Da tecnologia ao retalho ou beleza. Empresas querem trabalhadores acionistas

Grupos internacionais trazem para Portugal os programas de compra de ações exclusivos para trabalhadores. Há atualmente duas ofertas abertas, num total que este ano já se aproxima das duas dezenas.

Fotomontagem: Lídia Leão / ECO

Se recompensar os gestores de topo com participações na estrutura acionista da empresa é comum, abrir o capital aos trabalhadores nem tanto. Mas a tendência internacional está a ser importada para Portugal por grandes grupos. E parece estar a ter sucesso: quase duas dezenas de empresas lançaram ofertas só este ano, incluindo vários repetentes.

O L’Oréal é um dos grandes grupos que decidiu abrir o capital aos funcionários. A multinacional lançou, em setembro, o segundo plano de participação dos colaboradores em 57 países, incluindo Portugal, para abrir a possibilidade aos trabalhadores de estarem “mais ligados ao desenvolvimento do grupo”.

Esta foi a segunda vez que a empresa o faz, após uma primeira iniciativa em 2018. “Depois do sucesso do primeiro plano, queremos envolver novamente os nossos colaboradores na prosperidade do grupo. Este segundo programa de participação no capital é uma nova oportunidade para os colaboradores que desejem apoiar o desenvolvimento da empresa e participar no seu projeto estratégico”, explica Jean-Paul Agon, CEO da L’Oréal.

Entre 17 de setembro e 2 de outubro, disponibilizou 500 mil ações a um preço de compra que beneficiou de um desconto de 20% face ao preço médio das ações da L’Oréal na Euronext Paris nos vinte dias de negociação anteriores ao anúncio.

"Depois do sucesso do primeiro plano, queremos envolver novamente os nossos colaboradores na prosperidade do grupo. Este segundo programa de participação no capital é uma nova oportunidade para os colaboradores que desejem apoiar o desenvolvimento da empresa e participar no seu projeto estratégico.”

Jean-Paul Agon

CEO da L’Oréal

Do lado dos trabalhadores, esse é o principal benefício: terem acesso às ações da empresa a um preço mais baixo, com a expectativa que venham a gerar retorno financeiro. Por outro lado, o das empresas, funciona como benefício extra-salarial, bem como forma de alinhar os interesses dos trabalhadores com os próprios. Nalguns países, trazem também benefícios fiscais.

Além do plano do grupo francês de beleza, houve outro semelhante a decorrer no mesmo período em Portugal. Também de um grupo francês, mas do setor do retalho. Até final de setembro, os trabalhadores do Auchan tiveram a oportunidade de subscrever ações do grupo. Quem esteja há mais de dois anos na empresa ou tiver contrato sem termo, tinha um benefício adicional: por cada título comprado a 5,92 euros, recebeu outra gratuitamente (num máximo de 100 ações gratuitas).

Os colaboradores podiam investir um máximo de 25% da remuneração anual bruta de 2019. Estas ações não negoceiam em bolsa, mas são sujeitas a uma avaliação anual por um perito independente no Luxemburgo que determine o preço de transmissão. “O propósito desta oferta é fomentar o compromisso dos colaboradores com o Grupo Auchan, possibilitando que os mesmos se tornem acionistas de sociedades pertencentes ao mesmo”, explica a empresa, que, no ano passado, já tinha conseguido 1,6 milhões de euros ao vender 281.299 ações a colaboradores.

"O propósito desta oferta é fomentar o compromisso dos colaboradores com o Grupo Auchan, possibilitando que os mesmos se tornem acionistas de sociedades pertencentes ao mesmo.”

Prospeto da oferta de colaboradores do Auchan

Os planos de compra de ações para colaboradores importados por grandes grupos internacionais multiplicam-se e, só em 2020, decorreram 18 ofertas (incluindo as duas já referidas) de ações exclusivas para trabalhadores em Portugal. A tecnologia é um dos setores com maior destaque e norte-americana Microsoft é uma veterana nesta forma de captar financiamento e motivar os trabalhadores.

Há vários anos que a subsidiária em Portugal do grupo fundado por Bill Gates leva a cabo programas regulares. O mais recente ficou fechado a 30 de setembro. “Durante o período de três meses da oferta, que se iniciou a 1 de julho de 2020 e terminou a 30 de setembro de 2020, foi adquirido um total de 3,182.6487 ações da Microsoft, no âmbito do ESPP em Portugal, por trabalhadores elegíveis das subsidiárias da Microsoft em Portugal, pelo preço de 189,30 dólares por ação, num montante total de 602.475,40 dólares”, anunciou a empresa. No último dia do prazo já os títulos negociavam acima dos 202 dólares em Wall Street.

Outros exemplos de tecnológicas que o fizeram incluem a empresa de retalho de luxo Farfetch, a Infinera que trabalha na área da saúde, as empresas de tecnologias da informação Cisco, CGI, Atos SE e Accenture, bem como a empresa de software Synopsys e a plataforma de transportes Uber.

Mas há também representantes de outras áreas. É o caso da farmacêutica Roche, da Veolia (da área do ambiente) ou da Saint-Gobain (de vidros). Na área financeira, acrescentam-se ainda o banco Crédit Agricole, a seguradora Allianz e a corretora de seguros Marsh & McLennan.

Nas telecom, a Nokia teve em aberto um programa, até junho, em que as compras podiam ser feitas através de contribuições mensais retiradas diretamente do ordenado. Foi oferecida uma ação por cada duas compradas e mantidas até 31 de julho e, no total, foram compradas 120.760,97 ações a 3,70 euros cada, o que resulta num encaixe de 442.423,93 euros. “Com a nova era 5G a aproximar-se, a Nokia considera que um novo e excitante período se avizinha e é o seu desejo partilhá-lo com os seus colaboradores“, explicou a empresa.

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