Perigo presidenciais

Portugal deve decidir entre a razão de Estado ou a missão moral. Ou talvez não. Portugal pode sempre optar pelo zig-zag de um país à margem.

O problema é que as Presidenciais representam o estado do regime – A dispersão de um sentido democrático e a afirmação da radicalização política. Os candidatos sem créditos e sem perfil são o resultado de uma crise potencial e silenciosa que pode anunciar uma revolução no regime.

O futuro da democracia liberal está em aberto, logo é o tempo de todas as forças políticas antidemocráticas e antiliberais à esquerda e à direita. Porque o regime democrático se acomoda à repetição acrítica de um discurso esvaziado de sentido, mas pleno de preocupação em manter o status quo. O comodismo repetitivo de que um candidato de centro-esquerda e de um candidato de centro-direita conseguem unificar as duas grandes famílias políticas é uma realidade do passado e uma ilusão perigosa. A política conhece uma profunda aceleração histórica em que as ideias políticas mais insalubres começam a ser um elemento normal ao debate político contemporâneo. Depois de cinquenta anos de consenso democrático, o consenso esgotou o prazo de validade.

A democracia pelo mundo parece um regime político em recessão, perdido na confusão dos seus sucessos e dos seus fracassos. A narrativa do sucesso foi prevalecente, mas hoje está posta em causa por uma narrativa política original que revisita ideias e modos alternativos de organização social e política. O cansaço democrático, a estagnação económica, os poderes fácticos, a híper-desigualdade, o regresso da guerra, a agonia do estado-social, a vaga de imigração, tudo converge num sentimento de vulnerabilidade em que a democracia é observada como a grande causa e a única origem. Quando o mundo muda e a democracia prevalece estática, estão abertas as portas para soluções políticas novas. E as Presidenciais reflectem este mal-estar político que invade a Europa e se instala também em Portugal.

Vem esta reflexão a propósito da sondagem que dá o Chega como o primeiro partido português e a possibilidade de um Ventura a Presidente. Se ser o primeiro partido português e governar Portugal sempre foi a ambição central, surge agora uma via alternativa através das eleições Presidenciais. O que é óbvio é que a imagem do partido entre os portugueses aponta para as Presidenciais como um momento de forte aceleração política.

A ideia de que a mudança de regime pode ser mais imediata e súbita, não através de um Primeiro-Ministro instalado em São Bento, mas através da figura tutelar do Presidente da República inquilino de Belém. A fixação a uma variante do ódio político entre o PS e o PSD, mais as ideias peregrinas de um “cordão sanitário” à direita radical, estão a abrir um espaço na democracia portuguesa onde se podem instalar todas as aventuras políticas. Com a esquerda dispersa e moribunda coberta pela sombra de uma bandeira da Palestina, o espaço político está aberto às aventuras mais extremas de uma direita radical que vê uma oportunidade política nunca antes observada. O Chega sabe que o momento pode ser decisivo, mas que arrasta sempre o imponderável do risco político. “Sem risco a política é uma chatice. Sem ética a política é uma vergonha”.

No vazio do espaço deixado pelas “soluções democráticas mais clássicas”, mas também na demissão dos designados “candidatos naturais”, existe ainda a figura austera e politicamente desarticulada do Almirante. Politicamente o Almirante é de uma rigidez robótica e de uma insensibilidade marítima. Simplesmente egocêntrico e desprovido de um qualquer sentido político, o Almirante oferece o carisma de uma farda e a disciplina da ignorância política elevada à máxima potência da superioridade moral. O Portugal do Almirante é uma espécie de “ode marítima” na proximidade do “cais da saudade” tendo como programa político a celebração dos frescos de Almada Negreiros. Na selva desordenada de tantas criaturas, ou melhor, candidaturas, imaginam uma segunda volta das Presidenciais disputada entre Ventura e o Almirante?

As Presidenciais estão a reflectir duas grandes tradições da política no Ocidente. Por um lado, a tradição europeia que não atribui qualquer importância às questões morais, prevalecendo sempre o efeito da “razão de Estado” – O conflito é uma situação natural e o único propósito político é prevalecer nesse conflito. Por outro lado, a tradição americana de que a democracia é o melhor regime – A garantia da autodeterminação, da liberdade individual, dos direitos de cidadania, da riqueza das nações e da paz entre os homens.

Na observação contemporânea do mundo é óbvio que a América representa hoje o pior da tradição europeia e que a Europa representa ainda o melhor da tradição americana. A inversão politicamente perversa está a tornar-se uma tendência hegemónica global – O mundo está a transformar-se no território do conflito e a política projecta-se no exercício do poder pelo poder.

Portugal deve decidir entre a razão de Estado ou a missão moral. Ou talvez não. Portugal pode sempre optar pelo zig-zag de um país à margem.

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