Luanda Leaks. Estas são as peças do dominó que já caíram

Constituição de arguidos e muitas renúncias. As revelações dos Luanda Leaks sobre o império de Isabel dos Santos já fizeram cair várias peças do dominó.

As revelações dos Luanda Leaks já fizeram cair as primeiras peças do dominó. Da esquerda para a direita: Mário Leite da Silva, Jaime Esteves, Paula Oliveira, Jorge Brito Pereira e Isabel dos Santos.

Um dos primeiros comentários aos Luanda Leaks partiu do líder da consultora PwC, Bob Moritz: avisou que iriam “rolar cabeças” com as revelações acerca do império de Isabel dos Santos e de como a empresária terá enriquecido às custas de Angola. Ora, na reta final de uma semana agitada, as primeiras peças do dominó já começaram a cair.

Isabel dos Santos

A figura central nos Luanda Leaks, acusada de ter lesado o Estado angolano com a ajuda do pai, José Eduardo dos Santos, presidente de Angola por 38 anos, arrecadando para si uma fortuna multimilionária.

Desde que os documentos comprometedores foram expostos nos jornais este domingo, a empresária foi constituída arguida em Angola e prepara-se para sair do capital do EuroBic, alienando os 42,5% que detém no banco liderado por Teixeira dos Santos. Já renunciou aos direitos de voto.

Antes disso, na segunda-feira, o banco já tinha cortado a “relação comercial” com a empresária, afastando-se e deixando de fazer negócios com a sua principal acionista.

Isabel dos Santos nega todas as acusações de irregularidades. Garante estar inocente e ser vítima de um esquema político para a neutralizar. Já disse que vai recorrer aos tribunais para repor o que diz ser “a verdade”.

Mário Leite da Silva

Gestor considerado “braço-direito” de Isabel dos Santos nos negócios suspeitos investigados pela imprensa internacional.

Mário Leite da Silva é outra peça central nos esquemas alegadamente ilícitos usados na construção do império da família Dos Santos. É um dos vários cidadãos portugueses constituídos arguidos em Angola por causa deste caso.

Esta quinta-feira, soube-se que o gestor renunciou ao cargo de presidente do Conselho de Administração do Banco de Fomento Angola (BFA), com efeitos a 22 de janeiro, posição que ocupava desde janeiro de 2017, depois da compra de 2% do banco pela Unitel.

Leite da Silva não justificou a renúncia com os Luanda Leaks. Na carta de demissão, a que o ECO teve acesso, justificou a saída com o facto de a administração da Unitel ter aprovado “formalmente a lista de pessoas a designar para o conselho de administração do BFA para o triénio que agora se inicia”. Por não fazer parte do mesmo, considerou ser “o momento apropriado” para deixar a instituição.

Paula Oliveira

Amiga próxima de Isabel dos Santos, Paula Oliveira é administradora não executiva da operadora Nos e sócia principal da SDO Consulting.

É-lhe atribuído o controlo da sociedade offshore designada Matter Business Solutions no Dubai, para a qual terão sido transferidos mais de 100 milhões de euros da Sonangol em poucos meses, a maioria num só dia de novembro de 2017, depois de Isabel dos Santos ter sido demitida da petrolífera estatal angolana.

Paula Oliveira está na mira da justiça angolana e foi constituída arguida esta quarta-feira, mas mantém-se na administração da operadora da Sonae, tendo sido chamada pelo Comité de Ética da Nos que irá reunir-se na próxima segunda-feira, 27 de janeiro.

Jorge Brito Pereira

Advogado de Isabel dos Santos, é partner da Uría Menéndez, sociedade de advogados de Daniel Proença de Carvalho. Suspeita-se de que tinha controlo sobre uma empresa offshore no Dubai, alegadamente detida por uma amiga de Isabel dos Santos, e para a qual terão sido transferidos em poucos meses quantias milionárias que pertenciam à Sonangol.

Jorge Brito Pereira também era presidente da mesa da assembleia-geral do EuroBic, mas já apresentou a demissão do cargo, como avançou o ECO esta quinta-feira.

É ainda o chairman da Nos, na qual Isabel dos Santos controla uma posição indireta em parceria com a Sonae, não se sabendo se se irá manter na operadora — também vai ser ouvido pelo Comité de Ética da empresa. Nos últimos dias, Jorge Brito Pereira tem evitado responder às questões do ECO.

Brito Pereira garante que nunca controlou o offshore no Dubai, apesar de reconhecer que há uma procuração em seu nome que lhe confere poderes “alargados” na sociedade. Alega que nunca os exerceu e que apenas participou na constituição da sociedade, no âmbito da sua atividade como advogado.

Jaime Esteves

Partner da consultora PwC, liderava o departamento de fiscalidade em Angola, Cabo Verde e Portugal. Ao Observador, anunciou o próprio afastamento, à luz das revelações do Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação (ICIJ).

“Entendi que devia deixar de liderar o departamento e pedi para ser substituído”, afirmou Jaime Esteves, que se manterá como sócio da consultora, confirmou o ECO.

A PwC estava na órbita do universo de Isabel dos Santos há vários anos e é uma das empresas acusadas de ter facilitado os negócios suspeitos da empresária em Angola e Portugal.

Em segundo plano:

  • Vanessa Loureiro e Rui Lopes: Eram administradores não executivos do EuroBic com ligações à acionista Isabel dos Santos. Esta quarta-feira, o banco confirmou a renúncia de ambos, no comunicado em que anuncia que Isabel dos Santos vai vender mais de 40% da empresa.
  • Nuno Ribeiro da Cunha: Não se sabe se há relação com as revelações do Luanda Leaks, mas o gestor privado de Isabel dos Santos no EuroBic, que também possuía a gestão da conta bancária da Sonangol, foi encontrado morto esta quarta-feira, num caso que envolve suspeitas de suicídio ou homicídio. Também tinha sido constituído arguido em Angola.

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