O Paciente Inglês

Hoje é o Brexit que confunde o destino político e o desenlace económico entre as duas margens da Mancha.

Aprender francês em Inglaterra é o mesmo que pertencer a um gang. Quando o nevoeiro dispersa o cinzento pelo Canal da Mancha, o Daily Mail espalha à largura da primeira página: “O Continente está isolado”. Quando o Imperador Júlio César pisou pela primeira vez a costa de Inglaterra ficou estupefacto com a agressividade dos homens de cabelo ruivo e pintados de azul que o ameaçavam com o inferno.

Depois, há o fascínio de Voltaire pelas leis e liberdades britânicas, o culto dos charutos de Churchill, as falésias brancas de Dover, a idealização do countryside e à distância os cemitérios de guerra que marcam a paisagem e a história da Europa. Politicamente o Canal que separa a Grã-Bretanha da Europa é o mapa de um labirinto em permanente mudança.

Hoje é o Brexit que confunde o destino político e o desenlace económico entre as duas margens da Mancha.

Nos dois últimos anos, em vez da formação de um Governo Nacional para negociar os termos do Brexit, assiste-se a uma contínua e turbulenta negociação no interior do Governo Conservador para se estabelecer os termos económicos e políticos da saída do Reino-Unido da Europa. Como tal, as conversações em Bruxelas oscilaram entre o silêncio e o caos, prometendo o pior dos cenários. Na perspectiva da Europa, as negociações foram iniciadas com o espírito de Versailles. Primeiro, com um inóspito estilo de retaliação de modo a assumir o domínio total do processo; depois com a óbvia intenção política de dissuadir todo e qualquer membro da União da mais remota intenção de invocar o artigo 50 do Tratado de Lisboa.

Em vez da afirmação da soberania Britânica, sem plano ou ideia definida sobre o significado do Brexit, assiste-se à deriva total aliada à fraqueza e à forçada subserviência de Londres. Em vez da compreensão entre velhos aliados, assiste-se a uma Europa agressiva e inflexível, contrastando com todas as posições políticas e económicas de reconciliação na linha dos Tratados Fundadores.

Com o White Paper perfeitamente ultrapassado, com a visão de um soft Brexit cada vez mais uma miragem, com a forte probabilidade de um hard Brexit, até mesmo com a possibilidade de um segundo referendo de novo na equação política, o Reino-Unido fora da Europa talvez não seja a “colónia” que muitos vaticinaram, mas não será mais um rule-maker para se transformar definitivamente num rule-taker. A nostalgia de um Império numa era pós-imperial terá sido a grande ilusão do Brexit.

Desde o primeiro momento dominou entre os Brexiteers a ideia de que não haveria necessidade de um qualquer acordo de transição com a Europa, uma vez que a Grã-Bretanha teria a capacidade de definir uma nova zona de comércio livre infinitamente superior à da União Europeia. Na eventualidade desta nova realidade, e nas análises do Governo de Sua Majestade em cenário de hard Brexit, todos os estudos sugerem uma diminuição do PIB entre os 2% e os 8% num horizonte de 15 anos, quantificando as previsões dos ganhos na ordem dos 0.6%. Mesmo com o acordo de comércio tão desejado pela China, haverá sempre o risco da influência política se propagar através da influência económica, aliás o modus operandi típico da política externa do Império do Meio. Em qualquer dos cenários é a obscenidade do declínio económico e a promiscuidade da decadência política no conclave das nações.

Afinal o Brexit não é um momento instantâneo no tempo, mas é um processo prolongado e complexo no tempo. A supremacia de Bruxelas representa no tumulto das negociações uma amputação do projecto político europeu. O hard Brexit ao implicar um corte abrupto dos laços económicos e políticos com a União pode ser o maior erro político autoinfligido por um Estado na história da Europa no pós-guerra. Para um país com a dimensão, a influência e a tradição do Reino-Unido, todas as opções seguem o caminho da humilhação.

Nota: O autor escreve segundo o antigo acordo ortográfico.

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