O pessimismo e a tecnologia em Davos

O contraste no tom do últimos encontros anuais da elite demonstram que o discurso face à tecnologia já mudou

Davos pode ser o local onde os poderosos do mundo vão discutir como perpetuar o seu clube mas, dada a dimensão da reunião de cérebros e a sua qualidade, vale a pena medir o pulso aos temas em discussão. E é por isso que o contraste com o ano passado é tão interessante. Em 2018 Trump seguiu o guião e limitou-se a ler um discurso neutro; este ano, sem lá ir, conseguiu dominar as conversas graças às consequências da sua guerra comercial e do seu nacionalismo económico, que está a matar a mesma globalização que enriqueceu todas as cabeças presentes na localidade suíça.

Na tecnologia o paralelismo é ainda mais rico. Há um ano, Davos encheu-se de elogios às criptomoedas, à blockchain e ao mundo do big data. Sheryl Sandberg, a mulher que é responsável pela máquina publicitária demoníaca do Facebook, ainda foi recebida com honras e Sundar Pichar, CEO do Google, ainda pode defender a sua abordagem ética à inteligência artificial. Só George Soros partiu a loiça e acusou as gigantes tecnológicas de serem uma ameaça para o mundo, algo que se confirmou abundantemente durante os últimos doze meses.

Menos de dois meses depois de Davos18 chegou o escândalo Cambridge Analytica, revelando a forma como as redes sociais enriquecem a manipulação emocional dos utilizadores e contribuem para a degradação da coesão social. E também se ficou a saber como a Google abriu negociações com Pequim para ter uma versão censurada do seu motor de pesquisa a circular na net chinesa. Ficou-se ainda a saber que o próprio Soros foi visado por uma campanha de ódio paga pelo Facebook em retaliação pelo discurso feito em… Davos.

Por tudo isto, o tom deste ano foi ainda mais interessante. Pouco se falou de criptofinança, antes se discutiu a desvalorização das boas e velhas moedas nacionais. Em vez de redes sociais defenderam-se tecnologias aparentemente mais inócuas como a Realidade Aumentada; e quando chegou a hora de dar o palco a um dos gigantes, veio o CEO da Microsoft defender a regulação de todas as tecnologias – acusando explicitamente o mercado de não ter preocupações éticas e apelando aos governos para que exerçam os seus mecanismos de controlo (o discurso terá agradado aos especialistas da União Europeia, que tem muito trabalho feito nesta área e que estão neste momento com um impasse nas mãos graças às trapalhadas com o Artigo 13).

Já Soros elegeu um novo alvo, a China, por causa da sua política repressiva ampliada pela inteligência artificial e a ameaça que representa às sociedades abertas. E foi muito claro ao defender o ataque à Huawei e à ZTE como parte de uma estratégia necessária para impedir que a China domine o 5G, o que seria um “risco de segurança inaceitável para o resto do mundo”. Se alguém tinha dúvidas da forma como a tecnologia interseta a geopolítica, os últimos dois anos de Davos devem ter fornecido uma boa resposta.

Com sorte, no ano que vem serão já discutidas as consequências dos primeiros esforços de regulação efetiva da tecnologia. E talvez até se comece a discutir a edição genética e a exploração espacial – todas elas têm abordagens técnicas, comerciais, mas têm acima de tudo uma dimensão ética que tem de ser dissecada. Davos continua a ser um belo local para tirar estas discussões da academia e levá-las para o grande público.

Ler mais: Uma abordagem muito crítica (e cínica) de Davos pode encontrar-se neste Winners Take All, obra de um ex-jornalista e analista que tem produzido vários textos relevantes. Embora militantemente anti-elite (e um bocadinho irritante por isso mesmo), o livro levanta um ponto interessante ao explicitar a forma como a ação dos poderosos conduz aos problemas que os mesmos poderosos dizem querer resolver em Davos.

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