O imobilismo da esquerda portuguesa

Afinal, ao contrário do que pensava, parece que há um consenso de que a FCT funciona bem e não são necessárias reformas,

Esta semana, em Portugal, tivemos a oportunidade de assistir a um milagre. Tal como Cristo terá multiplicado o pão e o peixe para alimentar a multidão, em Portugal parece ter-se multiplicado a população que Jurava que o mau funcionamento da FCT era um dos poucos temas que unia o país.

Da esquerda à direita – de todos os lados ouvia bradar contra o andamento arcaico da instituição. Contudo, quando alguém tentou mudar, muitos dos que criticavam a fundação passaram a criticar a nova ideia. Surgiram tantas críticas, que parecia mesmo que a população se tinha multiplicado. É gente da antítese e por aí se fica.

Não quero com este artigo dizer que as propostas são panaceias, que tudo vai ficar bem em meia dúzia de semanas. Claro que não. É certo que algumas das medidas não vão correr bem ou vão até ser de dificílima execução, mas também é certo que deixar como estava não era solução.

O Ministério da Educação era conhecido pela sua ingovernabilidade, pelos seus demasiados interesses instalados, pela dimensão dos poderes fáticos das organizações que o compunham e do corporativismo de algumas classes. Reduzir de 18 para 7 o número das entidades sobre a alçada do ministério, bem como reduzir de 45 para 27 os dirigentes superiores é certamente um ótimo primeiro passo.

Como Fernando Alexandre realçou, o ganho não está na poupança de recursos, nem no retorno de centenas de professores às escolas (também está, mas não principalmente), mas sim, nos efeitos positivos da reorganização, nos ganhos de sinergia das fusões, bem como nas perdas de vícios de algumas elites dirigentes.

Claro que a ideia não está isenta de obstáculos: requalificar alguns técnicos superiores pela sua idade pode ser desafiante, renovar dirigentes ou eliminar hábitos pode revelar-se praticamente impossível. Porém, numa reforma como esta, ainda para mais sendo, ao que tudo indica, a primeira de várias, o importante é haver uma compreensão clara das falhas do atual sistema e vontade política de concretizar o proposto. O ministro Alexandre parece cumprir ambos os critérios.

Enquanto espectador, desconheço o funcionamento de quase todas as entidades em questão, mas, enquanto estudante, dos organismos que já contactei, como por exemplo a DGES, parece-me generalizada a incompreensão de vários mecanismos, prazos ou pedidos de informação repetida.

Nunca hei de perceber por que razão os estudantes têm de esperar até agosto para saberem se têm bolsa – o que é independente do concurso nacional de acesso -, onde foram colocados ou se têm ou não alojamento público. Da mesma forma, de instabilidade e imprevisibilidade similares se queixam muitos investigadores bolseiros da FCT. São sintomas claros de sistemas que já não servem os seus propósitos.

Se nas propostas para a reforma da lei laboral teria mais críticas de fundo a fazer – essencialmente, acho que na flexibilização se podia ir mais longe e que o governo se tem perdido em questões que não me parecem conter os incentivos corretos -, na reforma de Fernando Alexandre vejo genuína vontade de mudança, verdadeira vontade de mudar maus hábitos.

É verdade que não se pode esquecer que as reformas não são decretos e que, para já, ainda não avançamos disso, mas o empenho na direção certa está lá. Desde o início do governo que me parece que Fernando Alexandre tinha todas as condições para ser o melhor governante do executivo. A ambição de quebrar com poderes instalados e de impor a sua visão para a educação, sempre com accountability, tem tudo para garantir que assim seja.

Com base no que vimos na última semana, pode-se, de novo, concluir algo que há muito sabemos – a esquerda portuguesa, especialmente a costista, mas não só, sofre de uma espécie de condicionamento pavloviano sempre que ouve a palavra ‘reforma’. Não é só na educação, nas propostas para o mercado laboral as reações foram até mais iradas. Mas se neste último caso, percebo que envolva mais preconceitos ideológicos de parte a parte, no caso da educação é pura aversão à mudança. Tudo isto faz do cenário político português algo verdadeiramente sui generis, isto porque a nossa esquerda é conservadora – o seu plano para o país é conservar o status quo tal como está.

Correndo o risco de ser simplista, quando da esquerda, no tema da educação, ouvimos tecer críticas ferozes à vontade de ‘implosão’ do ministério, em geral, é sinal de que o ministro está a fazer um bom trabalho. Das forças reacionárias, da Fenprof ao PCP, ouvimos comparações ao período de Nuno Crato, naquilo que o ministro deve encarar, naturalmente, como um elogio. Pensando bem, talvez o maior milagre não seja a multiplicação da população, mas sim que um país estagnado tente, finalmente, reformar-se — mesmo contra a inércia mascarada de convicções.

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