Nova SBE: em defesa do progresso
Depois da discussão do nome, espera-nos um debate importante sobre que tipo de sociedade (e universidade) queremos construir.

- A rubrica Geração de Ideias dá voz aos distinguidos com o Prémio Professor Jacinto Nunes, atribuído pelo Banco de Portugal, e que distingue os melhores alunos da licenciatura em Economia. Joaquim Rodrigues foi distinguido enquanto aluno da NOVA SBE, relativamente à edição de 2024/2025.
O progresso acontece quando alguém, na sua área de influência (limitada) e tirando partido das competências de que dispõe (limitadas), decide ir mais longe. Foi isso que aconteceu, nos últimos anos, na Nova SBE. Sucessivas lideranças da faculdade, devidamente capacitadas e empoderadas, decidiram construir um modelo de ensino que servisse melhor os seus alunos. E assim se atingiu o progresso.
Mas o progresso tem um problema: abre assimetrias. Os seus motores não são omnipotentes, nem omnipresentes e, por isso, têm o seu espaço de intervenção extremamente confinado. Desse modo, ao tratar-se de um passo em frente solitário, o progresso é um processo que abre fendas.
Por isso, o progresso cria privilegiados – os que estavam no sítio certo à hora certa.
Eu sinto-me privilegiado por ter estudado na Nova SBE. Pude usufruir de um campus fantástico, com todas as infraestruturas de que poderia necessitar. Pude contar com um corpo docente competente e internacionalizado, motivado para ensinar de acordo com as exigências do século XXI. Pude beneficiar de uma liderança ambiciosa e focada em criar uma experiência de aprendizagem que estimulasse a minha curiosidade intelectual e me capacitasse para superar os desafios do futuro. Sei que muito disto são exceções. Por outras palavras, privilégios. Por esses privilégios, só posso sentir uma coisa: gratidão.
Mas o que acontece quando procuramos uma sociedade sem privilegiados? Há duas formas de o fazer.
A primeira consiste simplesmente em proibir as assimetrias e os privilegiados. Passa por decretar que todos os passos que dermos em frente enquanto sociedade terão de ser dados em total sincronia e por não hesitar em empurrar para trás qualquer um que ouse começar a correr. Por outras palavras, é agrilhoarmo-nos uns aos outros, transformando qualquer movimento relevante num esforço de coordenação hercúleo.
Ao fazê-lo, estamos a asfixiar o progresso, encurtando o seu escopo e a sua cadência. Estamos a produzir uma sociedade em que, não havendo privilegiados, todos saímos perdedores. Ao deixarmo-nos cegar pela inveja e pela pequenez, promovemos um enorme autoflagelo.
A alternativa é abraçarmos o progresso. É descentralizarmos competências e poder e, assim, criarmos as condições e os incentivos para que os exemplos de superação se possam multiplicar. Mas é fazê-lo ao mesmo tempo que lutamos por uma sociedade sem vieses, onde as boas ideias não nascem sempre nos mesmos sítios e, assim exigimos, não ficam limitadas ao seu espaço de nascença. É construirmos um modelo de sociedade (ou de universidade) disruptivo e criativo, em que as boas ideias bem podem começar por diferenciar alguns, mas rapidamente se tornam um motor de desenvolvimento para todos. Um modelo definido pela autonomia e pela exigência.
Enquanto ex-aluno da Nova SBE e à luz da tinta corrida nos últimos dias, queria tomar esta oportunidade para deixar umas breves notas:
(1) estudar na Nova SBE foi, pessoal e academicamente, uma jornada de enorme realização;
(2) reconhecendo que há muitos outros exemplos de progresso espalhados pelo Ensino Superior português, acredito que algumas das práticas implementadas na Nova SBE e das condições oferecidas aos seus alunos são distintivas e, por isso, sinto-me profundamente privilegiado por ter beneficiado delas;
(3) por estes dias, acompanho quem se preocupa com a delapidação de uma marca importante do Ensino Superior português, mas também compreendo aqueles que, orgulhosos da sua língua, não desejam ver Portugal povoado inteiramente por universidades ou faculdades de nome estrangeiro. Atendendo ao entrosamento do nome atual e ao facto de o inglês ser a língua de funcionamento da instituição, creio que faz todo o sentido deixar a designação como está;
(4) acima de tudo, importa perceber se esta determinação é ou não o fim da história. Preocupa-me que não seja. Nesse sentido, deixo este apelo para que todos nós, portugueses – e, em particular, nós, jovens portugueses – nos dediquemos a substituir a cultura do nivelamento por baixo pela cultura da exigência. Só assim conquistaremos o progresso inclusivo que tanto desejamos.
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