Maxilar de Habsburgo
Um país onde a mobilidade social é fraca vive nesta bola de neve, porque as falhas dos serviços públicos, das bolsas ao alojamento estudantil, afastam aqueles que vêm de fora dos lugares de decisão.
Numa semana de temporal em agosto, podemos concluir que há coisas que não são o que eram. Da mesma forma, a silly season há muito deixou de ser a época pachorrenta do ano que desespera pela rentrée. Entre os casos de Luís Neves e a discussão sobre a sustentabilidade da segurança social, este ano, os exames nacionais e Fernando Alexandre foram temas de destaque.
Durante semanas, o caos dos exames foi a notícia. Não vale a pena voltar à discussão daqueles dias, mas se é evidente que o processo foi mal gerido, num misto de voluntarismo e inépcia, também é claro que houve aproveitamento político gritante, ajustes de contas e uma espécie de viés do statu quo.
Mais grave do que isso é, diria, a propensão, algo sádica, de boa parte da comunicação social para a tragédia. Sabemos que vende melhor e capta mais a atenção, mas neste mundo em que lutamos contra a desinformação e pela exatidão noticiosa, espera-se mais.
Nos dias seguintes à entrega atrapalhada das notas dos alunos, surgiram as primeiras notícias catastrofistas sobre a quebra de candidaturas para o ensino superior. A oposição e alguns jornais apressaram-se a exigir responsabilidades, ignorando que o prazo era mais alargado. No fim, as candidaturas aumentaram mais de 20% face a 2025 e hoje sabemos que 2026, excluindo 2020, foi o ano da década com mais alunos colocados no ensino superior. Foi uma farsa.
Houve notícias sobre isto? Houve, é verdade. Contudo, face ao que foi dito, desde o mais inofensivo até à lunática crença de que a direita quer desmembrar o ensino público, sabe a pouco. Não da oposição, que, mais ou menos justamente, faz o seu trabalho, mas do jornalismo e de algum comentariado. Competia-lhes uma cobertura mais rigorosa dos factos.
Mais triste ainda é que numa altura de alguma renovação do ensino e das suas estruturas, tenhamos perdido tempo com uma ligeira alteração de forma, em vez de discutir a substância. Para além da alteração material do RJIES, que exigirá um esforço significativo das nossas instituições, temos uma reforma no sistema de bolsas. Com isto, os prazos de candidatura foram atrasados e ainda é algo imprevisível o impacto que isso pode ter, sobretudo nos novos estudantes.
Se as alterações parecem ir no bom sentido, como aqui tenho escrito e tenho tido oportunidade de reforçar em outros espaços, o sistema era complexo, incerto e imprevisível. Estou curioso para perceber, ainda na ótica do utilizador, se estes problemas são resolvidos. Um sistema de bolsas abrangente, capaz e claro é essencial para a segurança dos estudantes, principalmente dos mais desfavorecidos.
Num sistema de ensino superior que se pretende base de um elevador social funcional, as bolsas devem ser centrais e é positivo que o Governo, reconhecendo falhas, tenha querido começar por aqui. Agora, a ausência deste tema no debate público é também sintoma de um país mediático alheado da realidade média. Ao contrário dos exames que, pela sua universalidade, tocam a todos os quadrantes sociais, a relevância das bolsas sofre do mal da subrepresentação. Quantos decisores conhecem o seu funcionamento na primeira pessoa? Sabemos a resposta.
Todo este caso é uma ode ao funcionamento da nação: discutimos o menos relevante com a seriedade com que evitamos o mais importante. Um país onde a mobilidade social é fraca vive nesta bola de neve, porque as falhas dos serviços públicos, das bolsas ao alojamento estudantil, afastam aqueles que vêm de fora dos lugares de decisão. Este sintoma é o nosso maxilar de Habsburgo, a marca de um país endogámico.
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