Nada está perdido. Ainda
O Governo, apesar de novo, parece velho, fatigado, vicioso. Está na altura de apresentar novas caras, novas ambições, um novo ímpeto reformista.
Que o Governo tem problemas, já todos percebemos. Na saúde, há muito que estão a descoberto e a não aprovação da reforma laboral foi a cereja no topo do bolo. Contudo, diria que o maior problema de todos é a incapacidade evidente de marcar a agenda mediática ou o tom da discussão. Se muitos fomos escrevendo sobre a necessidade de uma reforma laboral, até mais ambiciosa, a Ministra foi incapaz de explicar aos portugueses a necessidade da mudança. Perante uma medida, por definição, altamente impopular, deixou a oposição partidária e os comentadores mediarem a discussão e controlar os termos do debate. O resultado está à vista, foi desastroso.
Se no primeiro governo Montenegro, a capacidade do executivo para marcar o ritmo noticioso semanal era clara, a segunda legislatura tem sido marcada pelo oposto. Seja por cansaço, seja por desleixo, as sondagens vão espelhando a tendência. É verdade que são amostras diminutas, recolhidas em momentos manifestamente não eleitorais, e que a lei laboral terá oferecido ao Governo o seu momento de maior impopularidade. É também verdade que, em Portugal, apenas dois primeiros-ministros incumbentes perderam eleições, Sócrates e Santana, ambos em situações profundamente extraordinárias.
Apesar disto, o clima eleitoral já se sente no ar. José Luís Carneiro, sabendo que em 2028 terá oposição interna, tem incentivo em, até lá, atirar o barro à parede. Ventura sabe que a sua imagem pode começar a acusar desgaste; afinal de contas, em 2029, terão passado 10 anos desde que se tornou líder do Chega, e aproveitar um momento de manifesta fraqueza do Governo seria o ideal.
A estratégia da vitimização em que o PSD parece ter apostado, à partida, seria a acertada. 1987, 2022 e 2025 confirmam-nos essa perceção. O problema de Montenegro é que não controla totalmente os tempos políticos. As más sondagens precipitam a oposição e os sociais-democratas sabem que têm de escolher o timing certo. Espero estar enganado, mas estão reunidas as condições para a antecipação de uma “corrida ao armamento”.
Neste cenário de imprevisibilidade, do Presidente da República espera-se que seja o garante da estabilidade. Quando Marcelo anunciou que dissolveria a Assembleia no caso de um chumbo do Orçamento do Estado, tornou-se claro que estava a incentivar aqueles que procuravam eleições: fomos para eleições em 2022. O problema de Marcelo não foi a sua decisão, apesar de discordar frontalmente dela, mas sim o facto de a ter anunciado antecipadamente. Um Presidente deve preservar em si todas as possibilidades. É isso que constitui a sua magistratura de influência. Seguro cometeu o mesmo erro, mas em sentido inverso. Ao anunciar que não dissolve na sequência de um chumbo orçamental, está a estimular os partidos que vivem do caos. Se o PS já há muito se quis colocar fora de qualquer negociação e se o Chega vive do marasmo, o Orçamento para 2027 pode ser decisivo.
Hoje, é evidente: uma parte do PSD embandeirou em arco. Houve quem achasse que 2025 era o novo normal, que o PS estava condenado ao destino dos socialistas franceses. Houve quem achasse que o PPD seria o macronismo português, o partido charneira do centrão político. Afinal, é aí que se ganham as eleições. Escrevi-o aqui: mesmo com um dominiozinho absoluto, nada está garantido. Nada garantia que não fosse o PSD a tornar-se redundante. E nada garante.
Contudo, desenganem-se aqueles que querem ler neste texto um manifesto de derrotismo. Ainda há algum alento. O Governo, apesar de novo, parece velho, fatigado, vicioso. Está na altura de apresentar novas caras, novas ambições, um novo ímpeto reformista. Montenegro deve ser capaz de enunciar as reformas perante as quais as oposições atuaram como forças conservadoras de bloqueio, forças que impedem a renovação que o país precisa. Está na hora de expor ideias, apresentar visões a longo prazo, mostrar arrojo e desapego.
O futuro do PSD pode estar nas mãos de Luís Montenegro. Não é apenas o centro-direita que beneficia de um PPD assertivo, autónomo e ambicioso; beneficia também a salubridade do sistema político português. A ultrapassagem do Chega seria provavelmente fatal para a perspetiva de um governo corajoso, reformista e capaz de devolver a esperança. Nada está perdido. Ainda. Veremos quem está à altura.
Assine o ECO Premium
No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.
De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.
Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.
Comentários ({{ total }})
Nada está perdido. Ainda
{{ noCommentsLabel }}