Com Espanha, Novo Banco desfez-se de 15 sucursais lá fora. “Estamos focados em Portugal”, diz António Ramalho

Em poucos anos, o Novo Banco cortou pela raiz presença nos mercados internacionais: das Ilhas Caimão a Nova Iorque, incluindo Espanha, desfez-se de 15 sucursais. Ramalho quer banco focado em Portugal.

Novo Banco concentra agora operações em Portugal e Luxemburgo, depois de vender ou fechar 15 sucursais lá fora.ECO

Venezuela, Londres, Nova Iorque, Caimão, Bahamas, Madeira SFE, Ásia, Cabo Verde, Irlanda, França, Alemanha, Suíça, Brasil, África do Sul e, agora, Espanha. Nos últimos anos, o Novo Banco cortou pela raiz a presença internacional que vinha do tempo do BES para concentrar a sua atividade praticamente apenas em Portugal, depois de ter concluído a venda da operação espanhola ao Abanca por um valor indeterminado, mas que obrigou a instituição a registar uma perda de 166 milhões de euros.

Desde 2017, o banco liderado por António Ramalho já se desfez de 15 sucursais internacionais, seja através da alienação dos negócios (como o Bancamiga na Venezuela, o NB Ásia ao grupo Well Link ou o francês BES Vénétie ao fundo Cerberus), do encerramento de operações ou da absorção de sociedades (como Caimão ou Alemanha), por imposição ou não de Bruxelas.

Com isto, também conseguiu reduzir substancialmente o quadro de colaboradores e agências lá fora: passou de 333 para 22 trabalhadores, enquanto o número de balcões passou de 25 para apenas um balcão internacional.

Luxemburgo, onde reside uma grande comunidade de emigrantes portugueses, é agora a única “praça” internacional que resta do legado histórico do BES, tratando-se de um book center que o Novo Banco quer manter.

Com a venda de Espanha, o Novo Banco foca-se em Portugal no apoio à economia e às empresas e aos profissionais portugueses”, diz o CEO António Ramalho em declarações ao ECO.

"Com a venda de Espanha, o Novo Banco foca-se em Portugal no apoio à economia e às empresas e aos profissionais portugueses.”

António Ramalho

CEO do Novo Banco

Espanha dá prejuízo de 650 milhões em 10 anos

Ao contrário de outras operações que foram alienadas nos últimos anos, a venda do negócio em Espanha não estava nos planos de António Ramalho (e não estava no caderno de encargos do acordo com a Comissão Europeia). Pelo contrário, havia a ideia que tornar o Novo Banco num banco de vocação ibérica, tendo sido elaborado um plano para uma “profunda transformação” da sucursal espanhola com o objetivo de criar “condições objetivas para um crescimento sustentável”.

Contudo, a operação do outro lado da fronteira nunca foi rentável. O prejuízo acumulado nos últimos 10 anos até 2020 foi superior a 65 milhões de euros por ano, o que perfaz uma perda de 650 milhões numa década. Ou seja, para o banco, enquanto procura recentrar o crescimento no mercado doméstico, abandonar Espanha também vai significar uma melhoria dos resultados globais, reduzindo os custos de forma substancial e contribuindo para o novo ciclo que António Ramalho já disse que vai ser de lucros, após a reestruturação do banco e milhões e milhões de prejuízos.

Nessa medida, sair de Espanha passa a ser uma decisão estratégica pois permitirá ajudar o Novo Banco a cumprir do compromisso de viabilidade previsto no acordo com Bruxelas.

O processo de venda arrancou em maio de 2020 e deverá ficar concluído no segundo semestre deste ano. O Novo Banco assegura que não terá efeitos relevantes na conta de exploração de 2021.

O banco não revelou valores do negócio, mas a imprensa espanhola, citando fontes próximas, refere que a operação assinada “quase de borla” para o Abanca, que também está presente em Portugal e já mostrou interesse em comprar o EuroBic. “O governo português teve de escolher entre o choque ou a morte. Se não vendesse a filial espanhola, custaria 200 milhões por ano de consumo de capital que o Estado teria de suportar. Mas para vendê-lo, ele teve que injetar mais dinheiro nele e desistir de ganhar qualquer coisa pela venda”, disse uma fonte citada pelo jornal Okdiario (conteúdo em espanhol/acesso livre).

O banco fechou o ano passado com prejuízos de 1.329 milhões de euros e anunciou que vai pedir ao Fundo de Resolução quase 600 milhões ao abrigo do mecanismo de capital contingente. Há, contudo, uma divergência no valor de 166 milhões de euros entre o Novo Banco e o fundo liderado por Máximo dos Santos que está relacionada com a provisão registada por causa da venda da operação espanhola. O Fundo de Resolução tem dúvidas se deve pagar essa provisão, enquanto o primeiro-ministro, António Costa, disse que o pedido do Novo Banco “manifestamente ultrapassa aquilo que é devido”.

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