O Homem sem qualidades
Como é que um país tão esplêndido, farto em riquezas naturais, com um povo simpático, trabalhador e acolhedor elege um palhaço maníaco e incendiário para presidente?
Enquanto a motorista do metro de Nova Iorque conta ao The New York Times, numa carta elucidativa e comovente, a realidade daqueles que não podem ficar em casa “We are not essencial, we are sacrificial”, e os pescadores apelam aos portugueses para, neste verão, assarem sardinhas à varanda, reparo no novo post da conta da marca brasileira Osklen, no Instagram.
O que é que alguém que paga 147 Reais (cerca de 24€) por uma máscara Osklen tem? Tem de ser empalado contra uma parede muito suja de lixo.
Melhor ir responder a um daqueles desafios do Facebook, escolher os dez álbuns de música que mais nos influenciaram o gosto pessoal. Afinal, podemos viver sem lojas, aviões, carros, mas não sei quem – além do monstro brasileiro, que nunca deve ter ouvido Kraftwerk nem Stranglers – vive sem livros, filmes, ou música.
Como é que um país tão esplêndido, farto em riquezas naturais, com um povo simpático, trabalhador e acolhedor elege um palhaço maníaco e incendiário para presidente, que em meio ao pico da pandemia brasileira planeia um churrasco, com cerca de 30 convidados “para bater um papo e jogar uma peladinha”, no Palácio do Planalto? Ele além de semear a confusão, desencoraja abertamente as medidas sensatas de distanciamento físico, introduzidas por governadores e Prefeitos do Rio de Janeiro e de São Paulo.
Já não são só os indígenas ameaçados, é todo o povo brasileiro. E quando tem de ser o Tribunal Regional Federal a determinar que o presidente divulgue os resultados dos exames que ele não quer revelar, para que se saiba se está ou não infetado, enquanto vai passando os dias a ouvir coronéis reformados do Exército, ex-oficiais do Serviço de Informação Brasileiro e a Regina Duarte, namoradinha do Brasil do mau hálito que, louca, dá entrevistas que nos renovam todas as definições de vergonha alheia.
O nosso fear of missing out não nos ajudará a destituir estes dois seres sem noção, sem inteligência, sem moral, sem caráter e sem vergonha? A crise que aí vem tem de nos fazer repensar questões essenciais e, sobretudo, parar com remendos. O “Livro de Estilo de Bolsonaro e outros quejandos” terá de ser substituído. Parece muito inútil face a uma simples gripezinha, como o capeta lhe chamou. É que o vírus, além de não ler o Twitter, não pode ser mandado calar.
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