Menos confiança, consumo e aviões no céu. Retrato de uma economia confinada

No mês da liberdade, o país esteve fechado em casa e a atividade económica registou quedas históricas. O impacto de um mês inteiro de confinamento por causa da pandemia já é visível nos números.

Se em março o país “paralisou” durante duas semanas, em abril foi o mês inteiro sob o estado de emergência e em confinamento. O Ministério das Finanças calcula que um mês como abril retire 6,5% do PIB anual e a dimensão do impacto já é visível nos indicadores avançados: como descreveu o Instituto Nacional de Estatística (INE), registou-se uma “forte contração da atividade económica em abril”.

Com apenas duas semanas de confinamento, o PIB do primeiro trimestre encolheu 2,4%, de acordo com a estimativa rápida do INE. Uma vez que o país começou a desconfinar em maio, é expectável que o impacto económico seja ainda maior no segundo trimestre, o que também é esperado pelas instituições que fazem previsões. Para abril, já há dados que confirmam reduções ainda mais expressivas da economia.

Confiança dos consumidores e das empresas caiu a pique

A síntese económica de conjuntura divulgada pelo INE esta quarta-feira mostra bem como se registou uma “forte contração da atividade económica em abril, agravando-se face ao observado em março“. Os indicadores de confiança baixaram “de forma abrupta” em todos os setores e também junto dos consumidores, atingindo mínimos da anterior crise. O indicador de clima económico, que reflete a opinião dos empresários, registou a maior queda de sempre e estacionou em mínimos históricos. Também o índice de confiança económica do ISEG voltou a descer em abril, após já ter caído em março.

Contudo, este fenómeno está longe de ser exclusivo de Portugal. Na maioria dos países europeus, abril também foi um mês de confinamento, o que levou à maior queda de sempre da confiança dos consumidores da União Europeia para mínimos de 2009. O mesmo aconteceu no indicador do clima de consumo compilado pela GfK. É de notar que em Portugal o montante global de levantamentos nacionais, de pagamentos de serviços e de compras em terminais de pagamento automático na rede multibanco registou a maior queda da sua série em abril (-38,6%), após ter caído 17% em março.

Mais 22% de desempregados em abril

Durante abril inscreveram-se nos centros de emprego mais 65.542 pessoas. No total, havia 392.323 pessoas inscritas no IEFP, o que corresponde a uma variação homóloga de 22,1% (71.083 pessoas) e a uma variação mensal de 14,1% (48.562 pessoas). Numa análise regional, a região do Algarve destaca-se com uma subida homóloga de 123,9% por causa da maior dependência ao turismo.

Ao mesmo tempo, o número de subsídios de desemprego pagos pelo Estado aumentou 24.134 em abril, atingindo os quase 200 mil (197.949 pessoas). Este aumento corresponde a uma variação de 17,2% face a abril do ano passado.

Aviões desapareceram do céu

Em abril, a NAV Portugal geriu apenas 4.018 voos, o que mostra uma quebra de 94,2% face ao mesmo mês do ano passado. A empresa explica que tal “confirma o forte impacto das medidas de contenção da pandemia Covid-19”. Entre janeiro e abril houve 165 mil voos, o que compara com 253,7 mil registados em 2019 no mesmo período. A expectativa da empresa que gere o tráfego aéreo é que a redução homóloga se mantenha nas próximos meses, ainda que com a retoma de alguns voos.

Esta redução do tráfego aéreo, ligada à queda do tráfego rodoviário, levou a uma diminuição significativo no consumo de combustíveis numa altura em que estes registaram preços mais baixos. Segundo a Associação Portuguesa de Empresas Petrolíferas (Apetro), o consumo de gasolina caiu 61,3% e o de gasóleo caiu 44,6% em abril, em termos homólogos. O consumo de jet na aviação caiu ainda mais: -93,4%, o que corresponde a menos 117,3 mil toneladas.

O estado de emergência também se refletiu no consumo de eletricidade que, segundo a REN, caiu 13,8% em abril, já corrigindo dos efeitos de temperatura e do número de dias úteis. “É necessário recuar a agosto de 2004 para encontrar um consumo mensal tão baixo como o verificado este mês“, sublinhou a empresa em comunicado. No entanto, é de notar que houve uma subida superior a 20% no consumo doméstico de eletricidade, em contraponto com a queda registada no consumo empresarial.

Fábricas produzem menos automóveis e consumidores compram menos

Em abril, apenas 1.238 veículos automóveis ligeiros e pesados foram produzidos em Portugal, o que representa uma queda de 95,7% face ao mesmo mês do ano passado. Mais: pela primeira vez, não houve um único carro comercial ligeiro produzido no país e nenhum dos veículos produzidos foi exportado, de acordo com a ACAP – Associação Automóvel de Portugal. Esta queda a pique da produção ocorreu num mês em que a fábrica da Autoeuropa esteve fechada. A montagem de veículos em território nacional também caiu (-96%).

À semelhança da produção, a venda de carros também registou uma queda histórica de 84,6% em abril, tendo sido matriculados apenas 3.803 automóveis. Isto aconteceu numa altura em que os stands de automóveis tiveram de fechar no âmbito das medidas de confinamento introduzidas pelo Governo durante o estado de emergência.

Investimento paralisado e os dados que ainda falta conhecer

Uma das componentes do PIB que mais deverá sofrer com os tempos de incerteza que se vivem é o investimento. A estimativa rápida do INE para o primeiro trimestre já o sinaliza e alguns dados revelados sobre abril confirmam essa tendência. Desde logo, o investimento em vistos gold caiu 46% no mês passado para os 28 milhões de euros, segundo os dados do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF).

Segundo um inquérito da APEMIP, o setor imobiliário, que foi um dos mais dinâmicos nos últimos anos, registou fortes quebras na procura e nos negócios imobiliários em abril: 95,3% que disse ter tido uma quebra no volume de negócios em abril e uma quebra na procura de cerca de 92,5%.

De notar ainda que, de acordo com a Iberinform, nota-se um aumento das insolvências até abril de 4,5%, num total de 1.745 ações de insolvência. E ainda a redução de 40% da venda de seguros, segundo os dados da APS – Associação Portuguesa de Seguradores.

Mais dados chegarão nos próximos dias, nomeadamente os índices setoriais de produção e volume de negócios do INE, assim como as exportações de abril (9 de junho) e a atividade turística (17 de junho). Porém, a estimativa rápida do PIB do segundo trimestre só chegará a meio de agosto.

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