Editorial

O homem que ganhou mesmo quando perdeu

Belmiro de Azevedo é tudo o que já se disse e escreveu, e muito mais do que ficará por dizer e escrever. É acima de tudo um homem que ganhou mesmo quando perdeu. E nos permitiu ganhar a todos.

Belmiro de Azevedo morreu. Não é um choque, a doença já o tinha atacado há anos, é uma tristeza, e uma perda. O homem que era gestor e se fez empresário, ‘O’ empresário, o homem que saiu do Norte para o mundo, era tudo o que já se disse dele nas últimas horas, mas era mais, um homem que ganhou sempre alguma coisa, mesmo quando perdeu. Sempre. Porque nunca deixou de fazer o que entendia, mesmo quando todos o aconselhavam a fazer o contrário.

A vida de Belmiro de Azevedo anda de mãos dadas com o desenvolvimento económico, social e financeiro do país nos últimos 40 anos. Na indústria, na distribuição, até na comunicação social. Criou empresas, criou emprego, assumiu riscos e não teve apenas vitórias. Criou uma escola, uma forma de fazer, escreveu os mandamentos do homem Sonae. Um exemplo. Belmiro era tudo isso. Mas era mais. Mesmo quando entrou em negócios (às vezes em confrontos), sabia que tinha tudo a perder e, apesar disso, não recuava. O exemplo mais evidente desta capacidade de risco e de ousadia foi mesmo o lançamento da OPA sobre a Sonae. À data, era impensável que um empresário nortenho tivesse a ambição de ser dono da todo-poderosa PT. Perdeu, como se sabe hoje, por causa de uma intervenção política e de uma rede de interesses e suspeitas de corrupção. Mas perdeu, mesmo? O país ganhou.

Belmiro de Azevedo era um dos homens mais ricos do mundo, será este um dos headlines dos próximos dias, os rankings da Forbes, a riqueza avaliada em milhares de milhões, mas na verdade isto era mesmo o menos importante.

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A OPA da Sonae sobre a PT foi o início do fim de um regime. A partir daí, nada foi como dantes, o universo intocável da PT/GES deixou de o ser, a própria operadora foi obrigada a separar o que era conhecida como a rede de fibra e a rede de cobre, e daqui nasceu a Zon, que, ironia do destino, haveria de voltar a aparecer no seu caminho e a dar origem à NOS, com a fusão com a ‘sua’ Optimus. A OPA sobre a PT foi em 2006, e fica na memória, e nas imagens de televisão, a entrada numa sala de hotel, com Paulo Azevedo, Ângelo Paupério e outros quadros do grupo Sonae, confiante e decidido. Naquela imagem está tudo o que é Belmiro. E o que (nos) deixou.

Belmiro de Azevedo era um dos homens mais ricos do mundo, será este um dos headlines dos próximos dias, os rankings da Forbes, a riqueza avaliada em milhares de milhões mas, na verdade, isto era mesmo o menos importante. Desde logo para si próprio, pela forma como viveu, frugal. O homem com fama de rico e comportamento de pobre. Importante foi o que deixou, a cultura de independência, sobretudo em relação a um poder político que, salvo raras exceções, nunca respeitou. Belmiro não admitia incompetência, menos ainda a cultura de dependência em relação os políticos que nunca tiveram que pagar salários e decidiam a vida das empresas e, tantas vezes, o seu futuro. Essa independência, nomeadamente em relação ao Estado e aos sucessivos governos, de direita e de esquerda, continua a ser, hoje, uma virtude que é preciso sublinhar a várias cores.

Belmiro de Azevedo deixou-nos. Mais pobres pela sua ausência, mais ricos pela sua ambição.

PS: O PCP rejeitou o voto de pesar no Parlamento pela morte de Belmiro de Azevedo. É este o mesmo partido que louva Che Guevara. É o mesmo partido que suporta o Governo. Como é possível que António Costa troque os princípios pelo poder?

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