Merlin admite moratória nas rendas do Almada Fórum. “Não será uma carência a 100%”, diz João Cristina

A SOCIMI está a ponderar suspender as rendas dos ativos comerciais e hoteleiros que detém devido à crise do coronavírus. Antecipa um impacto no imobiliário e prevê uma recuperação apenas em 2021.

A Merlin Properties admite suspender as rendas do Almada Fórum, centro comercial do qual é proprietária desde 2018, bem como de cerca de uma dezenas de lojas de rua que detém em Lisboa, adiantou ao ECO o diretor-geral em Portugal, João Cristina. A acontecer, essa suspensão dependerá do âmbito de encerramento dessas atividades, uma medida que também se aplica a Espanha, mas apenas ao setor retalhista e hoteleiro.

“Não somos insensíveis ao que se está a passar [crise devido ao coronavírus] e às atividades que estão obrigadas a encerrar. Haveremos de ajudar os nossos clientes de alguma forma. Mas não será uma carência a 100%, tem de haver alguma proporcionalidade“, explicou o responsável da Merlin em Portugal. “Uma carência de rendas parece-me desproporcionada porque passa o ónus para cima de nós e os proprietários têm os seus negócios e obrigações”, continua.

“Naturalmente, dentro da nossa política comercial, teremos algumas concessões aos lojistas e operadores que mais precisam”, disse João Cristina, detalhando que isso inclui “todos os espaços com uso comercial ou retalho”. Em território nacional, estão abrangidos o Almada Fórum e “cerca de dez lojas de rua” espalhadas pela capital, como por exemplo no Parque das Nações.

Mas, a haver uma suspensão das rendas, esse processo será feito após uma análise “caso a caso”. Isto é, a Merlin vai analisar “quais as atividades que estão obrigadas a encerrar e as que podem abrir” se aqui o quiserem. Por exemplo, no Almada Fórum, lojas como os supermercados continuam a sua atividade, e outras como grandes cadeias têxteis continuam a vender online. Tudo isso será tido em conta. “Não estamos a falar de dar carências cegas a todos, mas às atividades que são diretamente impactadas pela obrigações do encerramento. Teremos muito cuidado na análise”, afirmou o diretor-geral.

João Cristina revelou ao ECO que a Merlin tem sido contactada pelos próprios inquilinos nesse sentido — “alguns clientes têm-nos pedido desconto das rendas” –, e a empresa está a ter isso em conta. “Não posso dizer que vai ser uma suspensão cega a todos os lojistas, porque, seguramente, isso não vai acontecer”, afirmou. Esta medida está também a ser estudada em Espanha, onde a SOCIMI tem sede, mas apenas para os ativos do retalho e do setor hoteleiro. Em Portugal, a empresa não é, para já, proprietária de nenhuma unidade hoteleira.

Há dias, o CEO da Merlin, Ismael Clemente, já tinha adiantado que esperava uma quebra inferior a 10% nas rendas devido ao surto de coronavírus. “Considerando (…) o ónus da situação difícil atual com os inquilinos nos locais e empresas que não podem abrir ao público, e assumindo que o encerramento ordenado pelas autoridades dura até 31 de julho, o impacto nas rendas brutas previstas para 2020 será inferior a 10%“, referiu, na altura, em comunicado enviado à Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM).

Apesar disso, a empresa, que entrou recentemente para a bolsa de Lisboa, afirmou estar preparada para enfrentar essa situação, dado que 94,8% dos imóveis que detém estão ocupados. “A Merlin Properties beneficia de um sólido património para superar este período desafiante”. No ano passado, de acordo com as contas apresentadas, a SOCIMI espanhola encaixou 525,9 milhões de euros com rendas brutas.

“Haver uma recuperação este ano será muito difícil”

Para João Cristina, ainda “é muito prematuro falar do impacto” deste crise de coronavírus na economia e, sobretudo, na empresa. “Óbvio que terá impacto. Vai ter impacto nos nossos clientes e acabará por ter impacto nos nossos negócios, assim como em toda a economia”, disse ao ECO, referindo que a Merlin não está, por enquanto, a pensar recorrer a alguma linha de financiamento, tanto do Governo português como do Governo espanhol.

Já para o setor, o responsável antecipa um cenário pouco positivo. “Ao nível do mercado de capitais (investimento), haverá seguramente muitos processos de venda que, muito possivelmente, serão paralisados. Não deve ser surpresa para ninguém que os números do investimento este ano serão bastante menos simpáticos do que os do ano passado e do que os de 2018“, disse.

Afirmando que o futuro está dependente de muitos fatores, que estão fora do controlo dos players do mercado, o diretor-geral da Merlin acrescenta: “A profundidade da correção [de preços] acabará por ocorrer, mas temos que, dependendo do tempo que isto leve, essa correção possa demorar. Creio que este ano a recuperação será muito difícil. Talvez no próximo ano“, confidenciou.

A Merlin tem uma carteira de ativos imobiliários avaliada em 12,7 mil milhões de euros e estreou-se em Portugal em 2015 — onde é atualmente um dos maiores proprietários em termos de metros quadrados — com a compra do Edifício Caribe, no Parque das Nações, por 18 milhões de euros. A essa aquisição seguiram-se outras, nomeadamente o Edifício Monumental (que está a ser reabilitado atualmente), o Almada Fórum (406,7 milhões) e a sede da Nestlé, em Linda-a-Velha, por 12,5 milhões.

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