O protecionismo de Trump: Um jogo de perdas para todos
o protecionismo é um remédio que agrava a doença. Num mundo que precisa de investimento e coordenação para enfrentar desafios como a transição energética, erguer muros tarifários é regressivo.
À margem do Fórum Económico Mundial de Davos, Donald Trump voltou a colocar o comércio internacional no centro da agenda, desta vez com uma ameaça inédita: A imposição de tarifas punitivas aos países europeus que não apoiem a eventual anexação da Gronelândia pelos Estados Unidos. A instrumentalização da política comercial para fins geopolíticos marca uma nova escalada na estratégia trumpista, transformando tarifas em instrumentos de coerção diplomática. Politicamente eficaz, esta narrativa é economicamente falaciosa. Por detrás da retórica esconde-se uma realidade simples: o protecionismo é um jogo de soma negativa — um verdadeiro loss-loss em que todos perdem.
O ponto de partida está nos welfare theorems da teoria económica. O primeiro teorema do bem-estar mostra que, na ausência de distorções, o equilíbrio competitivo é eficiente em termos de Pareto. O segundo teorema demonstra que qualquer distribuição eficiente pode ser alcançada através de transferências, sem distorcer preços relativos. Em termos simples: o comércio livre maximiza a eficiência; a redistribuição — não as tarifas — deve corrigir desigualdades.
Quando um país impõe tarifas, introduz distorções nos preços relativos. O resultado é um deadweight loss, uma perda irrecuperável de bem-estar social. As tarifas encarecem bens importados, penalizam consumidores, reduzem o excedente do consumidor e incentivam a produção doméstica em setores onde o país não é competitivo. Simultaneamente, reduzem o comércio internacional, comprimindo o excedente do produtor nos países exportadores. A receita arrecadada pelo Estado é inferior à perda líquida de bem-estar. Não há vencedores.
É este o paradoxo do protecionismo trumpista. As tarifas sobre aço, alumínio ou automóveis, supostamente destinadas a “proteger empregos”, resultam num aumento dos custos de produção para empresas americanas dependentes desses insumos. As cadeias globais de valor estão profundamente integradas e não respeitam fronteiras políticas. Ao encarecer importações, as tarifas reduzem a competitividade, elevam preços ao consumidor e diminuem o poder de compra das famílias. O protecionismo funciona como um imposto regressivo, afetando desproporcionalmente rendimentos mais baixos.
A lógica de “win-win” é um equívoco. O comércio internacional não é um jogo de soma zero. A teoria das vantagens comparativas, de David Ricardo, mostra que todos os países ganham ao especializarem-se onde são relativamente mais eficientes. O livre comércio permite a alocação eficiente de capital, trabalho e tecnologia. “Fechar-se” significa bloquear essa realocação e destruir valor económico.
A experiência recente confirma. Entre 2018 e 2020, durante a guerra comercial com a China, o défice comercial americano não diminuiu. As empresas deslocalizaram cadeias de produção, mas não regressaram aos EUA — mudaram-se para Vietname, México ou Malásia. O resultado foi custo económico sem benefício estrutural. Estimativas do Federal Reserve e do Peterson Institute apontam para uma perda de cerca de 0,3% do PIB e destruição líquida de empregos industriais — exatamente nos setores “protegidos”.
Na China, as exportações caíram, mas o Estado respondeu com subsídios, criando novas distorções produtivas. O comércio mundial desacelerou. Quando as duas maiores economias do mundo erguem barreiras, o choque propaga-se a terceiros países, sobretudo economias emergentes integradas nas cadeias globais. O protecionismo não cria vencedores; multiplica perdedores.
Aqui surge um ponto crucial muitas vezes ignorado: o comércio não destrói empregos — transforma-os. Os ganhos de eficiência libertam recursos de setores menos produtivos para setores mais dinâmicos. O problema político surge quando os sistemas de proteção social falham na transição, deixando trabalhadores expostos a choques assimétricos. Países que combinaram abertura comercial com fortes políticas de requalificação profissional, como a Dinamarca ou a Alemanha, conseguiram absorver melhor estes ajustamentos. Isto prova que o problema não é a globalização, mas a falta de políticas de adaptação.
A ideia de que o comércio “rouba empregos” é uma simplificação política perigosa. O problema real não é a abertura, mas a má redistribuição dos seus ganhos. Aqui regressa o segundo teorema do bem-estar: se o comércio aumenta o excedente global, o Estado deve usar políticas redistributivas — impostos progressivos, formação profissional, políticas ativas de emprego — para compensar os perdedores. Substituir isso por tarifas é confundir justiça social com autarcia económica.
Há ainda um custo geopolítico crescente. A fragmentação do comércio — a chamada slowbalization — enfraquece instituições multilaterais como a OMC e promove blocos regionais. O mundo caminha para uma ineficiência coordenada, sacrificando ganhos de escala e especialização. O resultado é menos crescimento, menos inovação e maior volatilidade de preços — precisamente o oposto do necessário numa economia digital e interdependente.
Davos pode representar apenas uma trégua tática, não uma mudança estrutural. Trump continua a ver o comércio como um jogo em que os EUA só ganham se os outros perderem. Mas a economia global é um sistema de interdependências. Quando as tarifas sobem, o custo recai sobre todos. É por isso que o protecionismo é sempre loss-loss.
Um último ponto merece destaque: O protecionismo cria incerteza, e a incerteza é inimiga do investimento. Empresas que enfrentam riscos tarifários imprevisíveis adiam decisões de expansão, inovação e contratação, reduzindo o crescimento potencial. Estudos do FMI mostram que choques de incerteza comercial têm efeitos semelhantes a choques recessivos, travando investimento privado e comércio global. Este canal é frequentemente ignorado no debate político, mas é crucial: não é apenas a tarifa em si que destrói valor, é a instabilidade que ela gera. Quando regras mudam por capricho eleitoral, o custo é pago em menor produtividade e menor crescimento de longo prazo.
Além disso, a lógica de retaliação é autoalimentada. Tarifas geram tarifas, criando espirais de guerra comercial que não têm mecanismo automático de reversão. Cada país tenta “proteger-se”, mas acaba por importar inflação, exportar desemprego e minar a confiança internacional. O resultado final é um equilíbrio inferior — todos pior do que antes.
Em suma, o protecionismo é um remédio que agrava a doença. Num mundo que precisa de investimento, inovação e coordenação para enfrentar desafios como a transição energética, erguer muros tarifários é regressivo. O comércio livre não é perfeito, mas continua a ser a melhor aproximação prática à eficiência de Pareto. Substituí-lo por nacionalismo económico é abdicar da razão em nome da ilusão. Trump pode ganhar votos. O mundo perde eficiência, crescimento e bem-estar. E quando todos perdem, não há vitórias possíveis, nem mesmo para os Estados Unidos da América.
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