Jovens com cabeça de ancião

Esta geração merece, e tem o dever de silenciar os velhos do Restelo que nos querem impedir de navegar pelas águas da competência, da concorrência e da capacidade de criar e arriscar.

Esta semana, enquanto ouvia uma rádio, deparei-me com uma notícia que julguei saída da RDP Antena 1 Memória, tal o anacronismo das palavras de uma jovem líder de uma associação nacional de estudantes. Há algo de profundamente trágico quando a juventude, em vez de ser força de rutura, abertura e mérito, se transforma na primeira linha de defesa dos privilégios mais injustificáveis: aqueles que não resultam do talento ou do risco, mas da posição ocupada e da perpetuação de barreiras à entrada.

Em Portugal, assistimos com inquietante regularidade a este paradoxo: dirigentes associativos que deveriam encarnar a irreverência do futuro, mas que falam com a voz cautelosa e defensiva do corporativismo mais bafiento. Têm idade de estudante, mas raciocinam como anciãos receosos da concorrência e da possibilidade de verem desafiadas posições adquiridas.

O exemplo da liderança da Associação Nacional de Estudantes de Medicina (ANEM) é paradigmático. Sempre que se debate a abertura de novos cursos, a criação de faculdades privadas ou o aumento de vagas, a resposta surge articulada em piloto automático: “não há condições”, “vai perder-se qualidade”, “falta planeamento”. Argumentos com roupagem técnica que ocultam o pavor de sempre: a perda da exclusividade. O medo de que a abundância de profissionais reduza o poder de negociação da classe, quebre a reserva de mercado e exponha o setor à lei da oferta e da procura.

É desolador ver jovens universitários a replicar a lógica das velhas ordens profissionais do século XX. Em vez de exigirem um ensino superior mais aberto e competitivo, que permita aos melhores aceder à profissão independentemente de décimas num exame secundário, preferem fechar a porta por dentro. Capturados pela estrutura corporativa que os antecede, comportam-se como guardiões do castelo antes de terem feito a primeira urgência.

A literatura económica batizou há muito este fenómeno. George Stigler formalizou a Teoria da Captura Regulatória, demonstrando como organismos que deveriam defender o interesse público acabam capturados por quem pretendem regular. No caso das profissões altamente reguladas, as barreiras deixam de servir a proteção do consumidor para servirem o congelamento da competição. O resultado é o que Gordon Tullock e Anne Krueger conceptualizaram como rent-seeking: a afetação de capital político não para criar valor, mas para extrair “rendas económicas” condicionando a oferta.

Ao limitar artificialmente o número de profissionais, o corporativismo impõe um custo devastador à sociedade. Os números em Portugal demonstram-no: mais de 1,6 milhões de portugueses sem médico de família e listas de espera intermináveis. Microeconomicamente, a restrição da oferta perante uma procura rígida gera uma ineficiência alocativa grave — o “peso morto” (deadweight loss) da economia. Traduz-se em escassez de serviços, urgências encerradas, inflação de custos no setor privado e num fosso crescente no acesso aos cuidados básicos.

A falácia de que “a limitação de vagas garante a qualidade” é desmentida pela evidência empírica. A ausência de pressão competitiva elimina os incentivos à inovação pedagógica e à diferenciação pelo mérito. Quando a entrada é garantida por um funil burocrático e a permanência é protegida contra novos intervenientes, a qualidade tende a estagnar. A excelência nasce da concorrência aberta, onde os melhores se destacam pela entrega e não pela raridade da sua licença.

Infelizmente, o problema não é exclusivo da Medicina, é o reflexo de um País com medo atávico da concorrência. A matriz lusa habituou os jovens a procurar a proteção da bolha, a renda garantida e a barreira à entrada. Treinamo-los para ver a concorrência não como incentivo, mas como ameaça.

Numa economia globalizada, este protecionismo endémico atua como travão ao crescimento e à produtividade. Ao encarecer serviços essenciais e incentivar a fuga de cérebros dos que ficam fora de quotas artificiais, Portugal perde competitividade estrutural.

Contudo, há uma razão para não confundirmos algumas vozes associativas com uma geração inteira: a sua representatividade é limitada. Há associações eleitas com participações inferiores a 10% e outras onde três quartos dos estudantes não votam. A legitimidade formal não está em causa; o que está em causa é transformar essa legitimidade num mandato moral para falar em nome de todos.

Estou assim firmemente convicto de que a maioria dos jovens portugueses não vive dependente de estruturas associativas e não precisa de pequenos sindicatos académicos para erguer novas barreiras. Quer estudar, trabalhar, competir e avançar. Não pede que lhe reservem um lugar; pede antes que não lhe fechem a porta!

E aí reside a verdadeira esperança para o futuro do País. Esta geração merece, e tem o dever de silenciar os velhos do Restelo que, travestidos de jovens, nos querem impedir de navegar pelas águas da competência, da concorrência e da capacidade de criar e arriscar. Luís Vaz de Camões nunca gostou dos velhos plantados na praia a profetizar o desastre para proteger o imobilismo; a juventude portuguesa também não pode aceitar ser herdeira desse medo. O nosso futuro não se constrói na ilusão de portos de abrigo corporativos, mas na coragem de se “fazer à vela” e disputar o mar aberto das oportunidades que se nos deparam.

  • Colunista convidado. Economista e professor na FEP e na PBS

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