Modtissimo é o único salão têxtil na Península Ibérica este ano. “É a prova que o setor tem garra”

Foi o único salão têxtil a ser realizado, este ano, na Península Ibérica devido à pandemia e tem uma missão bem definida: ajudar o setor a retomar e mostrar o que melhor se faz em Portugal.

Nem a pandemia do novo coronavírus impediu o Modtissimo de arrancar esta quarta-feira na cidade do Porto. Pouco antes das dez da manhã já era grande a agitação que se fazia sentir à porta da Alfândega. Após vários meses sem marcar presença em feiras nacionais e internacionais, o entusiasmo dos visitantes e expositores saltava à vista, até dos mais distraídos, ao entrar no único salão têxtil a ser realizado este ano na Península Ibérica, devido à pandemia.

No evento que já vai na 56.ª edição, e que termina esta quinta-feira, o ambiente é diferente, as expressões estão camufladas pelas máscaras, mas a missão é a mesma: reunir as várias áreas da indústria têxtil portuguesa e ajudar o setor a retomar. Estão presentes mais de 120 empresas responsáveis pela apresentação de um total de 200 coleções.

“O Modtissimo atraiu 95% dos expositores da última edição. É a prova que o setor têxtil tem garra. Quero destacar a perseverança destas pessoas que decidiram vir, mesmo sabendo que não será uma feira igual às outras e que quase por milagre terá tantos compradores como teve em edições passadas. Estou muito orgulhoso desta indústria que respondeu sim a este desafio”, destaca Manuel Serrão, CEO da Associação Selectiva Moda, que organiza o evento.

Feira têxtil MODtissimo, na Alfândega do Porto - 23SET20
Ricardo Castelo

Para o presidente executivo da Selectiva Moda, o grande objetivo é “contribuir para um aumento da retoma do negócio”, de forma que “a indústria comece a recuperar”. Manuel Serrão destaca que o Modtissimo poderá ser uma oportunidade para o setor: “Com menos feiras no resto do mundo, estamos convencidos que um evento nesta altura até pode ter um interesse especial”, afirma.

Com o setor a registar perdas pelo sexto mês consecutivo, os empresários consideram que estar presente num certame desta dimensão é uma grande oportunidade. “É um ano atípico e o Modtissimo foi o único evento presencial em que conseguimos estar com os nossos clientes. Estar presente nesta feira é sem dúvida uma oportunidade e estou convicto que vamos ter bastantes visitas“, destaca o diretor comercial da Tintex, Nuno Malheiro.

Manuel Serrão adianta que o número de visitantes ainda é uma incógnita, e que a única certeza é que são esperados mais visitantes estrangeiros. O ECO encontrou em desses casos. Acabada de chegar ao mais antigo salão têxtil da Península Ibérica, a espanhola Raquel Cozar, veio propositadamente de Madrid para conhecer o Modtissimo pela primeira vez, mas com uma missão bem definida: fazer contactos. “Sou consultora e quero encontrar fabricantes de diferentes tipos de produtos para saber a quem recorrer quando for necessário. Quero tocar, sentir os produtos e fazer contactos. Estou certa que vou encontrar o que necessito”, conta ao ECO, a visitante espanhola.

Inovação aliada à sustentabilidade, é uma nova exigência do consumidor

A pandemia veio acelerar a transição digital e o Modtissimo é uma forma de as empresas mostrarem os avanços que têm feito nesse sentido. A Adalberto e a Smartex são disso exemplo. “Alteramos a nossa estratégia e estamos mais focados no digital, estamos a investir muito nesse sentido. Já tínhamos iniciado o processo digital antes da pandemia, mas acabámos por ter que o acelerar para dar resposta a uma nova necessidade. Marcar presença neste evento é uma forma de mostrarmos os nossos primeiros avanços desta estratégia digital”, refere Susana Serrano, CEO da Adalberto.

“Nesta feira podemos encontrar potenciais clientes e no Modtissimo podemos explicar, de uma forma pessoal, como funciona o nosso sistema”, explica Ana Tavares, head of communication & partnerships da Smartex. “Esta feira é uma excelente oportunidade para isso”, refere.

A Smartex desenvolveu um sistema de detação de defeitos através da inteligência artificial. “É um sistema que se instala dentros dos teares circulares para detetarmos produção defeituosa. O sistema filma a produção em tempo real e se for detetado um defeito, a produção é imediatamente parada o que evita o desperdício e garante a inspeção a 100% dos materiais”, explica Ana Tavares.

Feira têxtil MODtissimo, na Alfândega do Porto - 23SET20
Ana Tavares, head of communication & partnerships da Smartex. Ricardo Castelo

O sistema que permite detetar defeitos está a ser um sucesso e a ter procura junto de marcas internacionalmente conhecidas como a Gucci. “Na semana passada instalámos este sistema numa fábrica da Gucci, em Itália”, refere com orgulho, Ana Tavares.

A inovação é um dos temas que está em cima da mesa e como tal tem um espaço de destaque reservado nesta edição. Chama-se “iTechStyle Showcase” e segundo o diretor do Centro Tecnológico Têxtil e Vestuário (Citeve), Braz Costa, neste espaço estão “os produtos que mais de destacam a nível de inovação nos últimos seis meses. Um dos objetivos deste espaço é mostrar ao mundo a capacidade inovadora portuguesa”, conta ao ECO.

Feira têxtil MODtissimo, na Alfândega do Porto - 23SET20
Fato com sensoresRicardo Castelo

E é neste espaço reservado a produtos inovadores que o ECO encontrou um fato de desporto com sensores. “É um fato adaptado ao ciclismo composto por sensores que medem o ritmo cardíaco, aceleração, a velocidade do vento, etc. Conseguimos perceber qual a performance do ciclista através deste fato. Este produto é mais um exemplo de inovação aliada à tecnologia”, explica José Morgado, diretor do departamento de tecnologia e engenharia do Citeve. O produto vai estar à venda a partir de dezembro deste ano.

Para além da inovação, a sustentabilidade também tem um papel de destaque nesta edição. Face às novas exigências dos consumidores, os tecidos recicláveis, produção sustentável e processos amigos do ambiente são muitas das soluções que os compradores podem encontrar.

“A aposta nos orgânicos é inevitável, é a tendência. 50% da nossa coleção pode ser feita de forma orgânica. Mais de 50% das marcas já procuram tecidos orgânicos ou reciclados. É o consumidor que procura a sustentabilidade”, salienta Carlos Azevedo, comercial na Troficolor, empresa fundada em 1956. Carlos Azevedo diz que já sente essa tendência por materias mais ecofriendly há sete/oito anos, mas a procura tem vindo a aumentar.

Feira têxtil MODtissimo, na Alfândega do Porto - 23SET20
Ricardo Castelo

Conscientes que a sustentabilidade é o caminho a seguir, a Adalberto aproveitou o Modtissimo para apresentar pela primeira vez uma nova coleção totalmente amiga do ambiente. “Temos uma coleção 100% biodegradável, com 0% plástico. Até os fios da costura são de algodão tencel que é uma fibra obtida a partir da celulose da madeira de eucalipto”, afirma o diretor de inovação da Adalberto, Hugo Miranda.

O diretor de inovação da Adalberto, empresa que produz cerca de 50 a 60 mil metros de tecidos por dia, e comercializa para grandes marcas como a Inditex, Moschino, Cavallaro, Balenciaga, destaca que as novidades no campo da sustentabilidade não ficam por aqui. A empresa acaba de lançar uma máscara 100% biodegradável com nível de filtração II, ou seja superior a 90% e estão a criar um sistema online que faz todo o cálculo de toda a pegada carbónica de toda a peça, revela ao ECO o diretor de inovação da Adalberto.

Para o diretor do Citeve a sustentabilidade aliada à inovação é o caminho a seguir e deixa um aviso ao país: “Portugal só tem um caminho: ou se diferencia ou não tem qualquer possibilidade. A sustentabilidade é claramente uma forma de diferenciação porque é um grande driver, os clientes pedem cada vez mais isso e, sobretudo, existem cada vez mais marcas que querem apresentar produtos sustentáveis como forma de posicionamento“, refere. Para Braz Costa, Portugal tem feito um “percurso bastante interessante” neste sentido e está “muito bem posicionado”.

A próxima edição do Modtissimo iria aterrar no Aeroporto Sá Carneiro, mas face à impossibilidade da pandemia, o local ainda é uma incerteza, mas a vontade e a garra de embarcar numa nova edição é certa, adianta Manuel Serrão.

 

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