Os debates e a estratégia de Ventura

Desde 2019 muita coisa mudou, a forma de fazer política não será mais a mesma, não contam mais os mesmos valores ou atributos.

Desde o início do período dos debates, tenho sido bastante seletivo na escolha dos que vejo: por regra, vejo os debates entre os cinco candidatos à segunda volta; a exceção é ver um ou outro debate pela quantidade de sangue esperada ou o do dia anterior em diferido enquanto faço o jantar. Como qualquer boa regra, tem uma grande margem de exceção.

Infelizmente, uma fatia considerável dos que debates que temos tido são pautados pela total ausência de discussão, até das mais elementares ideias. A função presidencial não é a que mais potencie ideias discrepantes ou abordagens muito diferenciadoras, é certo. Todavia, discutir momentos e condições para dissolução, chumbos do OE, revisões constitucionais, vetos políticos ou a forma de exercer a magistratura de influência ou a gestão da palavra são temas essenciais para os portugueses votarem em consciência.

Neste contexto de ausência de ideias concretas, quem impera é Ventura. O líder do Chega sabe bem que estas eleições são difíceis tanto pela disputa de eleitorado com o Almirante, como pela perceção pública de que está na eleição errada. Contudo, sabe também da importância que as eleições têm. Uma segunda volta seria absolutamente histórica, enquanto ficar de fora a sua maior derrota pessoal. Talvez por isto estes debates têm sido uma espécie de medley dos greatest hits. “Conversa de treta” ou “conversa de xaxa”, juntamente com o “melhoral” são ao mesmo tempo os grandes êxitos e a melhor síntese da própria postura de Ventura.

No entanto, não quero de todo para este texto aquela postura altiva ou superior que caracteriza uma parte significativa dos comentadores que avaliam os debates de Ventura. Analistas que deixam a análise de lado para priorizar a moralização das massas ou uma mera ponderação normativa. Surpresa das surpresas: o candidato que nunca ganha debates, vence nas urnas. Ventura percebeu, como nunca ninguém em Portugal, que a verdade em política é igual à mentira, porque ambas não passam de perceções que os eleitores têm ou não.

A estratégia para o debate é simples: ataques programados e inflamados, respostas assertivas, irónicas ou até achincalhantes e apartes que impeçam o adversário de seguir um fio condutor de ideias. Os ataques e as respostas são sempre bem pensados e desenhados ora para irritar ora para as redes sociais, onde a máquina de propaganda trabalhará de seguida. Mas o segredo está nas interrupções e aí as televisões também têm culpa.

Ventura está em debates desde as presidenciais de 2021, a estratégia é sabida desde então e os cronómetros continuam a estar do lado dele. Convido o leitor a reparar no cronómetro de Ventura sempre que interrompe: ou nem sequer mexe, ou anda 1 ou 2 segundos, enquanto o oponente perdeu 15 segundos com a interrupção ou gesticulação. A estratégia é literalmente infalível, na medida em que, sem perder tempo, o tira aos adversários. Não consigo perceber como é que a falha ainda persiste.

As candidaturas de André Ventura têm sido como as ervas daninhas: medram em todo o lado e parece que crescem independentemente daquilo que lhes façamos – tem sido assim. Não digo que Ventura não tenha perdido alguns debates, porque perdeu pelo menos meia dúzia, mas nunca saiu de um debate com os objetivos gorados: nunca aí perdeu eleitorado, enquanto ganha sempre soundbytes. À mulher de César, não basta ser, deve parecer, e nos debates a regra é a mesma, não ganha quem tinha melhores ideias, mas quem depois do fim souber gerir melhor o fluxo de informação.

Desde 2019 muita coisa mudou, a forma de fazer política não será mais a mesma, não contam mais os mesmos valores ou atributos. Ventura percebeu isso, mas não pode ser imbatível. O eleitorado não é seu, os temas também não e Cotrim nestas eleições tem mostrado isso: há outra forma de olhar para os mesmos problemas e chegar ao mesmo eleitorado. Por isto, o debate de 19 de dezembro é tão importante. Dia 18 de janeiro é o dia D. Vamos ver quem tinha razão.

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