“Quanto mais trabalhava, mais feliz era”. Do entusiasmo ao burnout, qual o papel das empresas?

  • Ricardo Vieira
  • 8 Junho 2019

Dois em cada 10 trabalhadores portugueses sofrem de problemas psicológicos. E só o burnout pode custar 329 milhões de euros às organizações.

Rita saiu do trabalho, entrou no carro e, no caminho para casa, percebeu que ia morrer. Tinha a certeza que não ia terminar aquela viagem: qualquer que fosse o motivo, não ia chegar viva. O nome de Rita é ficcionado mas todo resto é a descrição exata do primeiro ataque de pânico, o primeiro grande sinal de que algo não estaria bem. No mesmo dia, “sem grandes exames”, um médico prescreveu-lhe antidepressivos e encaminhou-a para a área da psiquiatria, mas Rita não aceitou este diagnóstico nem a baixa dada pela médica de família, que a seguia há vários anos e com quem tem uma relação próxima.

Dias depois, foi de férias, acreditando que tudo ficaria bem depois de uns dias de descanso. Voltou a casa e percebeu que não seria assim. Aos ataques de pânico somavam-se medos, insónias (um sinal que desvalorizava, mas com que se debatia há algum tempo) e a falta de memória.

Rita começou a esquecer-se das datas comemorativas a que sempre deu muita importância, tinha dificuldade em saber que familiares estavam vivos ou os que já tinham falecido e bastava passar de uma divisão para outra da casa para não saber o que estava a fazer. A memória de Rita foi tão afetada que deixou de reconhecer percursos que fazia regularmente. Só meses mais tarde, numa terceira consulta, ouviria a palavra burnout, considerada recentemente “doença” pela Organização Mundial de Saúde. Sabia do que se tratava mas, naquele momento, “não percebeu a dimensão do problema que era”.

“A pessoa que vivencia uma situação de burnout encontra-se exausta em termos de recursos emocionais, que se inicia por uma vivência silenciosa de sentimentos negativos relativamente às suas capacidades quanto ao desempenho, ao local e aos colegas de trabalho”, explica Cátia Cerqueira, psicóloga clínica no Hospital CUF Descobertas, referindo que se recorre “a ajuda médica pela perceção de inadequação, manifestada pelo sentimento de baixa/fraca produtividade e sensação de aumento de erros, falhas e omissões na execução de tarefas. Referindo sentimentos que remetem para desmotivação, desilusão, muitas vezes manifestando profunda frustração pelo esforço investido, que nunca é reconhecido como suficiente”.

Para a psicóloga, “uma vez que burnout surge do stress laboral, o ideal seria começar por haver uma análise, por parte da entidade patronal em conjunto com o trabalhador, das causas e condições que o levaram à síndrome de burnout e ao desenvolvimento de estratégias que mude tais”.

Viver para trabalhar ou trabalhar para viver?

“Quanto mais trabalhava, mais feliz eu era”, conta Rita, partilhando a frustração de nunca sentir, em 20 anos de trabalho, que houvesse reconhecimento e de tantas vezes ficar responsável por trabalho “que as outras pessoas não queriam fazer”. “Cheguei mesmo ao meu limite”, desabafa.

Trabalhar a gestão de expectativas é também essencial, de acordo com Cátia Cerqueira. “Nunca é demais referir que não se trata originalmente de uma incapacidade real do próprio, mas de uma vivência de incapacidade criada pela exaustão dos recursos que as entidades patronais promovem no trabalhador”, acrescenta.

Foi a pensar nesta relação trabalhador-empresa que a Clínica da Mente, clínica de psicoterapia que trabalha há cerca de 10 anos o estigma associado à saúde mental, criou a Team 24, um projeto para promover bem-estar psicológico nas organizações.

O “Programa de Apoio ao Colaborador” desenvolvido, que pode ser atribuído como um benefício extra salarial, assenta em quatro eixos:

  • assistência psicológica telefónica
  • consultas de psicologia
  • tratamento de psicoterapia
  • intervenção em caso de emergência psicológica.

“Prestamos apoio direto à organização de modo a promover a felicidade organizacional no que diz respeito ao bem-estar psicológico dos colaboradores, ou seja, fazemos uma avaliação diagnóstica dos riscos psicossociais dos colaboradores e disponibilizamos um happiness manager (psicólogo) que é responsável por monitorizar e medir o impacto da implementação do programa na organização. Além de ter um impacto muito positivo na saúde mental dos colaboradores, assume-se como uma excelente estratégia de employer branding, captação e retenção de talento”, explica Ana Ruivo, gestora do projeto.

“O facto de os mercados estarem cada vez mais competitivos, o capital humano ser cada vez mais qualificado, as guidelines e os objetivos cada vez mais apertados, mas sem dúvida alguma, que a digitalização está no topo da lista”, refere sobre as causas associadas à síndrome de burnout. “E sem dúvida que o impacto na economia nacional é enorme. O burnout pode custar cerca de 329 milhões de euros às empresas portuguesas. Urge pensar e repensar nas estratégias para evitar que os problemas de saúde mental estejam no topo das causas de turnover, baixa produtividade, presentismo e absentismo em Portugal”.

"Urge pensar e repensar nas estratégias para evitar que os problemas de saúde mental estejam no topo das causas de turnover, baixa produtividade, presentismo e absentismo em Portugal.”

Ana Ruivo

Para esta gestora de projeto, “é necessário que as organizações se consciencializem que, em Portugal, dois em cada 10 trabalhadores sofrem de problemas psicológicos e que a maior causa de absentismo é relacionada com esses problemas. Nomeadamente, a OMS realizou estudos para perceber o retorno do investimento em saúde mental ao nível das organizações, concluindo que, por cada euro investido, há um retorno de quatro”.

Instalações da Glintt em Portugal

Para a tecnológica portuguesa Glintt, com mais de mil colaboradores espalhados por seis países, a prevenção é determinante. A empresa “tenta assegurar que as pessoas certas estão na posição certa. Ou seja, que os nossos colaboradores façam aquilo de que gostam e se sintam realizados. Este sentimento de realização e paixão pelo que se faz é essencial para prevenir doenças, tanto físicas como mentais, que têm a sua origem no trabalho e que levam ao burnout. Para tal é essencial colocar o foco no colaborador, fazer perguntas sobre as suas expectativas de carreira e aspirações para o futuro. É preciso que as pessoas sejam felizes no trabalho, que se sintam bem quando entram na empresa”, explica a Inês Pinto, HR Business Partner. No caso da Glintt, a empresa tenta criar espaços de convívio e de trabalho que sejam diferentes e que não passem apenas por uma secretária e uma cadeira. “Estes espaços têm baloiços, puffs ou mesmos outros materiais que permitam ao colaborador ‘sair’ do contexto do trabalho, continuando dentro da empresa”, detalha a responsável.

A inovação tecnológica, na ausência de uma política de trabalho bem estruturada, faz desaparecer a fronteira vida pessoal / vida profissional.

Um estudo da Católica veio mostrar que abrandar o ritmo é um caminho para a felicidade, enquanto uma análise da Adecco mostra que “desligar” é a melhor forma de reter talento e promover produtividade e eficácia. Mas “desligar do trabalho não é fácil”, sublinha Inês Pinto. “A dicotomia da inovação tecnológica oferece-nos os dois lados da mesma moeda. Por um lado, permite-nos estar ligados quando precisamos, agilizando o nosso trabalho, o nosso dia-a-dia e, por outro, se não soubermos gerir ou as empresas não tiverem uma política de trabalho bem estruturada, acaba por fazer desaparecer uma das fronteiras mais importantes: vida pessoal/vida profissional. É fundamental para a saúde de todos nós que esta fronteira exista”.

A Glintt mantém-se, assim, atenta “à proposta do Governo que visa consagrar o direito dos trabalhadores a desligarem dispositivos digitais fora do horário de trabalho com vista a permitir o descanso como um dos direitos fundamentais na era digital” e está a “estudar medidas que garantam que os colaboradores usufruam deste direito fundamental. Acreditamos que este é um primeiro passo para mudarmos mentalidades e que, passo a passo, iremos construir uma cultura mais centrada nas pessoas”.

De acordo com a Associação Portuguesa de Psicologia da Saúde Ocupacional, em 2016, 13,7% das pessoas ativas em Portugal estavam em estado de burnout e o risco tem vindo a aumentar. No mesmo ano, um estudo nacional sobre o “Burnout na classe médica” revelou que dois terços dos médicos portugueses estão em elevado nível de exaustão emocional – uma das dimensões da síndrome de burnout. Uma investigação da Universidade do Minho demonstra que 86% dos enfermeiros trabalha em stress elevado ou moderado e que, um em cada cinco destes profissionais também se encontra em exaustão emocional.

Como prevenir o burnout?

“O síndrome de Burnout é um estado emocional, persistente e permanente, que emerge de situações laborais que não foram adequadamente geridas pelo próprio e, principalmente, pelas entidades patronais, que conduz à exaustão física, emocional e psicológica da pessoa em contexto real de trabalho, e que acontece após um período comprovado de desempenho eficaz. Esta vivência é uma experiência individual que resulta de um tipo de abordagem na organização e na gestão das organizações que, intencional ou não intencionalmente, sobrecarrega, desgasta e esgota os recursos profissionais e pessoais do seu trabalhador, conduzindo à incapacidade para realizar as suas funções laborais, ou passando a não conseguir lidar com as exigências que lhe são colocadas no local de trabalho, a par do desenvolvimento de uma proteção, e até mesmo sobrevalorização da entidade laboral, e de uma crença na perda pessoal das aptidões anteriormente existentes”, explica Cátia Cerqueira, psicóloga clínica no Hospital CUF Descobertas. A psicóloga clínica no Hospital CUF Descobertas aponta uma lista de medidas de prevenção:

A nível organizacional:

  • Desenvolver programas de prevenção de riscos psicossociais;
  • Potenciar a comunicação;
  • Definir de forma precisa as funções de cada um;
  • Instituir um sistema de recompensas justo;

A nível individual:

  • Desenvolver condutas que eliminem as fontes de stresse ou neutralizem as consequências do mesmo;
  • Estratégias de assertividade;
  • Controlo eficaz dos tempos;
  • “Desligar” do trabalho fora do horário laboral;
  • Definir objetivos reais e atingíveis;
  • Gerir as expectativas pessoais, profissionais e organizacionais, não permitindo que ultrapassem a exequibilidade;

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