Lucros em queda, plano da Elliott e uma OPA estagnada. As três variáveis da estratégia de António Mexia para a EDP

O CEO da elétrica apresenta, esta terça-feira, aos investidores o plano estratégico 2019-2022. Com uma OPA parada e o gestor em guerra com o Estado português, vai ser um dia crucial para a empresa.

Pressionado por uma oferta pública de aquisição (OPA) estagnada, por um acionista ativista (cheio de sugestões) e por lucros em queda, António Mexia vai apresentar esta terça-feira o plano estratégico da EDP até 2022. O reforço nas renováveis é certo, mas a dúvida recai sobre como é que a elétrica irá financiar este projeto, e especialmente se irá aceitar as propostas do fundo Elliott.

Os detalhes do plano vão ser alinhados até ao último momento, pelos órgãos sociais da EDP, Conselho de Administração Executivo (CAE) e Conselho Geral de Supervisão (CGS). Mas já um parâmetro conhecido: após a notícia do ECO Insider (acesso condicionado a assinantes) que a elétrica deverá anunciar sete mil milhões de euros para apostar nas renováveis, a empresa confirmou que “a proposta que o CAE submeterá ao CGS contempla, em termos genéricos, um reforço do investimento” neste segmento.

Confirmou ainda que a mesma proposta irá incluir “um plano de alienação de ativos”. Segundo fontes da agência Reuters, a venda será de ativos de geração de eletricidade em Portugal, sendo que na Península Ibérica, os ativos de geração de eletricidade da EDP estão avaliados em 1,7 mil milhões de euros.

A estratégia poderá agradar ao fundo ativista Elliott, que entrou recentemente no capital da EDP e é conhecido por ser altamente intervencionista na gestão dos investimentos que faz. Apesar de deter apenas 2,29%, o fundo enviou, em fevereiro, uma carta à EDP, em que explica porque é que a OPA lançada em maio de 2018 pela China Three Gorges (CTG) é negativa para a empresa e qual acredita ser a melhor estratégia.

Alienações poderão libertar 7,6 mil milhões de euros

O fundo de Paul Singer considera que a EDP tem três caminhos: o status quo (em que considera que a EDP é uma “oportunidade de valor único”, mas está num estado “subótimo”), a oferta da CTG (que critica pela baixa contrapartida e vê como “um impedimento ao crescimento da EDP”) ou a “Nova EDP”. Esta terceira opção tem como pilares a otimização do negócio core para cortar dívida e crescimento através de oportunidades no setor das renováveis.

O “valor cristalizado total” que poderia — na visão do fundo ativista — ser realocado, para reforçar a EDP, ascende a 7,6 mil milhões de euros. A otimização do portefólio passaria, assim, pela venda de:

  • 51,2% (ou seja, a totalidade da participação) da EDP Brasil, que poderia render 2,3 mil milhões de euros;
  • 49% da posição minoritária na distribuição de eletricidade Ibérica por 3,6 mil milhões de euros;
  • Ativos de geração convencional (ou seja, centrais a carvão) na Península Ibérica por 1,7 mil milhões de euros.

O Elliott sugere à EDP que invista este montante de três formas diferentes. Por um lado, quer 2,8 mil milhões para abater parte da dívida líquida que atingiu os 14,5 mil milhões de euros no final de setembro, com um rácio de 4,01 vezes o EBITDA. A alienação da EDP Brasil poderia contribuir para este objetivo já que o custo médio da dívida desta empresa situa-se nos 11,1% contra 4,1% para a EDP como um todo.

Por outro, o plano considera que a elétrica liderada por António Mexia deveria investir 3,5 mil milhões de euros no segmento das renováveis e aumentar a capacidade anual em dois gigawatts (GW). Por último, propõe um programa de recompra de ações, que iria custar 1,2 mil milhões de euros.

António Mexia respondeu, na altura, que agradecia as sugestões e iria analisar. Esta terça-feira, o CEO irá apresentar o novo plano estratégico ao mercado, que irá permitir perceber até que ponto as opiniões do fundo Elliott agradam à gestão da EDP. Estas não são, no entanto, desinteressadas. O acionista considera que a cotada poderá atingir os 4,33 euros por ação, face aos 3,26 euros oferecidos pela CTG e aos 3,269 euros em que fechou a sessão desta segunda-feira.

Mais dividendos, apesar de quebra nos lucros

Além da valorização bolsista, o fundo Elliott também quer mais dividendos. Caso a EDP implemente a proposta delineada pelos norte-americanos, o fundo antecipa que o dividendo por ação atinja os 0,24 euros em 2021. A elétrica vai dar, tal como em 2017, 0,19 euros por ação, um valor que estava já previsto no plano estratégico ainda em curso (até 2020, e que será agora atualizado). O objetivo de rácio de payout (proporção dos lucros atribuída em remuneração aos acionistas) situa-se entre os 65% e os 75% dos lucros.

Os lucros a distribuir é que são o problema. Caíram para 519 milhões de euros em 2018, menos 53% que no ano anterior. A contribuir para a quebra nos resultados esteve a atividade em Portugal, que registou prejuízo pela primeira vez em mais de duas décadas devido a custos regulatórios (excluindo a EDP Renováveis).

“O resultado líquido reportado sofreu uma queda de 53%, essencialmente influenciado pelo impacto adverso de medidas regulatórias em Portugal, nomeadamente relacionadas com a provisão de 285 milhões de euros, por força de alegadas sobrecompensações dos CMEC [custos de manutenção do equilíbrio contratual]”, explicou o relatório enviado à Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM).

Em agosto do ano passado, o então secretário de Estado da Energia, Jorge Seguro Sanches, quantificou em 285 milhões de euros a alegada sobrecompensação da EDP quanto ao cálculo dos CMEC. O despacho prevê ainda a possibilidade de serem exigidos à EDP até 72,9 milhões de euros, relativos a uma alegada sobrecompensação das centrais a operar em regime de CMEC.

O valor dos resultados conhecido esta segunda-feira ficou abaixo da estimativa média dos 17 analistas que seguem a EDP e apontavam para um resultado líquido caia 32,8% para 748 milhões de euros. No entanto, apenas duas estimativas incluiam o impacto da provisão não recorrente dos CMEC, que, segundo a EDP, influencia negativamente os lucros em 195 milhões de euros e o EBITDA em 285 milhões de euros.

O efeito negativo foi, ainda assim, atenuado pelas contas das participadas do grupo. O lucro da EDP Renováveis cresceu 14%, em 2018, para 313 milhões de euros. Já a EDP Brasil (a subsidiária brasileira que o fundo Elliot quer ver vendida) atingiu lucros recorde de 306,7 milhões de euros, os melhores desde que a elétrica entrou neste mercado, há 23 anos.

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