O preço de não compreender

  • Tiago Neves
  • 16 Setembro 2026

A incerteza sobre a complexidade do mundo e a incapacidade de compreensão sobre o mesmo dá origem a teorias de conspiração, e a economia não escapa a esse fenómeno.

  • A rubrica Geração de Ideias dá voz aos distinguidos com o Prémio Professor Jacinto Nunes, atribuído pelo Banco de Portugal, e que distingue os melhores alunos da licenciatura em Economia. Tiago Neves foi distinguido enquanto aluno da Católica Porto Business School, relativamente à edição de 2024/25.

 

1 morte é uma tragédia, 1 milhão é uma estatística.

Esta citação, normalmente atribuída a Joseph Stalin, apesar da sua fonte exata ser um mistério, contém uma ideia profunda sobre economia, estatística e, sobretudo, o modo como compreendemos a informação.

A frase capta a dificuldade do cérebro humano em processar desastres de grande escala. É-nos difícil apreender emocionalmente a dimensão de uma guerra, de um genocídio ou de uma epidemia que mate milhões de pessoas. Sabemos o que significa um milhão, mas somos incapazes de imaginar concretamente a dimensão humana de um milhão de mortes. Não conseguimos conceber a soma das experiências perdidas por trás de um número tão grande. No entanto, uma tragédia individual consegue-nos comover mais profundamente do que uma catástrofe que envolve milhões. Uma tem um rosto, uma história e uma sequência de acontecimentos que conseguimos acompanhar. Outra reduz-se a uma estatística.

Esta dificuldade não desaparece quando passamos da esfera humana para a económica. De facto, esta dificuldade explica bastante dos movimentos que têm capturado o debate político.

Em economia, é fácil pensar a transação entre duas partes individuais envolvendo quantias modestas. Compreendemos os incentivos de cada interveniente e imaginamos as trocas alternativas ao seu dispor. O problema surge quando tentamos transportar essa intuição para uma economia inteira. De repente, já não estamos perante uma pequena troca entre dois indivíduos, mas perante milhões de decisões, realizadas simultaneamente, envolvendo milhões de empresas e instituições e biliões de euros, dólares, ienes… que ocorrem todos os minutos de todos os dias.

A economia deixa, então, de ser algo que conseguimos observar diretamente. Curiosamente, é neste momento que nos afastamos do significado original da palavra. Economia deriva do grego oikos (casa) e nomos (administração), referindo-se originalmente à gestão dos recursos de uma casa. Hoje, porém, aquilo a que chamamos economia está muito longe do significado original. A economia é uma entidade supranacional que nenhum indivíduo ou instituição consegue controlar na sua totalidade. É composta por milhões de transações individuais, decisões de investimento, compras, vendas, contratações, empréstimos e poupanças que acontecem a cada instante e que, em conjunto, produzem aquilo a que chamamos de sistema económico.

Então surge a questão. Como pode alguém compreender um sistema que é, por definição, demasiado grande para ser observado?

As consequências da incapacidade de compreensão são severas. Antigamente, as transações financeiras de grandes magnitudes restringiam-se a pessoas com conhecimento financeiro suficiente, que entendiam a totalidade do sistema económico-financeiro, bem como a sua própria incapacidade de manipulá-lo.

Durante muito tempo, a complexidade do sistema económico esteve relativamente afastada do cidadão comum. O sistema financeiro esteve sempre entregue a um pequeno conjunto de instituições: Dos templários, no séc. XII, aos comerciantes-banqueiros italianos, no séc. XIV, dos primeiros bancos públicos de depósitos em Amesterdão e dos ourives-banqueiros de Londres, no séc. XVII, aos primeiros bancos centrais, no final desse século, às grandes dinastias banqueiras como os Rothschild e Barings, no séc. XVIII e XIX, até à
emergência de grandes bancos e a novos poderes consagrados aos bancos centrais, no séc. XX. No entanto, na era de informação, mercados, produtos financeiros e transações de tamanho incomensurável estão disponíveis a qualquer pessoa com uma conexão de internet.

Um público que, maioritariamente, não consegue acompanhar a totalidade das relações económicas passou a ter acesso direto a um sistema cuja complexidade não consegue observar na sua totalidade.

Um público que, maioritariamente, não consegue acompanhar a totalidade das relações económicas passou a ter acesso direto a um sistema cuja complexidade não consegue observar na sua totalidade. É a mesma dificuldade da citação inicial. O ser humano consegue captar as partes individuais, mas não o seu agregado.

Perante a dificuldade de compreensão, surge uma tendência natural humana para procurar uma explicação que torne o funcionamento do sistema inteligível. Se a política e a economia são compostas por milhões de decisões individuais e interações que nenhum indivíduo consegue acompanhar na sua totalidade, é tentador imaginá-las como organismos coordenados por um conjunto de regras e por uma autoridade capaz de ordenar os seus movimentos. Quando a ordem não é evidente, recorremos a heurísticas, procurando simples relações de causa e efeito e, sobretudo, agentes que possam ser responsabilizados pelos resultados que observamos.

O ser humano está habituado a viver num mundo de relações hierárquicas. Quer nas empresas, onde alguém dá uma ordem e outra pessoa executa-a, quer nos governos, onde alguém toma uma decisão e uma instituição implementa-a, quer nas famílias, escolas e outras organizações… estamos sempre perante estruturas em que as decisões emanam de cima e são transmitidas para baixo. Quando encontramos um sistema de enorme complexidade, é natural projetarmos sobre ele a mesma estrutura que conhecemos.

Assim, a complexidade inerente a milhões de transações individuais e aos fluxos de milhões de euros ou dólares movimentados a cada hora é transformada na crença de que deve existir alguém, algures, a comandá-los.

É esta incerteza sobre a complexidade do mundo e a incapacidade de compreensão sobre o mesmo que dá origem a teorias de conspiração. Como humanos, não gostamos de aleatoriedade. Preferimos atribuir intenção a acontecimentos do que aceitarmos que vivemos num mundo cheio de caos. É assustador pensar que uma crise financeira possa surgir sem que ninguém a tenha desejado.

De facto, é esta incerteza sobre a complexidade do mundo e a incapacidade de compreensão sobre o mesmo que dá origem a teorias de conspiração. Como humanos, não gostamos de aleatoriedade. Preferimos atribuir intenção a acontecimentos do que aceitarmos que vivemos num mundo cheio de caos. É assustador pensar que uma crise financeira possa surgir sem que ninguém a tenha desejado. Que uma guerra possa resultar de uma sucessão de decisões, erros de cálculo e incentivos incompatíveis, em vez de obedecer a um plano cuidadosamente elaborado. Que um presidente possa ser assassinado pela ação de uma única pessoa sem que exista necessariamente uma conspiração maior por detrás do acontecimento.

Ironicamente, a complexidade que leva as pessoas a imaginar uma elite no controlo é exatamente o que torna esse controlo impossível. Se ninguém consegue apreender o sistema na sua totalidade, ninguém o pode dirigir.

Teoricamente, a escola Austríaca baseia-se, precisamente, neste pensamento. Os seus defensores dizem que a complexidade da economia, aliada à natureza descentralizada do conhecimento, torna impossível que qualquer indivíduo ou autoridade consiga compreender e controlar o sistema na sua totalidade. Qualquer tentativa de controlo ou da própria matematização de modelos é um esforço inútil, uma vez que o conhecimento relevante está disperso e não pode ser recolhido integralmente por uma autoridade central sem perdas de informação significativas.

O mecanismo que permite a coordenação é, segundo os Austríacos, o sistema de preços. Os preços funcionam como um mecanismo de transmissão de informação. Quando, por exemplo, o preço do cobre sobe, um industrial na Alemanha pode decidir utilizar menos cobre sem precisar de saber se a subida resultou de um colapso da mina no Chile, de uma nova inovação tecnológica na China ou de uma alteração nas expectativas dos investidores. O preço transmite-lhe apenas a informação necessária para alterar o seu comportamento.

Ao não perceberem que os preços representam o resultado de milhões de decisões, as pessoas tendem a achar que podem corrigi-los por decreto. É assim que ganham apoio medidas como controlo de preços, tetos máximos de preços ou tarifas, apesar de a generalidade dos economistas as considerar contraproducentes.

A incompreensão da complexidade da economia acaba por moldar grande parte do debate político. Ao não perceberem que os preços representam o resultado de milhões de decisões, as pessoas tendem a achar que podem corrigi-los por decreto. É assim que ganham apoio medidas como controlo de preços, tetos máximos de preços ou tarifas, apesar de a generalidade dos economistas as considerar contraproducentes. Mas, pressionados pela vontade popular, os políticos acabam por aplicá-las para ganhar votos.

Passamos grande parte do nosso tempo a tentar descobrir quem controla o sistema porque não conseguimos compreender como o sistema funciona. Mas talvez a característica mais extraordinária do sistema seja precisamente o facto de ninguém o precisar de entender na sua totalidade. Milhões de pessoas conseguem coordenar as suas ações sem conhecer as decisões umas das outras e sem existir uma autoridade central responsável por ordenar o conjunto.

Procuramos um cérebro capaz de organizar o sistema, porque estamos habituados a pensar que a ordem exige alguém que a imponha. Tal como na citação inicial, é-nos mais fácil fixar num rosto individual do que conceber uma ordem ou magnitude sem cara.

A história oferece várias demonstrações de que não há ninguém em controlo. Em 1929, num mercado incomparavelmente menos democrático e mais manipulado por insiders do que o de hoje, foram esses mesmos insiders a ser apanhados desprevenidos. Como narra Andrew Ross Sorkin, no seu livro 1929, quando o pânico começou, um consórcio dos banqueiros mais poderosos de Wall Street juntou o seu capital para sustentar o mercado e falhou em dias. Se a elite alguma vez tivesse tido o controlo, teria impedido o início da queda e conseguiria tê-la travado. Não o fez porque não podia. Ninguém podia.

Igualmente, os governos são incapazes de controlar a economia em momentos descontrolados. Em 1992, o Banco de Inglaterra gastou milhares de milhões de libras para tentar impedir a queda da libra. Não conseguiu. O mercado foi mais forte que a própria instituição responsável por controlar a moeda.

Nada disto significa que o poder não existe, nem que a influência dos poderosos seja uma ilusão. Há, claramente, agentes institucionais grandes o suficiente para moverem preços e fazer vergar certos mercados à sua vontade por algum tempo. Significa apenas que confundir influência em certos mercados com controlo absoluto é um erro. A economia nasce da fricção permanente entre forças que se cruzam em milhares de mercados. Nenhuma pessoa ou instituição, por mais rica que seja, consegue comandar a economia.

No fim, não conseguimos compreender a magnitude do sistema, tal como não compreendemos um milhão de mortes e, na dúvida, preferimos encontrar culpados. Mas a verdade é mais desconfortável. A economia não falha por sabotagem, falha porque a informação que a move está dispersa por todos. Não há soluções sem custos, nem governos capazes de evitar os trade-offs das suas decisões, porque todos os agentes económicos colidem no limite do que é possível saber.

  • Tiago Neves
  • Colunista convidado na rubrica "Geração de Ideias". Licenciado em Economia pela Católica Porto e mestrando em Finanças na Nova SBE.

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