Quem falhou na Caixa? Falam agora os antigos presidentes

Lideraram o banco entre 2000 e 2010, onde se concentram grande parte dos problemas da CGD. António de Sousa e Santos Ferreira vão esta terça-feira ao Parlamento. Na sexta é a vez de Faria de Oliveira.

Era António de Sousa presidente da CGD quando Almerindo Marques se demitiu do banco público, isto depois de o ex-administrador ter deixado vários alertas ao Banco de Portugal (Vítor Constâncio), ao Ministério das Finanças (Guilherme d’Oliveira Martins) e até ao Presidente da República (Jorge Sampaio). Almerindo Marques criticava a política de concessão de crédito seguida no banco público, que não seria rigorosa no risco, foi ignorado e bateu com a porta em desacordo com o presidente da instituição.

O assunto das cartas enviadas por Almerindo Marques deverá marcar a audição de António de Sousa esta terça-feira pelas 9h30, no âmbito da comissão parlamentar de inquérito à recapitalização e aos atos de gestão da CGD. Só agora os deputados vão começar a ouvir os antigos presidentes do banco do Estado, os principais rostos das perdas identificadas pela auditora EY: os 25 principais financiamentos geraram perdas de 1.200 milhões. Também esta terça-feira, mas a partir das 15h00, o Parlamento volta a ouvir as explicações de Carlos Santos Ferreira sobre a sua gestão. Na sexta-feira, um dia depois de o banco apresentar os resultados relativos ao primeiro trimestre do ano, será a vez de Fernando Faria de Oliveira sentar-se à mesa da comissão de inquérito. O que terão a dizer?

Das Caravelas a Vale do Lobo

No caso de António de Sousa, haverá muito mais temas a abordar do que os alertas de Almerindo Marques. Atualmente, António de Sousa é um dos gestores do fundo ECS que no final de 2017 passou a gerir a carteira de créditos que o banco detinha sobre o empreendimento de luxo do Vale do Lobo: comprou uma carteira avaliada em 300 milhões de euros por 222,9 milhões de euros. Em troca, a ECS emitiu unidades de participação para serem subscritas pela própria CGD. Como está o processo de Vale do Lobo, um dos créditos mais ruinosos do banco?

António de Sousa liderou a CGD entre 2000 e 2004, justamente quando começa o período de análise da EY. É um dos nomes que está a ser avaliado pelo Banco de Portugal, segundo o Expresso. E isto numa altura em que a auditoria da EY já fez três baixas: Norberto Rosa, Pedro Cardoso e, mais recentemente, José Araújo e Silva, conforme noticiou o ECO em primeira mão.

Em sua defesa, o antigo presidente do banco deverá reclamar louros por ter sido ele a dar ordens para a criação do departamento de risco, com Vasco d’Orey, que já teve oportunidade de dizer na mesma comissão que aquele órgão não era “propriamente bem amado” dentro do banco. Outro assunto que deverá merecer a atenção dos deputados: a compra das Boats Caravela. Este instrumento financeiro foi contratado no final de 1999, ou seja, poucos meses antes de António Sousa assumir os destinos do banco. As Caravelas vieram a dar prejuízos de 340 milhões de euros ao banco. Que acompanhamento mereceu este tema por parte da equipa de António Sousa?

A guerra acionista no BCP

Pelas 15h00, é a vez de Carlos Santos Ferreira responder às questões dos deputados. Prevê-se uma maratona parlamentar, dado que o antigo presidente da CGD entre 2005 e 2008 é um dos principais visados na auditoria da EY. Foi durante a sua presidência que foi decididos as operações mais ruinosas, desde Vale do Lobo até à aventura do banco público na Artlant dos catalães da La Seda.

Mas um tema deverá ganhar maior relevância: a guerra acionista no BCP. Foram vários e milionários os financiamentos da CGD a empresários como Manuel Fino e Joe Berardo para a aquisição de ações do banco que Carlos Santos Ferreira veio a liderar após sair do banco público. Estes créditos têm vindo a ser escrutinados ao pormenor pelos deputados. Por exemplo, no caso de Joe Berardo, o antigo diretor de Empresas Sul da CGD revelou no Parlamento que foi Armando Vara (que veio com Santos Ferreira para a CGD) quem levou um dossiê preparado sobre a proposta de crédito ao comendador. Antes, o antigo presidente da comissão de auditoria, Eduardo Paz Ferreira, disse que Joe Berardo tinha um tratamento especial na CGD. Tem a palavra Carlos Santos Ferreira.

De Espanha à Associação Portuguesa de Bancos

Fernando Faria de Oliveira, que presidiu à CGD entre 2008 e 2010, é ouvido na comissão de inquérito na sexta-feira, a partir das 14h30. A EY também identifica este período como dos mais problemáticos para o banco público. Pela mão de Faria de Oliveira passaram financiamentos importantes (como da Artlant, por exemplo) e muitas operações de reestruturação de créditos que começavam já a evidenciar problemas: Vale do Lobo, Joe Berardo, etc. Por exemplo, foi com ele à frente da administração que a CGD ficou com a participação de Manuel Fino na Cimpor, a qual viria a dar lucro ao banco com a venda da cimenteira na OPA lançada pelos brasileiros da Camargo Corrêa.

Os deputados deverão questionar novamente Faria de Oliveira à luz dos documentos que chegaram ao Parlamento nos últimos meses: por que razão não se pediram garantias aos devedores? Por que razão não se executaram as garantias quando se verificaram os primeiros incumprimentos? E por que razão não foram constituídas imparidades? Outro tema relevante: a operação da CGD em Espanha. O Banco Caixa Geral foi liderado por Faria de Oliveira (2005 a 2007) antes de vir a assumir os destinos de todo o grupo. Faria de Oliveira já teve oportunidade de explicar “o racional” por detrás daquele investimento, mas a auditoria da EY veio expor os problemas com aquela operação.

Atualmente, Faria de Oliveira é presidente da Associação Portuguesa de Bancos. Ainda que não tenha de obter aval de nenhum regulador para exercer o cargo, já se ouviram vozes a questionar a sua idoneidade para estar à frente da associação que representa o setor.

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