Onde anda Tiago Brandão Rodrigues?

Por definição, os mais frágeis são os que mais pagam a indigência do Estado. Nuno Crato defendia que a exigência é a maior aliada dos pobres. Foi isto que se perdeu nos últimos dez anos.

Hecatombe. Catástrofe. Tragédia. Qualquer artigo sobre os mais recentes resultados dos testes PISA poderia começar desta forma. Ainda assim, pecaria por defeito. A comoção nacional foi enternecedora, mas efémera. Um par de dias depois, falavam do tema apenas os mesmos de sempre: aqueles que foram avisando que isto se avizinhava. Não era preciso ser bruxo, da mesma forma que não é preciso ser para prever que no fim desta semana já ninguém se lembrará.

A dimensão do trambolhão é assinalável. Regressámos a níveis de há 20 anos, mas agora numa tendência decrescente, com hábitos perdidos. O relatório lembra que há hoje mais alunos sem conseguirem chegar ao nível mínimo para ‘participar eficazmente na vida em sociedade’. É dramático. É verdade que acompanhamos a tendência de queda da OCDE, mas houve quem a tivesse evitado. Não era uma inevitabilidade,ninguém nos obrigou a escolher o modelo finlandês.

As elites dirigentes pós-2015 têm responsabilidades diretas. Se até então PS e PSD seguiam guiões idênticos, num consenso interpartidário, o rumo do facilitismo que os governos de Costa introduziram deixou marcas pesadas. Como tem notado Miguel Herdade, é aí que reside a diferença para casos como o inglês. Por cá, optou-se pelo ‘aluno do século XXI’, que se fica pelas ‘aprendizagens essenciais’, com currículos depauperados, sem momentos avaliativos finais ou sequer chumbos.

A somar a isto, nunca é demais lembrar que a educação foi o parente pobre da gestão pandémica. As escolas foram as primeiras a fechar e das últimas a abrir. Estudantes ficaram em casa meses seguidos, muitos deles sem acompanhamento. E nunca o Governo pareceu muito preocupado com o problema. Chegada a altura de retomar as aprendizagens, a resposta foi cómica de exígua. De resto, vale a pena lembrar as greves intermináveis que se seguiram, o surgimento do STOP e a muito antecipada falta de professores.

No fundo, é, de novo, uma questão de preocupação com a escola pública. Mais uma vez, olhar para a média, ou, como quem diz, os resultados, é enganador. Se no conhecido exemplo do frango a média esconde que um dos rapazes não come, neste caso, esconde os efeitos assimétricos entre os mais ricos e os mais pobres. Por definição, os mais frágeis são os que mais pagam a indigência do Estado nestas matérias. Nuno Crato defendia que a exigência é a maior aliada dos pobres. Foi isto que se perdeu nos últimos dez anos.

Para o futuro, não deve haver panaceias e a discussão que se segue deve ser baseada em evidência. Não vale a pena disparar irrefletidamente para todas as direções. Não vale a pena simplesmente repor o que se mudou, o problema é ainda mais de fundo. Aproveitemos para discutir o sistema como um todo: currículos, interrupções letivas, metas ou professores.

O embaraço do PS é gritante. Depois de um mea culpa atabalhoado de João Costa, Carneiro, descaradamente, apressou-se a qualificar Fernando Alexandre de pior ministro da Educação do regime. Fico pasmado. Perante os resultados, resta uma pergunta: alguém sabe onde anda Tiago Brandão Rodrigues? Talvez valha a pena procurá-lo. Infelizmente, do seu legado demoraremos anos a recuperar.

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