Dívida a 28 anos custará menos que empréstimos do FMI

Um ano depois, Portugal volta a emitir obrigações com maturidade em 2045. Deverá pagar juro à volta dos 4%, uma taxa bem mais baixa do que a dos empréstimos do FMI. Oportunidade para rolar dívida.

Se não houver percalços de maior, Portugal conseguirá obter um financiamento com obrigações a 28 anos a um preço mais baixo do que tem de pagar atualmente pelos empréstimos oficiais do Fundo Monetário Internacional (FMI). É para aproveitar esta janela de baixa dos juros que o Governo pretende acelerar os reembolsos à instituição.

Atualmente, a yield associada às obrigações a 30 anos negoceia pouco acima dos 4% no mercado secundário. Será este o referencial que determinará o sucesso ou não da operação que o IGCP leva a cabo esta manhã. O objetivo da agência liderada por Cristina Casalinho passa por obter até mil milhões de euros nem dois leilões: a 28 anos e ainda a 10 anos.

“Esse valor [4%] é apenas de referência. Se for menos, temos de considerar o leilão positivo, se for mais, será negativo”, sublinha Tiago da Costa Cardoso, gestor da corretora XTB.

“A emissão de dívida com vencimento em 2045 poderá acompanhar esta tendência com o preço a pagar poder estar em linha com o valor das yields do mesmo período no mercado secundário”, acrescenta José Lagarto, da Orey iTrade.

Oportunidade para rolar e alongar a dívida

Depois de ter garantido o financiamento para 2017 logo nos primeiros meses do ano, IGCP e Governo tentam agora aproveitar as tréguas dos mercados para ajudar o país a libertar-se dos onerosos empréstimos do FMI: pagam um juro de 4,6%.

Ao reembolso antecipado de 1.000 milhões no final de junho, o Governo tenciona já de seguida devolver mais 2.600 milhões até final de agosto, num plano de devoluções ao Fundo que atingirá os 10 mil milhões e que permitirá poupanças para os cofres públicos na ordem dos 660 milhões de euros.

Para Lagarto, é uma questão de “aproveitar um período de taxas anormalmente baixas e de uma clara procura de níveis de rentabilidade por parte dos investidores”, mesmo depois de Draghi ter assustado os investidores ao abrir a porta à retirada dos estímulos na Zona Euro. Costa Cardoso concede: “Muitas vezes há fatores externos que influenciam negativamente essas taxas” e daí que seja “importante aproveitar todas as oportunidades para rolar a dívida para o prazo mais longo e barato possível“.

De resto, o IGCP volta à mesma maturidade de muito longo prazo pouco mais de um ano depois. A 6 de abril de 2016, numa emissão que contou com o apoio de um sindicato bancário, o Tesouro obteve 1.000 milhões em obrigações pelas quais pagou um juro de 4,235%. Ou seja, também neste comparativo o resultado do leilão de hoje será mais favorável ao que tudo indica.

O FMI não será, porém, a única razão desta emissão a 28 anos. Operações de financiamento de muito longo prazo como a que o IGCP realiza esta manhã assumem particular importância na gestão da dívida pública. Podem custar mais aos cofres públicos mas permitem uma administração dos recursos financeiros da República sem grandes sobressaltos e mais preparada para enfrentar uma crise repentina que possa fechar o acesso aos mercados — tal como aconteceu em 2011.

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