IA e Energia: A revolução que falta acontecer

  • Ana Veva
  • 16 Dezembro 2025

O sucesso da transição energética portuguesa não será medido apenas em megawatts instalados, mas com a inteligência com que gerimos o sistema. Portugal pode posicionar-se como referência europeia.

Durante anos, o debate energético em Portugal centrou-se, com razão, na urgência da transição para fontes renováveis. Celebrámos o avanço da energia limpa, mas ao mesmo tempo uma transformação igualmente decisiva foi ocorrendo de forma silenciosa: a revolução digital. E não me refiro apenas à adoção de novas tecnologias, mas a uma redefinição estrutural da forma como pensamos, operamos e gerimos o sistema energético.

A capacidade de recolher dados em tempo real a partir de redes, contadores e equipamentos permitirá decisões mais rápidas, eficientes e sustentáveis. O desafio, contudo, não reside na tecnologia em si, mas na forma como a abordamos. Persiste a ideia de que a digitalização é um custo a justificar, quando na realidade é um investimento estratégico cada vez mais determinante.

A inteligência artificial representa o salto qualitativo desta transformação: já apoia previsões de consumo, modelos de manutenção preditiva e otimização operacional. Mas o seu potencial máximo ainda está por concretizar: integrar estes sistemas no funcionamento em tempo real das redes.

Imaginar infraestruturas energéticas que se autorregulam com base em decisões automáticas já não é ficção científica. Para chegarmos lá, é essencial confiar nos modelos que criamos. Isso implica garantir que são transparentes, auditáveis e sempre supervisionados por humanos. A IA não substitui engenheiros; amplia a sua capacidade, dá-lhes ferramentas mais precisas e eleva o impacto da sua experiência.

No entanto, a digitalização aumenta a superfície de exposição a ciberataques, pelo que a cibersegurança deve ser considerada uma infraestrutura crítica, tão essencial como qualquer subestação elétrica. A segurança não é um acessório; é um princípio de conceção, pois sem ela não há confiança, e sem confiança não existe transformação.

Outro fator que não podemos ignorar é o talento. Portugal tem uma geração sólida de profissionais técnicos, mas ainda carece de perfis híbridos capazes de dominar simultaneamente energia e dados. Esta escassez provavelmente será um dos principais obstáculos na transformação digital do setor. A solução exige visão estratégica: da formação especializada à retenção de talento, através de uma colaboração mais estreita entre empresas, universidades e entidades públicas.

Neste momento, Portugal tem uma posição privilegiada. Temos recursos renováveis abundantes, um quadro regulatório europeu que impulsiona a transformação e empresas com projeção global. Mas ainda enfrentamos dificuldades de coordenação entre os principais intervenientes. Para que a digitalização deixe de ser um conjunto de iniciativas desconexas, precisamos de uma estratégia comum, transversal a serviços públicos, operadores de rede, empresas tecnológicas e administração pública, numa verdadeira lógica de interoperabilidade.

O sucesso da transição energética portuguesa não será medido apenas em megawatts instalados, mas com a inteligência com que gerimos o sistema. Se conseguirmos transformar dados em decisões úteis, tecnologia em eficiência e cooperação, Portugal pode posicionar-se como referência europeia. Mas, se permanecermos presos em pilotos e soluções estanques, corremos o risco de perder uma oportunidade que dificilmente se repetirá.

A digitalização e a inteligência artificial não são tendências ou aspirações futuristas; são a espinhal dorsal de um setor que já não pode parar. A transição energética do século XXI não será apenas limpa: será digital, preditiva e colaborativa. E o momento de acelerar é agora, porque vivemos, inevitavelmente, num mundo hiperconectado.

 

 

  • Ana Veva
  • Industry Lead Energy, Glintt Next

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