O “Lima”: o delfim de Tomás Correia no Montepio

O próximo líder da mutualista é um "cinzentão", formal e de bom trato. É um "workaholic". Antigos colegas duvidam se Virgílio Lima conseguirá distanciar-se de Tomás Correia. Mas há quem diga que sim.

De pé: Tomás Correia. Sentados da esquerda para a direita: Carlos Beato, Idália Serrão, Virgílio Lima e Luís Almeida.Montepio

O Lima, como também é tratado pelos mais próximos, deixou saudades em Sintra. Algures nos anos 80 foi mandado para lá para rentabilizar o balcão. Cumpriu a tarefa de forma exemplar. Tanto que qualquer subgerente em fase de aprendizagem passou por lá para aprender como se geria uma dependência bancária. “Sintra tornou-se numa escola no Montepio onde se ia beber do que Lima deixou”, conta Nelma Mariano, que trabalhou lá com ele há mais de 30 anos.

Em Sintra, Virgílio Lima não fazia distinção dos clientes. “Sempre tratou os clientes por igual: tanto recebia o pedreiro que entrava no balcão como o presidente da câmara”, recorda Nelma. Por isso, causou algum choque na agência quando ele saiu de lá em outubro de 1986 para dirigir o marketing do banco. O gerente que se seguiu “só recebia os doutores”.

Com mais de 40 anos de casa, o associado número 32309-9 torna-se hoje o líder da Associação Mutualista Montepio Geral (AMMG). É a maior mutualista do país, com mais de 600 mil associados, mas que enfrenta muitas adversidades e um futuro, no mínimo, desafiante. Caberá a Virgílio Lima dar continuidade à instituição depois do longo reinado de Tomás Correia, de quem Virgílio Lima é muito próximo. Há dúvidas se vai conseguir sair da sombra. Há quem acredite que Tomás Correia vai continuar a exercer influência lá dentro. “É a única dúvida que só o tempo irá dissipar: se é permeável ou não às opiniões de Tomás Correia. Talvez seja o único ponto fraco, mas pode revelar-se impermeável“, afirma um dirigente da mutualista que o conhece bem.

Em entrevista ao ECO, Vítor Melícias acredita que Virgílio Lima e a sua administração manterá a sua independência e autonomia. “Mas os quatro que lá estão [na administração] são alguns bananas?“, atirou o padre franciscano que preside à assembleia geral da AMMG desde 2008. Nelma Mariano frisa que Virgílio Lima, “pelas provas que já deu na sua longa e diversa carreira, é uma pessoa devidamente competente para liderar a Associação Mutualista”. Só Tomás Correia ficou para trás no processo de avaliação desencadeado pelo regulador, que deu luz verde, além de Virgílio Lima, a Carlos Beato, Idália Serrão e Luís Almeida na administração do Montepio.

As dúvidas sobre se será capaz de descolar de Tomás Correia poderão explicar-se com a sua personalidade: Virgílio Lima sempre foi “muito alinhado hierarquicamente”, é “respeitador também no sentido da deferência”, “é muito leal”, dizem várias fontes ouvidas pelo ECO. “A obediência institucional está-lhe nos ossos”, diz uma fonte. “Veremos como se sairá agora”, acrescenta.

Virgílio Lima e Tomás Correia têm estilos completamente diferentes, diz quem o conhece. “Tomás Correia, goste-se ou não se goste, é capaz de tomar decisões nas situações mais difíceis. Não sei se Virgílio Lima aguentaria o mesmo nível de pressão que vi ser exercida sobre Tomás Correia”, diz um ex-alto quadro do Montepio hoje em dia na reforma. Esta fonte acrescenta: “É muito competente e conhecedor. Já a nível de decisões é um pouco titubeante.”

Outro antigo quadro do Montepio que conhece Virgílio Lima há décadas, tendo acompanhado o seu percurso quase desde o início, deixa a mesma ideia: “É competente e sabedor, mas não lhe peçam para fazer rasgos“, confidencia um antigo dirigente, amigo de Virgílio Lima há décadas.

A AMMG enfrenta um momento de definição. Registou lucros e dois milhões de euros este ano e prevê aumentá-los para pouco mais de cinco milhões no próximo ano. Mas é a situação patrimonial que deixa reservas: 800 milhões de euros em créditos fiscais e um banco sobrevalorizado mascaram o ativo da mutualista. Fala-se numa eventual intervenção do Estado para tapar o “buraco”. Sob a supervisão direta do regulador dos seguros, o grupo vai ter de reduzir a sua exposição ao negócio bancário na próxima década, que hoje em dia representa mais de 60% do ativo dos associados.

Por outro lado, há quem não reconheça legitimidade à administração que será liderada por Virgílio Lima. “O que espero dele, pela honestidade e dedicação à Associação Mutualista, é que tenha a iniciativa de pedir eleições antecipadas. Virgílio Lima deve assumir-se como presidente de transição“, diz Fernando Ribeiro Mendes, que foi seu colega na anterior administração. Ribeiro Mendes veio a incompatibilizar-se com Tomás Correia já no decurso do anterior mandato, tendo-se candidatado às eleições ocorridas há um ano noutra lista.

Da esquerda para a direita: Virgílio Lima, Carlos Beato, Fernando Ribeiro Mendes (sentado), Tomás Correia e Miguel Coelho (sentado).Montepio

Cinzentão e workaholic

Nelma Mariano lembra uma característica que ainda hoje Virgílio Lima conserva: “O Lima é uma pessoa educadíssima, nunca levantou a voz a ninguém. Sempre que havia algum conflito ou situação de maior stress, resolvia tudo com calma”. Outras fontes asseguram isto mesmo ao ECO: “É afável, de bom trato, mesmo com quem discorda dele”.

“Ele é assim: usa sempre um tom monocórdico, fala sempre no mesmo tom de voz, sempre com a mesma cadência”, conta um antigo diretor da Caixa Económica Montepio Geral (hoje Banco Montepio), lembrando as reuniões de quadros “sonolentas” quando eram dirigidas por Virgílio Lima em meados da década de 2000, que tinha a seu cargo o planeamento do banco. “É muito circunspecto, mesmo a sua posição corporal é muito rígida: sempre inclinado para a frente, com uma postura de deferência e respeito”, acrescenta este ex-quadro bancário.

Virgílio Lima chegou ao Montepio nos finais da década de 70. “Subiu dentro do banco com base no seu trabalho”. Passou por todas as etapas dentro do grupo: desde a área comercial, até às direções de marketing, planeamento e organização, Lusitânia Seguros, até ser chamado por Tomás Correia para a administração do grupo mais recentemente.

A passagem pelo setor segurador pode ser um entrave. A Lusitânia foi condenada por ter estado envolvida num cartel. “Virgílio Lima estava lá quando isso aconteceu. Será que não viu nada?” aponta um antigo dirigente.

Natural da zona de Tomar, é um homem bastante reservado no trabalho. Poucos lhe conheceram a vida pessoal. “Não me lembro de ver a sua mulher ou os filhos em iniciativas do Montepio”, conta um dirigente da mutualista.

Em jovem gostava de jogar futebol e ténis. De origens humildes, trabalhava enquanto estudava. Chegou a acompanhar clientes do setor da construção em várias atividades de caça. Mas era sobretudo muito orientado para o trabalho e pouco dado a aspetos de maior socialização. “Não era pessoa de ler um jornal desportivo nem de discutir futebol com os colegas à segunda-feira“, diz um antigo colega. Outro colega de trabalho que se cruzou com ele já na mutualista não se lembra de terem partilhado anedotas entre ambos.

“É um cinzentão, muito formal, mas diria que, acima de tudo, é um workaholic“, recorda quem se encontrou com ele em meados da década de 90. “Não sei se era o primeiro a chegar ao local de trabalho, mas era sempre o último a sair. Era muito exigente com ele e com os outros e as coisas demoravam sempre a sair porque ele não gostava de falhar”, acrescenta. Se Virgílio Lima vai enfrentar muitos desafios à frente da mutualista, já estará mais do que treinado para longas jornadas de trabalho.

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