ficar refém da necessidade de prever o futuro. Mas a diferença entre estas duas escolas vai muito para além dos mercados financeiros.

  • O investidor da escola “I Know” é presença habitual em conferências, seminários e debates. Ele fala sobre o futuro com convicção, apresenta cenários com aparente clareza e conquista naturalmente a atenção da audiência. Este investidor torna-se particularmente influente em períodos de euforia nos mercados porque há sempre quem procure uma previsão, uma narrativa convincente ou, simplesmente, uma ideia para ganhar dinheiro rapidamente.
  • Já o investidor da escola “I Don’t Know” segue um caminho mais discreto. Ele chega a cansar-se de responder I don’t know a familiares, amigos ou plateias, sempre que lhe perguntam sobre o futuro dos mercados. Esta é uma resposta intelectualmente honesta, mas sendo pouco apelativa, faz com que gradualmente deixe de ser consultado sobre estas questões.

O investidor “I Don’t Know” dificilmente se tornará uma figura mediática. Não terá o protagonismo daqueles que, ocasionalmente, acertam numa grande previsão passando por isso a ser vistos como visionários. No entanto, também evita o outro lado da moeda, que é passar pelo constrangimento de falhar redondamente e, sobretudo, evita as perdas provocadas por decisões tomadas com base num excesso de confiança sobre a evolução futura dos mercados.

Ainda assim, talvez o verdadeiro teste para os membros desta escola aconteça quando um cliente lhes pergunta o que esperam do mercado nos próximos meses e a única resposta sincera continua a ser “I don’t know”. Este é, sem dúvida, um momento desconfortável. Afinal, existe uma pressão quase permanente para aparentar certezas, mesmo quando elas não existem.

Amos Tversky resumiu este dilema de forma brilhante ao afirmar que é inquietante e assustador admitir que não sabemos algo que os outros acreditam que deveríamos saber, mas mais inquietante ainda, é imaginar que o mundo é liderado por pessoas convencidas de que sabem exatamente o que está a acontecer e o que vai acontecer a seguir.

  • Pedro Barata
  • Economista

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