Monarca da República
O país ainda pode acabar com um Presidente que nunca sonhou ser Presidente da República ou acabar com um Presidente que sempre sonhou ser Presidente da República.
A campanha tem os decibéis de uma maratona de candidatos. O momento político das presidenciais é marcado pela negação da política e pelo contacto com o país real. Feiras e mercados, arruadas e comícios, o discurso acelera sobre o caso do dia e a natureza corrupta dos adversários. Os cinco magníficos que lideram nas sondagens partilham a confusão de uma corrida pelos dois lugares que dão acesso à segunda volta. Separados por ínfimas percentagens os candidatos insistem no ruído como forma de fazer política. Separados por décimas de ponto os candidatos disparam em todas as direcções com a demagogia e o oportunismo e a vaidade. A campanha tem a falsa alegria de um momento triste para a democracia. E pensar que deste espectáculo irá sair o próximo Presidente da República é uma ideia deprimente. Os candidatos são desprovidos de qualquer elevação institucional e assaltam os portugueses com um registo popular e populista impróprio da dignidade associada ao mais alto Magistrado da Nação. Em Roma sê romano. Na feira sê feirante. Quem acredita que em Belém será Presidente da República?
Estranho é que ninguém levante a questão da utilidade de um Presidente da República, eleito por sufrágio directo e universal, quando a eleição está transformada na digressão de um circo imobilista próprio de um século de atraso. É verdade que existe uma outra campanha eleitoral nas redes sociais em que o conteúdo reúne as tendências do algoritmo e das câmaras de eco. No país real e no país virtual a campanha é uma promoção de publicidade para vender um produto que vai ser Presidente da República. No país real compra-se fruta e velas de cheiro. No país virtual ensaiam-se clips para o TikTok. A campanha presidencial está a revelar o esgotamento de uma forma política que não passa de um vício político – Fazer política sem uma ideia para o país. Entre as acrobacias físicas e vocais dos candidatos, o entusiasmo revela a mais despudorada ambição política travestida de um amor ao povo de todos nós. Vamos eleger um cidadão vulgar. Viva a República.
Toda a discussão em torno da campanha presidencial envolve a análise da flexibilidade táctica e da rigidez estratégica dos candidatos. E as sondagens, sempre as sondagens, o retrato estático do momento político que dispensa uma reflexão mais profunda. E as ligações partidárias, sempre a contabilidade dos votos, o cálculo utilitário baseado na maximização calculista e nunca na visão para o país. Desta lógica vem o slogan do “voto útil” enquanto os portugueses perguntam antes pela “utilidade do voto”. Os portugueses gostam de votar em quem vai ganhar, mas nestas presidenciais não se percebe quem pode ganhar porque todos podem ganhar. Depois dos debates, das entrevistas, das declarações, o grau de incerteza dos portugueses espelha a mediocridade dos candidatos. A campanha continua e aguarda-se que alguém fique para trás nas intenções de voto. O dilema liberal da escolha tem um limite e com tantos energéticos candidatos a saturação eleitoral leva à indecisão ou a más escolhas. O país ainda pode acabar com um Presidente da República na forma de um espírito aventureiro.
Entretanto, a campanha avança em velocidade de cruzeiro. A esquerda mais radical desfila num cortejo que mais parece o funeral de uma certa ideia de esquerda. Evitando as críticas entre candidatos, exibem ao país a convergência do vazio saído de um projecto falhado. O candidato Seguro paira com um discurso redondo e politicamente ambíguo. O mesmo candidato que em representação do centro-esquerda é recusado pela esquerda e recusado por uma parte do PS. Esta dupla recusa de Seguro funciona estranhamente a favor do candidato. O candidato Cotrim na representação da ideia liberal extravasa os liberais nacionais e sobe no ranking com discursos sobre o narcisismo político e uma surpreendente inflacção de votos. O candidato Marques Mendes manifesta uma certa desorientação política e alguma fragilidade psicológica neste momento da campanha. Marques Mendes sempre pensou ser um senador da nação e que seria Presidente da República pela ordem natural das coisas. Só que a ordem natural das coisas muda rapidamente em política. O candidato do PSD não consegue captar a confiança do pleno do partido. Os votos do PSD estão a ser canibalizados pela pulverização e competição à direita. Ao contrário de Seguro, a recusa de uma parte do PSD está a limitar o candidato ao horizonte da primeira volta. O Almirante perdeu a farda na campanha e adopta um registo heróico, populista e politiqueiro que sempre condenou e contra o qual se candidata. Ventura é Ventura, uma máquina eleitoral em digressão pelo evangelho do murro na mesa. Nesta confusão épica qualquer candidato pode acabar na segunda volta ou ficar pelo caminho.
Os portugueses vão eleger o Monarca da República. Na turbulência surreal da campanha existem votos dispersos que servem para eleger qualquer candidato. O país ainda pode acabar com um Presidente que nunca sonhou ser Presidente da República ou acabar com um Presidente que sempre sonhou ser Presidente da República.
Assine o ECO Premium
No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.
De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.
Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.
Comentários ({{ total }})
Monarca da República
{{ noCommentsLabel }}