Editorial

Se o líder quiser mudar, muda. Mas… o líder quer mudar?

Hoje não há troika, mas a urgência, paradoxalmente, até aumentou. Luís Montenegro quer vir a ser conhecido pela história de que forma? Como uma cópia de Costa ou como uma cópia de Cavaco (e de Passos?

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Pedro Passos Coelho falou… e de forma mais clara do que nunca. As notícias que fizeram títulos (também no ECO) foram as críticas à escolha de Luís Neves para o Governo, diretamente da PJ, as críticas à evidente má gestão na Saúde ou até a oposição à regionalização, embora reconhecendo os malefícios do centralismo. Mas a mais importante das notícias desta intervenção do ex-primeiro-ministro foi outra, e que terá de ser avaliada a prazo, com resultados.

É preciso, primeiro, conhecer o contexto da conferência em que Pedro Passos Coelho participou. Foi numa casa de empresários, na AEP, na última conferência, a oitava, de um conjunto de eventos promovido pela associação e pela SEDES para discutir as reformas de que o país precisa. Passos tinha uma agenda que ia além da atualidade do dia.
Qual foi a mensagem principal, então? O país precisa de reformas, as reformas dependem de liderança política, o primeiro-ministro tem pela frente um período alargado de governação, os portugueses estão cansados deste ‘rame-rame’, o Governo tem a obrigação de avançar com mudanças estruturais e a composição do parlamento não é uma desculpa para deixar as propostas na gaveta.

De uma intervenção de mais de meia hora, há uma frase-chave, com um destinatário óbvio:

  • Se o líder quiser mudar, muda. Se tiver essa prioridade, muda, pode acertar mais, pode acertar menos, mas muda. Acho que, nesta altura, há boas razões para nós acharmos que é possível mudar. Passaram-se as eleições todas… vamos embora, vamos trabalhar, vamos justificar o tempo que está à nossa frente, para reagir ao inesperado, isso é sempre importante, à incerteza que nos pode bater à porta, mas vamos fazer o nosso trabalho, planeado, de mudar o futuro. Porquê? Porque este futuro que nos espera, nós não queremos. Queremos um futuro diferente, então temos de fazer por ele. As pessoas esperam isso… “.

O ponto de partida é conhecido, mas aparentemente levado com alguma leviandade. Como é que é possível que se aceite, que aceitemos, que a produtividade per capita em Portugal ande ligeiramente acima dos 70% da média da União Europeia? E que o PIB per capita, a riqueza por habitante, seja na realidade, incluindo já todos os imigrantes que estão no país, abaixo de 80%? Perdemos, ano após ano, posições no ranking do nível de vida, e continuámos no topo dos que mais exigem esforço fiscal aos contribuintes.

Não são estes indicadores que deveriam indignar, que deveriam causar uma tempestade de cidadania? A responsabilidade não é obviamente de Montenegro, também não é de Passos Coelho, que tirou o país da bancarrota. É de Guterres, de Sócrates e de Costa, primeiro-ministro que ficou conhecido pela habilidade política e pela aversão às reformas.

Passos tem aliás, nesta conferência, um ato de contrição, coisa que se vê pouco nos ex-governantes (porque os governantes em exercício garantem-nos sempre que vão fazer tudo, mesmo que não tenham pensado um segundo em tal coisa). Perante uma pergunta sobre o que faria de diferente como primeiro-ministro naquele período histórico, admitiu que a urgência da reforma do Estado não foi antecipado, mas lembra: “O programa que eu apresentei nas eleições era não menos ambicioso, na área estrutural, do que a troika apresentou, em alguns aspetos até mais ambicioso”. Não, antes da lenga-lenga, isto não é ir ‘além da troika’, é, ou seria, reformar o país, mas a queda no precipício em abril de 2011 mudou tudo.

Hoje não há troika, mas a urgência, paradoxalmente, até aumentou. Luís Montenegro quer vir a ser conhecido pela história de que forma? Como uma cópia de Costa ou como uma cópia de Cavaco (e de Passos?) O atual primeiro-ministro criou um Ministério da Reforma do Estado, deu-lhe poder político e relevância dentro da orgânica do Governo, mas isso não basta, como aliás se percebe. É certo que Montenegro viveu uma crise política, eleições, e por isso leva dois anos de Governo que parecem três ou quatro, mas agora deixou de ter desculpas. E o primeiro teste será a reforma laboral. Vai ceder às pressões dos sindicatos na concertação ou vai suportar politicamente a ministra do Trabalho e levar uma proposta de reforma digna desse nome ao Parlamento?

Afinal, como diz Passos, “se o lider quiser mudar, muda“.

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