Portugueses prontos para o confinamento. Desta vez, não há açambarcamento nos supers

Em véspera de restrições apertadas, em Lisboa e no Porto poucos foram os que fizeram compras antecipadas. Muitos compreendem a decisão tomada, mas há quem considere que as medidas pecam por "tardias"

Ao contrário do que aconteceu em março, no anterior estado de emergência, desta vez, os portugueses não correram desenfreadamente para os supermercados para se precaverem do “isolamento” que aí vem. Em véspera de recolher obrigatório nos concelhos considerados de elevado risco de transmissão da Covid-19, que obriga a que a maior parte dos estabelecimentos comerciais e restaurantes fechem portas a partir das 13h e que só reabram a partir das 8h do dia seguinte, em Lisboa e no Porto poucas foram os que fizeram compras antecipadas, gerando poucas filas à porta. Muitos compreendem a decisão tomada e há até quem considere que as medidas do Governo pecam por “tardias”.

“Bom dia, está muita gente?, perguntou uma cliente à porta do Lidl de Alvalade, em Lisboa. “Um bocadinho”, retorquiu o segurança. “Ah, então volto depois do almoço”, repostou a cliente, dando meia volta. Margarida Falcão preparava-se para fazer as compras da semana, mas as três pessoas que tinha à sua frente na fila, fizeram-na mudar de ideias. “Não queria vir no fim de semana porque amanhã [sábado] como só está aberto da parte da manhã deve estar completamente cheio. Portanto, venho já antecipadamente”, explica ao ECO, com um cesto de compras na mão esquerda.

O ligeiro aumento da afluência a este supermercado é confirmado pelo segurança do Lidl, enquanto controla atentamente a entrada e saída de pessoas por loja. “Há um bocadinho mais pessoas, sim”, diz, ainda que referindo que nada parecido ao que aconteceu no início da primeira vaga. Tal como Margarida, Jaime Carrelho também veio fazer as compras antecipadamente, mas assegura que “lá dentro, está tudo normal”.

Hugo Amaral/ECO

Mas há também quem não esteja preocupado com as restrições deste fim de semana. Ao contrário de Margarida e Jaime, Luís Matos veio fazer “uma compra pontual” e apesar de concordar com as restrições aplicadas pelo Executivo, afirma que as medidas “pecam por tardias”, antecipando que a aproximação do Natal, período bastante forte para o comércio, poderá “agravar ainda mais a situação”. O Governo “podia jogar por antecipação evitando o número de internamentos em cuidados intensivos, o número de mortes. Não é deixar passar uma semana, duas semanas… Numa semana morre muita gente“, alerta, o antigo militar.

Foi após um Conselho de Ministros extraordinário, por volta da meia-noite do passado sábado, que o primeiro-ministro anunciou ao país as medidas que enquadram o novo estado de emergência proposto pelo Presidente da República. Entre as novidades trazidas está o recolher obrigatório nos concelhos de risco, entre as 23 horas e as 5 horas da manhã, bem como uma maior restrição no recolher obrigatório nos dois sábados e domingos, onde a circulação nestes municípios está vedada a partir das 13h00 e até às 5h00.

E se dúvidas houvesse sobre os espaços que podiam continuar abertos nesse período, António Costa serrou fileiras e veio esclarecer que a generalidade dos estabelecimentos comerciais e restaurantes vão encerrar entre “as 13h00 de sábado e as 8h00 de domingo e das 13h00 de domingo até às 8h00 de segunda-feira”, com exceção feita para farmácias, funerárias ou padarias, por exemplo.

Não venham dizer que isto é para salvar o Natal que isso não faz sentido nenhum. Nós podemos ter outros natais. Isto é para a saúde das pessoas e para não rebentar com o já rebentado Sistema Nacional de Saúde.

Graça Marques

empresária

Tal como Luís Matos, também Graça Marques concorda que as medidas deviam ter sido tomadas há mais tempo. “Acho que não planeámos, não nos preparámos para o que vinha aí. E, portanto, as coisas estão a ser feitas aos bochechos”, alerta a empresária à saída do Pingo Doce, também em Alvalade. Com um saco em cada mão, a empresária assegura que veio fazer “as compras normais” e ao contrário do primeiro-ministro, que por diversas vezes tem mencionado que as medidas tomadas são para “salvar” o Natal, Graça Marques defende que é preciso é salvar as pessoas. “Nós podemos ter outros natais. Isto é para a saúde das pessoas e para não rebentar com o já rebentado Sistema Nacional de Saúde (SNS)”, atira.

Ao contrário do Lidl, a loja do grupo Jerónimo Martins, na Rua João Saraiva de Carvalho, tem um ou outro cliente à porta. Ainda assim, o entra e sai deste Pingo Doce é constante. “Há um bocadinho mais gente e outra vez algumas restrições de entrada. Nos últimos meses, depois do confinamento, entrava sempre sem problemas”, conta ao ECO, outra cliente. Tal como Graça Marques, também Paula Duarte veio fazer as compras habituais. “Costumo ir ao supermercado ali na Quinta do Lambert, mas quando saí de casa vi que estava muita fila e como vinha ao mercado, aproveitei. Mas foi rápido”, assegura.

Com os casos a dispararem de dia para dia, o teletrabalho foi outra das medidas tornadas obrigatórias pelo Executivo. E, como tal, há quem aproveite a hora de almoço para despachar as compras. “Vim fazer compras antecipadas. Como amanhã à tarde vão estar fechados, acho que a manhã deve ser um bocado complicada”, diz José Francisco Veiga. Com um saco em cada mão, o advogado alerta que as restrições destes fins de semana podem “ter o efeito contrário”. “Se o comércio está todo encerrado da parte da tarde acho que as pessoas podem ter tendência para concentrar-se mais no período de tempo em que estão abertos”, atira, considerando que “não há um cuidado coerente ao longo da gestão da pandemia”.

Um quarteirão mais à frente, no Continente da rua Acácio de Paiva, a fila era inexistente, e tanto Bruno Canhoto como António Cardoso vieram fazer “as compras normais”. E se, o primeiro apela ao “sentido cívico” dos portugueses para cumprirem “com aquilo que é determinado a mais alto nível”, deixando para segundo plano se concorda ou não com as medidas, o engenheiro considera que as medidas já deviam ter sido “implementadas mais cedo”, tal como Luís Matos. “Devíamos ter usado a informação antecipada que tínhamos de outros países europeus, tal como na primeira fase em que implementámos uma série de medidas antes. Acho que essa aplicação atempada teria tido efeitos positivos“, defende António Morgado, acrescentado que “o que temos de salvar agora é o Sistema Nacional de Saúde e impedir que o número de infetados cresça ou continue a crescer exponencialmente”.

Vim fazer compras antecipadas. Como amanhã à tarde vão estar fechados, acho que a manhã deve ser um bocado complicada.

José Francisco Veiga

Advogado

De passagem e a fazer uma compra pontual estava também Dina Dias. No entanto, a antiga professora já tinha tratado antecipadamente das suas compras. A viver em Loures, um dos concelhos de maior risco, apela a que as pessoas que tenham “disponibilidade” façam as compras antes já que “amanhã vai ser um pouco complicado”, argumenta. E para a antiga docente os próximos dias não vislumbram dias melhores. “É óbvio que isto vai piorar. Se a nível europeu as coisas estão como estão porque é que em Portugal vai ser um pouco diferente?“, riposta.

Nos supermercados do Norte não existe fila para entrar

Tal como na capital, os hiper e supermercados com mais de 200 metros quadrados vão estar de portas fechadas neste e no próximo fim de semana a partir das 13 horas, mas essa restrição não foi motivo de grande azáfama no Norte do país. Em Vila Nova de Gaia, ao contrário do que aconteceu no primeiro confinamento, não está a acontecer a corrida desenfreada às compras, as caixas não têm grandes filas e o ambiente até esta relativamente calmo para uma sexta-feira à hora de almoço. No Norte, o ECO foi ao Mercadona de Canidelo, à loja do Continente no Gaia Shopping e ao Pingo Doce nas Devesas. O ambiente é idêntico e nenhuma das lojas tem sequer fila para entrar.

Fátima Castro

No Continente do Gaia Shopping, em Vila Nova de Gaia, uma das maiores lojas do grupo a nível nacional, o parque de estacionamento está quase cheio, mas a quantidade de pessoas que estão na loja não fazem jus à quantidade de carros estacionados no parque. José Alçada e a esposa, Maria de Fátima, saíram da caixa do Continente do Gaia Shopping com um carrinho de compras completamente cheio. São ambos aposentados e contam ao ECO que aproveitaram a hora de almoço de sexta-feira para fazer as compras da semana. Explicam que o principal motivo das compras foi por uma questão de precaução face a uma possível confusão. “Estamos a prevenir-nos. A ideia é fugir aos dias que os supermercados vão fechar às 13 horas”, destacam. Em relação ao fluxo José Alçada e a esposa, Maria de Fátima, consideram que está “igual” em relação a outras sextas-feiras. “Não vemos mais pessoas que o normal”, afirmam.

Está tudo muito calmo. Eu costumo vir aqui todas as semanas à mesma hora e está tudo relativamente igual.

Paula Teixeira

Auxiliar de geriatria

No Mercadona, em Canidelo o cenário é muito parecido e à porta não existe nenhuma concentrada de pessoas. Paula Teixeira, tem 53 anos, é auxiliar de geriatria e costuma ir todas as sextas-feiras à loja do Mercadona em Vila Nova de Gaia. Conta que está a sair das compras e que o ambiente “está calmo” e que não se deparou com “nenhuma enchente quando chegou”. “Está tudo muito calmo. Eu costumo vir aqui todas as semanas à mesma hora e está tudo relativamente igual”, destaca enquanto olha à sua volta.

A auxiliar de geriatria destaca que foi às compras durante a hora de almoço de sexta-feira, precisamente um dia antes da obrigatoriedade dos supermercados fecharem às 13h, para comprar alguns bens essenciais e também porque não tem o hábito de ir às compras ao fim de semana. “Vim buscar algumas coisas que estavam a falhar em casa e também porque não tenho por hábito fazer compras ao fim de semana”, diz Paula Teixeira.

À semelhança de Paula Teixeira, Paula Carneiro, 52 anos, professora, diz que também não tem o hábito de fazer compras ao fim de semana. “Normalmente não faço compras ao fim de semana, muito menos da parte da tarde”, afirma. A professora também não notou um grande fluxo de pessoas nas compras. “O fluxo de pessoas vai ser pior ao fim de semana. Está tudo muito tranquilo, as pessoas já se anteciparam durante a semana e também não acredito muito na corrida desenfreada às compras à semelhança da outra vez”.

Um dia antes das medidas mais apertados por volta das 13 horas, a loja do Mercadona em Canidelo, que conta com uma área total de dois mil metros quadrados, tinha cerca de 60 a 70 pessoas dentro da loja. O ECO falou com a diretora de relações externas da Mercadona no distrito do Porto, Joana Ribeiro, que confirmou que em relação ao fluxo de pessoas a “situação está estável e que está previsto que se mantenha assim”.

Em relação à medida e mais concretamente à obrigação de fechar durante a tarde, a responsável pelas relações externas da Mercadona no distrito do Porto diz apenas que estão a “adaptar-se às novas regras e à situação atual” e que não têm qualquer tipo de posição. “Temos que cumprir as regras e é isso que estamos a fazer”.

No Pingo Doce das Devesas, em Gaia, o ambiente também estava relativamente calmo. De saída das compras e com dois sacos cheios, David Silves e a esposa Maria Oliveira, ambos operários, foram propositadamente às compras para não deixar essa tarefa para o fim de semana. “Viemos às compras porque amanhã à tarde está fechado. Ao fim de semana acordamos um bocado mais tarde e não temos necessidade de andar a correr para ir às compras”, diz David Silves de 46 anos. O casal prevê que este sábado o cenário seja pior e que se formem filas. “Acredito que no sábado esteja tudo muito mais confusão”.

O Governo impôs recolhimento às 13h para travar almoços de família. Maria Oliveira, esposa de David Silves, não concorda com esta medida de “fechar tudo” e diz que é mesmo uma “tolice”. “Se tivesse tudo fechado até compreendíamos, havendo exceções deixa de fazer sentido”. Raquel Negreiros, auxiliar de saúde, 27 anos, concorda com o casal e destaca que o facto de existirem medidas com exceções é “simplesmente ridículo” e que não existe uma grande concordância face às regras implementadas pelo Governo.

“Chegámos a um ponto que as medidas mudam quase de dia para dia e chegam a não fazer sentido. As medidas deviam ser uniformizadas e não beneficiar o grande comércio em prol do pequeno. É lamentável e vai provocar consequências nefastas”, destaca. Em relação ao fluxo de pessoas, a auxiliar de saúde, conta que “não vê diferenças em relação a outras sextas-feiras”. “Está tudo normal, por agora não se vê a corrida desenfreada às compras como vimos no primeiro confinamento”. Na perspetiva de Raquel Negreiros, “as pessoas já tiveram tempo para se adaptar às novas regras”.

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