Presidente & Unicórnio
Se as Presidenciais fossem uma fábrica de unicórnios, as Presidenciais falham na confusão dos desaires de tantas startups.
Depois dos debates presidenciais fica o país mais pobre. Depois dos debates presidenciais fica o país mais rico. O país fica mais pobre porque as personalidades dos candidatos brilham com a placidez soturna da banalidade. O país fica mais rico porque passa a conhecer melhor a banalidade do mérito democrático nos cargos da República. Não que os candidatos sejam a maravilha fatal da modernidade. Todos os candidatos têm um passado e uma história política prévia a este momento inicial e primeiro. E este é talvez o grande equívoco da tournée de concertos políticos em forma de duetos desafinados – A ideia de que as Presidenciais são o momento fundador de um novo ciclo político. O novo ciclo político está entre nós e é bem visível através do confronto entre a fidelidade à democracia de Abril e a definição de uma “nova democracia” para a incerteza do novo século.
A importância das Presidenciais não está em causa. O que está na linha da discussão é o elenco de uma orquestra política em que confluem todo um complexo de candidatos que representam uma democracia que atravessa a crise da meia-idade. Alguns candidatos desconhecem os problemas da meia-idade política porque acabaram de chegar ao Regime em movimento democrático acelerado. Alguns candidatos conhecem as crises da meia-idade política porque as suas carreiras políticas terminaram sem brilho ou distinção e procuram agora uma segunda vida política. Alguns outros candidatos vêm de fora da política e pensam que a política é apenas uma extensão emocional do estatuto de cidadão patriota e bom português. Todos os candidatos se apresentam impulsionados pelo sobressalto cívico e pelo mérito que promove a justiça perfeita e a sociedade bem ordenada ao serviço de todos os portugueses.
A questão do mérito é essencial para compreender o momento político das Presidenciais. Quais são as qualidades que fazem o mérito de um Presidente da República? O mérito político não é uma variável científica estabelecida por critérios uniformes e universais. Como tal, os debates acabam por revelar que o mérito político é uma apreciação individual e subjectiva que cada candidato define e manipula de acordo com as suas supostas qualidades.
Esta pulverização e polarização do mérito político explicam o desencontro de muitos debates, a mediocridade de outros debates, a impossibilidade de comparar candidatos que não se regem pelo critério político do bem público de uma comunidade de destino e que deverá estar na base da escolha política de um Presidente da República. Pela conveniente ordem do mérito político existem tantas visões convenientes de Portugal como existem variações das personalidades políticas dos candidatos. Parece que os portugueses não vão eleger um Presidente da República para Portugal, mas vão antes escolher uma opção para Portugal condicionada pelo mérito político dos candidatos.
Na presunção política dos candidatos não existe lugar para o demérito político. Esta meritocracia confunde-se com os argumentos políticos dominados pela demagogia e pela ausência de uma ideia ou visão de país. Os debates revelam sobretudo o exercício dos direitos políticos como uma extravagância extraída dos privilégios do establishment, derivada dos privilégios do dinheiro, centrada nos privilégios de quem se julga a representação da moral e do futuro para resgatar Portugal e espantar a Humanidade. Temos candidatos poderosos, temos candidatos ricos, temos candidatos revolucionários. As eleições presidenciais também reflectem a nova velha arquitectura tripartida dos grandes blocos da República.
Estes blocos da República explicam muito das correntes descritas na temporada dos debates. A política, as ideias políticas, são a grande ausência destes confrontos artificiais onde se confrontaram interesses naturais. A política em Portugal continua a ser o confronto de interesses disfarçado de reflexão ideológica. O país continua a não ter mecanismos de ascensão social e sustentação económica para suportar discussões políticas com a densidade e a profundidade dos problemas do país. Na ausência de uma reflexão política sobre a realidade do país, o debate político voa imediatamente para a insinuação sobre a vantagem económica, para a suspeição das ligações perigosas, para a evidência de um país parasita que apenas sabe orquestrar a extracção de rendas permanentes. Pelo discurso, Portugal seria um país próspero sem o país parasita. Eis o grande diagnóstico político sem vestígio de acção política.
Se as Presidenciais fossem uma fábrica de unicórnios, as Presidenciais falham na confusão dos desaires de tantas startups. As Presidenciais revelam um país que, se quisesse, enlouquecia. As Presidenciais apresentam um país que tanto pode morrer de amor como resistir. Espero que o país opte pela resistência.
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