‘Spoiler alert’: a IA não vai devolver os lugares ‘entry-level’
Talvez a resposta esteja menos na promessa de “empregos para todos” e mais na ambição de criar trabalhos que realmente valham a pena.
Nos últimos anos, a resposta à escassez de talento em tecnologia pareceu relativamente simples: se não há engenheiros suficientes, formam-se mais. Tens um diploma “pouco empregável”? Inscreves-te num bootcamp de três meses, aprendes a programar e, de repente, entras pela porta lateral do setor tech. Multiplicaram-se academias intensivas e programas de reconversão pensados exatamente para isso. Agora, com a entrada em cena da Inteligência Artificial (IA), esta dinâmica está a ser completamente transformada.
Antes de mais, como engenheiro de software, vejo uma diferença fundamental entre um software engineer e um software coder. Ser engenheiro de software, no sentido pleno, é difícil sem uma formação universitária que vá além de aprender a programar e inclua algoritmos, física e matemática. Um bootcamp de três meses nunca será equivalente a um curso de três ou cinco anos.
Modelos de linguagem (LLMs) conseguem, atualmente, escrever código ao nível de quem acaba de sair de um bootcamp intensivo. Não desenham a estrutura, nem tomam decisões técnicas mais complexas (isso continua a exigir engenheiros com anos de formação e experiência), mas produzem exatamente o tipo de trabalho que, até aqui, justificava grande parte das posições entry-level. Sendo assim, por que razão uma empresa contrataria um ex-químico convertido em junior coder, quando pode ter a IA a gerar o mesmo output e pedir a um engenheiro sénior que apenas valide e aperfeiçoe?
Isto não significa que a IA esteja pronta para escrever, sozinha, código pronto para produção. Significa, sim, que o degrau mais baixo da escada está a desaparecer, deslocando os humanos para níveis onde a exigência técnica e intelectual é bem mais alta. Tal como aconteceu com a Revolução Industrial, com as máquinas a substituírem parte do trabalho muscular, os algoritmos começam a substituir parte do trabalho intelectual.
No fundo, o que está a acontecer na tecnologia é apenas o primeiro capítulo de um livro que vai abranger quase todas as áreas profissionais. Estamos perante a necessidade de repensar de raiz os sistemas de educação e formação à luz da IA. O génio já saiu da lâmpada, pelo que tentar travá-lo é uma luta perdida à partida. É verdade que a IA está a criar novas formas de desigualdade no mercado de trabalho, favorecendo quem domina melhor a tecnologia e trazendo desafios para quem tem mais dificuldade em adaptar-se, em particular as gerações mais velhas. Mas, na prática, não é muito diferente do que aconteceu com o surgimento dos computadores ou da Internet. Já nessas alturas houve quem resistisse, quem aprendesse mais depressa e quem ficasse a meio caminho, e a discussão era exatamente a mesma: o ritmo a que a tecnologia avança e a capacidade de cada um para a acompanhar.
Ao contrário de uma máquina, um ser humano pode inventar algo que nunca foi visto, fora de qualquer matriz probabilística. É nesse espaço que reside a vantagem competitiva humana. Há tarefas altamente padronizadas, repetidas milhões de vezes, que já fazem pouco sentido nas mãos de pessoas. Há outras, marcadas pela incerteza e pela necessidade de avaliar probabilidades em tempo real, em que a IA pode ser um co-piloto importante. E, por fim, há aquelas que exigem empatia, leitura subjetiva de contexto e entendimento de emoções. Nestas últimas, os algoritmos continuam estruturalmente limitados.
A tentação de manter humanos em trabalhos que já não fazem sentido apenas para proteger empregos é grande, mas não deixa de ser uma forma de desperdício coletivo. Precisamos de deixar de ter pessoas em empregos aborrecidos, burocráticos e sem sentido, apenas para cumprir horário. Talvez a resposta esteja menos na promessa de “empregos para todos” e mais na ambição de criar trabalhos que realmente valham a pena.
Tudo isto levanta, inevitavelmente, a questão do desemprego estrutural. Ainda assim, o debate costuma ignorar (ou não discutir com o peso que merece) um fator decisivo: a demografia. A maior parte do mundo desenvolvido tem taxas de natalidade abaixo do necessário, e caminhamos para sociedades onde dois terços da população serão compostos por gerações mais velhas e apenas um terço será constituído por gerações mais jovens.
Considerando isto, a discussão mais urgente deixa de ser sobre a possibilidade de a IA eliminar empregos e passa a ser sobre quem vai produzir comida, assegurar cuidados de saúde e manter as infraestruturas básicas quando não houver pessoas suficientes em idade ativa. E, como não parece provável que a pirâmide etária se inverta, o cenário mais realista indica que vamos depender de máquinas para manter estas sociedades a funcionar. Nesse cenário, a automação passa a ser uma necessidade básica, uma questão de sobrevivência.
É provável que as coisas piorem antes de melhorarem. As políticas vão, quase inevitavelmente, tentar congelar o status quo e proteger empregos da automação, forçando um equilíbrio que a tecnologia já colocou em causa. Haverá pressão, protecionismo e travões formais, mas isso só vai adiar o inevitável. A médio prazo, tentar travar a IA será sempre uma má aposta.
A questão já não é saber se a IA vai ser central no futuro do trabalho. Claro que vai. A questão é se começamos já a transição, libertando pessoas do trabalho repetitivo e burocrático e redesenhando o trabalho humano em torno daquilo que só nós conseguimos fazer, ou se preferimos adiar a decisão… Até o sistema rebentar pelas costuras.
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