As críticas e os (poucos) elogios de António Costa Silva ao Governo de Costa

Antes de ser convidado por António Costa para coordenar a elaboração do plano de retoma, António Costa Silva criticou várias vezes o Governo que vai agora aconselhar.

Partilham o nome, mas não todas as ideias. Antes de ser convidado para ser uma peça central do plano da retoma após crise pandémica, António Costa Silva foi mais crítico do Governo do que elogioso, a avaliar pelas suas declarações públicas. Da exploração de petróleo no Algarve à falta de estratégia para o país, foram diversas as questões apontadas ao Executivo que agora vai aconselhar. Ao primeiro-ministro elogiou a inteligência política.

Recuemos quatro anos. Estamos no início do primeiro Governo do PS e o presidente da comissão executiva da Partex já acusava o Executivo de não olhar para uma questão que considerava ser “crucial”: a economia. Em 2016, em entrevista ao ECO, já dizia que as empresas “não são suficientemente acarinhadas, não se cria condições para o investimento”, o que “é uma das bases do atraso do país”. Mais tarde, acusou o Governo de ser ser hostil às empresas e ao investimento privado.

É para a economia que terá de olhar agora, enquanto conselheiro de António Costa, num período de crise, mas também de oportunidade. Ao longo do anos, as críticas foram sucedendo-se. E o destino de António Costa Silva cruzou-se com o do Governo num caso em específico: o cancelamento dos contratos de prospeção e exploração de gás do consórcio Partex/Repsol. O gestor da Partex foi um dos que se opôs à decisão e chegou a desabafar que “não vale a pena” investir em Portugal, tendo a petrolífera então controlada pela Fundação Gulbenkian “desistido” de o fazer.

Nesta situação, Costa Silva foi ainda mais duro nas palavras: “Há uma espécie de clima de hostilidade em relação às companhias, mas quem cria riqueza são as empresas. Uma política que hostiliza as empresas e o lucro não cria condições amigas do investimento e do desenvolvimento do país”, disse em declarações ao Público no início de 2018, em que acabou por elogiar o anterior Executivo e o ministro da Economia, Álvaro Santos Pereira, pela “preocupação” que tinha em “desenvolver os recursos naturais”.

Santos Pereira percebeu que “o país precisava de uma onda de reindustrialização e que isso criaria riqueza e emprego”, acrescentou. Porém, “quando mudou o Governo, passámos para o ciclo oposto, que é governar em função do que dizem os autarcas e a opinião pública, sem haver uma visão clara da importância que o projeto Algarve poderia ter”, criticou, referindo-se à forte contestação que havia nos concelhos algarvios por causa dos projetos de prospeção de petróleo e gás na zona.

E as críticas não se ficam pelo próprio Governo do PS, mas também aos seus parceiros. Referindo-se ao então secretário de Estado da Energia, Jorge Seguro Sanches, disse que este estava “um pouco prisioneiro de uma visão ideológica e extremista de certos setores que apoiam o Governo e que não é boa, porque hostiliza as empresas, mata o investimento, os investidores saem e acumulam-se processos judiciais e não se resolve problema nenhum”. Palavras que poderão agora cair mal junto de BE e PCP, ainda que já se saiba que estes partidos não irão negociar nada oficial com Costa Silva — os interlocutores do Executivo continuarão a ser os ministros.

Mas nem só de críticas se faz a relação pública de António Costa Silva e António Costa. Em 2016, numa entrevista ao ECO, apesar do pessimismo em relação à governação refletido no título da entrevista — “Portugal pode precisar de novo resgate a qualquer momento” –, o gestor elogiou o então recém empossado primeiro-ministro: “Penso que vai durar, porque António Costa já provou que é um político excelente a esse nível“, disse, em relação à durabilidade do Executivo então formado pelo PS com o apoio parlamentar do PCP, BE e PEV, a apelidada “geringonça”.

António Costa Silva disse ainda que classificava o desempenho do Governo de “aceitável”, apesar de já aí utilizar a expressão “presos por pinças” para definir a situação em que o país se encontra. “Todos estes ganhos aparentes em termos de estabilidade e paz social que António Costa conquistou foram conseguidos numa situação de grande instabilidade”, alertava. Fast forward para 2018 e mais um elogio (mas sempre com um aviso extra): “Este Governo tem feito coisas positivas na redução do défice, do controlo das finanças públicas e da diminuição do desemprego, mas precisamos de muito mais“, disse na entrevista ao Público.

As divergências na gestão dos recursos naturais

As críticas, no entanto, não são exclusivas a António Costa, a este Governo ou ao PS. Anteriormente, em 2017, numa entrevista ao jornal i, já tinha sido bastante crítico da estratégia do país, mas generalizando para todos os políticos: “O país está preso por pinças e, em vez de criar novas alavancas económicas, valorizar os seus recursos, diversificar a sua economia, faz exatamente o contrário”, disse. Apelidando o crescimento de “anémico”, chegou a dizer que era uma “vergonha nacional” que o país tenha crescido apenas 0,05% entre 2001 e 2015, valores que não permitem resolver o problema da dívida e do investimento.

Mas a maior agressividade nas palavras de Costa Silva foi quando falou dos temas que lhe são caros como os recursos naturais: “Portugal não tem um problema de escassez de recursos. Temos um problema de escassez de inteligência nas políticas públicas, que muitas vezes minam à cabeça a utilização desses recursos”. Agora, cerca de três anos depois dessas declarações, o gestor terá o papel de definir essas mesmas políticas públicas, depois de no passado ter criticado que em Portugal se governava “para as próximas eleições autárquicas ou para as sondagens”.

Mais: “O país é um iceberg no meio do oceano”, que “como não tem estratégia ninguém sabe para onde ele vai”, disse numa conferência da CIP em 2018, citado pelo Dinheiro Vivo, acusando o país de viver “sobre a tirania do politicamente correto”. Como é habitual nas suas intervenções, deu como exemplo a gestão dos recursos naturais, nomeadamente o facto de Portugal ter “a sétima maior reserva de lítio do mundo”, o que é essencial para a mobilidade elétrica, mas “não fazemos nada para capitalizar estes recursos”.

Mais recentemente, no início de 2019, o também professor do Instituto Superior Técnico de Lisboa criticou o Plano de Ordenamento do Espaço Marítimo: “Quando olhamos para o Plano de Ordenamento do Espaço Marítimo, que está a ser discutido até 31 de janeiro deste ano, os Açores não constam. É uma aberração total, que mostra a negligência com que as nossas autoridades tratam, muitas vezes, essas questões“, disse, citado pelo Diário dos Açores, referindo que a sul do arquipélago há a “maior mancha de sulfuretos polimetálicos do mundo”, que permitem a extração de zinco, cobre e chumbo.

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