Gouveia e Melo, o candidato de baunilha
Gouveia e Melo consolidou-se como o candidato do sabor a baunilha: é difícil não gostar, mas quem sai de casa para comprar?
A um mês das eleições presidenciais, a disputa a cinco continua em aberto. No dia em que escrevo, a nova sondagem da Universidade Católica dá provas disso mesmo. No Radar das Sondagens do Observador, do primeiro ao quinto lugar distam menos de 8 pontos, sinal da absoluta imprevisibilidade do próximo mês.
Dito isto, há algumas notas a ser realçadas da pré-campanha que já ultrapassamos. Em primeiro lugar, parece apenas haver um candidato que vale mais do que o seu próprio partido: Cotrim de Figueiredo – inclusivamente, na última sondagem, aparece a vencer no eleitorado com menos de 35 anos e a conquistar quase um quinto do eleitorado da AD. De seguida, Ventura vai mostrando que é capaz de segurar o seu eleitorado das legislativas e que isso lhe pode garantir a passagem à segunda volta.
Contudo, o destaque destas eleições tem de ser o pobre desempenho de Gouveia e Melo. Olhando para as indicações que nos dão as apostas, através do Polymarket, Gouveia e Melo já teve mais de 55% de hipóteses de ganhar. Hoje, num dia de crescendo, não chega sequer a 25%.
De resto, aliás, o seu debate com Ventura foi uma ótima síntese do que tem sido a sua prestação: titubeante e incapaz de se comprometer. A candidatura do ex-almirante é a prova viva da importância da experiência na política: apertado, Gouveia e Melo irrita-se, diz tudo e o seu contrário, esquece-se das frases que trazia decoradas, chegando a dizer que ‘Temos de mudar a Constituição’ ou que também representa o PS. As gafes são muitas e debate após debate, intervenção após intervenção, aquele brilho sebastiânico das vacinas esvanece-se numa bruma de indecisões e banalidades.
Outrora favorito, Henrique Gouveia e Melo é o candidato que gosta das coisas boas e desgosta das más. É a favor da liberdade, de uma economia com coesão e da justiça, tudo isto num mundo repleto de desafios. Ora, assim é difícil discordar. Não obstante, nos poucos temas que se vê obrigado a realmente emitir juízos para além de tautologias, acabar a defender dissoluções quando não se cumprirem promessas.
Para um candidato sem experiência, era natural que a procurasse junto de agentes que lhe garantissem esse faro político. Mas juntar-se a quem se juntou, aliado de parte do costismo e até de uma alguma máquina de comunicação do socratismo, acabou por o colocar no pior dos dois mundos. Nos debates vemos a face da falta de traquejo, até alguma inabilidade, mas na estratégia vemos os vícios que não deviam transparecer. Se Ventura representa uma coligação de outsiders desanimados, Gouveia e Melo reflete uma coligação negativa dos insiders descontentes com a sua sorte.
Se pelas razões que apontei, a candidatura do almirante estava condenada ao fracasso, então ninguém o previu. Em tempos, pôde aspirar a ganhar à primeira volta, mas a arte da política imperou. Uma candidatura do tudo será sempre uma candidatura do nada à pequena distância da narrativa mediática. O que é certo é que a pouco mais de um mês do dia das eleições, Gouveia e Melo consolidou-se como o candidato do sabor a baunilha: é difícil não gostar, mas quem sai de casa para comprar?
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