Retoma pós-troika e boom no turismo agravam pegada ecológica de Portugal

A edição de 2020 do relatório Planeta Vivo do WWF revela um "SOS da natureza", com um declínio médio de 68% das populações globais de animais. Portugal gasta o equivalente a 2,5 planetas por ano.

Em menos de 50 anos, as 21.000 populações globais de mamíferos, aves, anfíbios, répteis e peixes sofreram um declínio médio de 68% em consequência da destruição da natureza. Esta taxa salta para os 84% nos ecossistemas de água doce (o que equivale a um declínio anual de 4%): atualmente uma em cada três espécies de água doce está ameaçada de extinção.

Os números “negativos e preocupantes” são da edição de 2020 do Relatório Planeta Vivo da organização não-governamental internacional de conservação ambiental World Wide Fund for Nature (WWF), lançado globalmente esta quinta-feira, 10 de setembro, que sublinha precisamente esta perda de biodiversidade como a base do aparecimento de zoonoses como a Covid-19.

“Este relatório vem dar-nos um verdadeiro SOS pela natureza, mostrando em que ponto está o declínio da biodiversidade que já vinha sendo registado em anteriores relatórios. A biodiversidade é fundamental para a vida humana na Terra mas está a ser destruída a um ritmo sem precedentes”, alertou Catarina Grilo, diretora de Conservação e Políticas da Associação Natureza Portugal (ANP), que trabalha em alinhamento com o WWF, na apresentação do relatório em Portugal, durante um evento digital que contou com a presença da ministra da Agricultura, Maria do Céu Antunes, do ministro do Mar, Ricardo Serrão Santos, do conselheiro do gabinete do secretário de Estado da Conservação da Natureza, Florestas e Ordenamento do Território, Eduardo Carquejeiro, e José Sá Fernandes, vereador da Câmara Municipal de Lisboa, entre outros.

O índice mostra também que há disparidades regionais na taxa de declínio da biodiversidade desde 1970 e até 2016: na Europa e na Ásia registou-se por exemplo um declínio médio de 24% nas últimas cinco décadas. A degradação e a destruição dos habitats, fomentada pela desflorestação é o principal motivo para a destruição da natureza, seguido das espécies invasoras, da poluição e, em menor grau, das alterações climáticas.

“É importante frisar que as alterações climáticas não têm sido a causa mais significativa da perda de biodiversidade, mas várias projeções indicam que nas próximas décadas se tornará tão ou mais importante que as outras causas”, disse Catarina Grilo.

Portugal gasta 2,52 planetas por ano para manter atual estilo de vida

Olhando mais de perto para Portugal, o país tem contribuído ativamente para esta destruição da natureza. De ser o 66º país com pior pegada ecológica, subiu 20 posições para o 46º, o que significa que “a saída da crise entre 2014 e 2016 se fez à custa do aumento do consumo dos portugueses e dos turistas”, sendo que “mais de metade desta pegada é carbónica, ou seja, as emissões geradas para nos fornecer bens e serviços”.

De acordo com os dados da ANP|WWF, “a retoma económica no pós-troika e o aumento do turismo têm levado a um crescimento do consumo com consequências graves para a pegada ecológica média dos portugueses”. Segundo os dados do Relatório Planeta Vivo, edição de 2020, os portugueses precisam agora de 2,52 planetas para manter o seu atual estilo de vida, um aumento significativo face ao anterior relatório (em 2018 eram 2,23 planetas), excedendo largamente a biocapacidade do país.

O país que ocupa o primeiro lugar nesta escala de Pegada é o Qatar (sendo o que pior desempenho ambiental apresenta). Países como os Estados Unidos, a Austrália, o Canadá, a França, Itália, Reino Unido, Países Baixos, Bélgica, Suíça e Alemanha têm Pegadas superiores a Portugal.

“Após 2014, observa-se um aumento absoluto em todos os componentes da pegada portuguesa, com exceção da área agrícola e das pastagens. O componente onde se observa um maior crescimento relativo é o dos produtos florestais, num aumento de 92% entre 2014 e 2016 associado à retoma na construção e consequentemente no mobiliário”, refere a ANP/WWF.

Por tudo isto, inúmeras organizações ambientais apelam à implementação de um Novo Acordo para a Natureza e as Pessoas. “Ainda vamos a tempo. Com medidas mais ambiciosas de conservação da natureza e alterações profundas na forma como produzimos e consumimos alimentos, conseguiremos reverter a perda de biodiversidade”, garante Catarina Grilo.

Por seu lado, a ministra da Agricultura frisou o trabalho que tem vindo a ser desenvolvido pelo Governo para a criação de uma agenda a uma década, que vai ser apresentada no dia 11 de setembro, para uma gestão mais eficiente dos recursos naturais, com maior respeito pela natureza e pela preservação da biodiversidade, que ajude a combater a degradação dos solos e a incrementar o sequestro de carbono e evite o desperdício em todo o processo produtivo, para uma economia circular.

Queremos que o modelo agrícola possa ser sustentável e garantir uma alimentação em quantidade e qualidade, assente em produtos frescos, de época, locais, possamos reduzir a nossa pegada ecológica apostando na cadeias curtas”, disse Maria do Céu Antunes, frisando o reforço da energia verde e o consumo sustentável no setor agrícola.

Do gorila ao papagaio, “ainda vamos a tempo” de travar a extinção

“Não podemos ignorar as evidências – o declínio grave da vida selvagem é um indicador de que a natureza está a desaparecer com graves consequência para a saúde humana. O nosso planeta está a enviar-nos a todos sinais de alerta”, afirmou por seu lado Ângela Morgado, diretora executiva da ANP|WWF, acrescentando que “no meio de uma pandemia global, é mais importante que nunca iniciar uma ação global coordenada e sem precedentes para até 2030 haver zero perda de habitats, zero extinção de espécies e populações de vida selvagem em todo o mundo, e reduzir para metade a nossa pegada ecológica. A nossa própria sobrevivência cada vez depende mais disso, de termos um Novo Acordo pela Natureza e as Pessoas.”

As três principais metas deste Novo Acordo “para proteger e restaurar a natureza até 2030 passam por: zero perdas de habitas; zero extinções de espécies e reduzir para metade a pegada ecológica da produção e do consumo.

As espécies ameaçadas de extinção, analisadas pelo Índice Planeta Vivo, incluem o gorila da planície oriental, cujo número no Parque Nacional Kahuzi-Biega, na República Democrática do Congo, viu um declínio de 87% entre 1994 e 2015, principalmente devido à caça ilegal. Inclui também o papagaio cinza africano, no sudoeste do Gana, cujo número caiu 99% entre 1992 e 2014 devido às ameaças representadas pelo comércio de aves selvagens e perda de habitat. Já a população reprodutora de esturjão chinês no rio Yangtze, na China, que diminuiu 97% entre 1982 e 2015 devido ao bloqueio do canal. O Índice rastreou quase 21.000 populações de mais de 4.000 espécies de vertebrados entre 1970 e 2016.

O Relatório Planeta Vivo 2020 é lançado uma semana antes da 75ª sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas, onde se espera que os líderes mundiais revejam o progresso feito nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, no Acordo de Paris e na Convenção da Diversidade Biológica (CDB). A Assembleia reunirá líderes mundiais, empresas e a sociedade civil para desenvolver o quadro de ação pós-2020 para a biodiversidade global, sendo por isso um “momento chave para estabelecer as bases para um Novo Acordo para a Natureza e as Pessoas, urgentemente necessário”.

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