Dividido entre as leituras da esquerda radical e da direita radical, o país político não sabe como enfrentar o facto consumado desta nova imigração.

Portugal é um país maior em população. Na mesma geografia concentrada no extremo da Europa, o número de habitantes cresceu de uma forma surpreendente. A estabilidade dos 10 milhões é hoje a realidade de 11,5 milhões. Mantendo-se a geografia, mantém-se também o sistema de governação e as políticas públicas. Tal significa que os Governos têm vindo a governar para um país que não existe. E o que existe é um país onde a informalidade e a confusão se misturam num lugar em rápida transformação.

Mais uma vez as estatísticas não funcionam, os Governos repetem fórmulas irrealistas baseadas em premissas políticas recolhidas nos corredores da intriga parlamentar e partidária. Para governar Portugal não é preciso conhecer Portugal. Para governar Portugal basta conhecer e convencer os eleitores. A democracia está transformada numa transacção política e eleitoral em que os partidos recebem o poder e os portugueses recebem a incerteza e a mentira. Quando o factor imigração é deixado à direita radical e à esquerda radical o resultado é a sobreposição da ideologia sectária com um ideal de país que tem tudo para se tornar num pesadelo.

Esta súbita subida da população é para a esquerda a solução para o “inverno demográfico” de um país envelhecido e de um interior desertificado. Não interessa se os portugueses emigram desde que o mundo inteiro se estabeleça em Portugal. Para a esquerda todas as fronteiras são instrumentos de dominação e de opressão, logo a política sem fronteiras é uma solução para os problemas da Humanidade. Surge o ideal de uma Humanidade comum em que a justiça social é o valor único, exclusivo e supremo. A esquerda está convencida que esta é a solução política para a superação do liberalismo político e do capitalismo económico. Resta apenas o pormenor dos imigrantes virem em busca da liberdade e da prosperidade, não da irmandade de uma Humanidade comum.

A esquerda observa os imigrantes como um activo económico numa espécie de reflexo marxista. Para a economia crescer num país esclerosado como Portugal, a imigração em massa é a política pública por excelência. Para a esquerda, a riqueza da nação é a transformação dos imigrantes num factor económico produtivo o que implica a total desumanização do imigrante em nome de uma Humanidade comum. O imigrante é bom porque diminui o “stress demográfico”, porque aumenta a produção, porque paga impostos, porque se ocupa dos trabalhos dos portugueses que não existem e dos empregos que os portugueses recusam. Para a esquerda, os imigrantes são uma espécie de inversão do processo colonial – Se o colonialismo foi um fenómeno de extractivismo económico, a imigração é a “versão universal inclusiva” de um novo extractivismo económico. Tudo somado não é possível esquecer o cinismo de um slogan que proclama que nenhum ser humano é ilegal.

A direita radical observa a imigração como uma ameaça à identidade de uma nação culturalmente unificada. Toda e qualquer perturbação na estabilidade étnica e cultural da nação implicam uma ameaça à identidade e ao modo de vida do país. A direita acredita nas fronteiras como construções políticas que preservam a soberania e a segurança da nação. Longe de leituras marxistas, a direita vê na imigração uma componente parasita dos recursos do país e da riqueza da nação. Não existe virtude económica nem demográfica na imigração porque o que existe é a real decadência de uma comunidade de destino. O imigrante é o “outro” não é o “nosso” e esta distinção alimenta todas as discriminações, alimenta todos os medos mais a ideia da “grande extinção” e o fantasma da “grande substituição”. Aqueles que não pertencem não são apenas ilegais porque são objectivamente os inimigos internos que enfraquecem a cultura e a identidade da comunidade original. O racismo resulta tanto da ideia política de uma qualquer superioridade étnica ou cultural como resulta também de um sentimento de ameaça politicamente baseado no medo – O medo de perder uma identidade.

Portugal tem um sério problema político. Dividido entre as leituras da esquerda radical e da direita radical, o país político não sabe como enfrentar o facto consumado desta nova imigração. A nova imigração tem consequências económicas, mas também tem consequências identitárias associadas a uma nação protegida dos grandes movimentos migratórios pela geografia e pela pobreza. O país mudou e a mudança observa-se nas ruas no quotidiano mais banal. Os portugueses não sabem o que é politicamente o multiculturalismo. Os portugueses não sabem o que é sociologicamente a integração. Também convém desconstruir a ideia de que Portugal é uma nação cosmopolita. Os efeitos da desregulação política da imigração vão mudar Portugal. A intolerância pode aumentar. A tolerância pode prevalecer. Mas na realidade é intolerável ser apenas tolerado.

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Musa Imigrante

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