Criptoativos surgem como sombra no otimismo da OCDE para a Zona Euro
Os analistas da OCDE revelam-se mais otimistas para Zona Euro do que há 3 meses, mas alertam que a economia pode tropeçar em guerras comerciais, orçamentos frágeis e ativos digitais fora de controlo.
Apesar da relativa resiliência económica registada na primeira metade do ano, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) adverte que “riscos significativos para as perspetivas económicas permanecem” e identifica múltiplas ameaças que podem comprometer o crescimento na Zona Euro nos próximos dois anos.
No mais recente relatório intercalar do Economic Outlook, publicado esta terça-feira, e em que os analistas reviram em alta as previsões de crescimento do PIB para este ano (de 1% para 1,2%) e em baixa para 2026 (de 1,2% para 1%) para a Zona Euro, a OCDE enumera um conjunto alargado de fatores de risco que vão desde o protecionismo comercial até às vulnerabilidades orçamentais, passando pela instabilidade dos mercados financeiros e a volatilidade dos criptoativos.
O principal risco identificado pela equipa de analistas da OCDE, liderada ainda por Álvaro Santos Pereira como economista-chefe, centra-se na escalada das tensões comerciais. O relatório sublinha que “aumentos adicionais nas taxas tarifárias bilaterais” representam uma preocupação central, especialmente após a taxa tarifária efetiva dos EUA ter subido para “uns estimados 19,5% no final de agosto, a taxa mais elevada desde 1933”.
A organização liderada por Mathias Cormann alerta que “barreiras comerciais mais elevadas poderão também ser adotadas noutras economias para proteger a indústria doméstica contra concorrência intensificada de baixo preço”, criando um efeito dominó que pode fragmentar ainda mais as cadeias de fornecimento globais.
Disciplina orçamental é necessária para salvaguardar a sustentabilidade da dívida a longo prazo e manter espaço para reagir a choques futuros.
Além dos efeitos diretos através do aumento de custos e preços de bens finais, tais mudanças “poderão aumentar a incerteza política, com impactos adversos no investimento e na confiança dos consumidores”, destacam os analistas no relatório publicado esta terça-feira.
Em cima de um expectável maior protecionismo por conta de um avolumar das tensões geopolíticas, os analistas da OCDE destacam ainda dois grandes riscos para a economia europeia:
- Contas públicas deficitárias
Segundo a OCDE, há cada vez mais países a enfrentar pressões com as suas contas públicas, o que faz com que as vulnerabilidades orçamentais possam “atrair crescentemente atenção, apertando as condições financeiras e impactando adversamente as perspetivas de crescimento”. Os analistas observam que “yields de longo prazo das obrigações soberanas [de muitos países da OCDE] em alta refletem défices orçamentais grandes e persistentes combinados com níveis historicamente elevados de dívida pública em muitas economias”. A organização alerta ainda que “aumentos adicionais nos prémios poderão aumentar os riscos de refinanciamento para alguns mutuários soberanos”. - Criptoativos como risco sistémico emergente
Uma novidade no conjunto de riscos identificados pelos especialistas é a volatilidade dos criptoativos, que “também levanta riscos de estabilidade financeira dada a crescente interconetividade com o sistema financeiro tradicional”. O relatório revela que “a capitalização de mercado dos criptoativos encontra-se perto de máximos históricos, totalizando 3,9 biliões de dólares em setembro, acima dos 830 mil milhões de dólares em janeiro de 2023”. A preocupação centra-se no facto de os “valores dos criptoativos serem altamente voláteis comparados com outras classes de ativos”, alerta a OCDE.
Face a estes desafios, a OCDE apresenta um conjunto de recomendações estruturais. Em primeiro lugar, “os países precisam de encontrar formas de se envolverem cooperativamente dentro do sistema comercial global e trabalhar em conjunto para tornar a política comercial mais transparente e previsível enquanto abordam preocupações de segurança económica”.
No que se refere à política monetária, a organização que agrega 38 países defende que “os bancos centrais devem manter-se vigilantes e reagir prontamente a mudanças no equilíbrio de riscos para a estabilidade de preços”. A manutenção da “independência dos bancos centrais preservará a credibilidade política e reduzirá a volatilidade e persistência da inflação”.
Embora existam cenários positivos, a OCDE alerta que a prioridade dos países e dos seus governos deve ser a gestão proativa dos múltiplos riscos que se acumulam no horizonte.
Na frente orçamental, a OCDE é clara: “disciplina orçamental é necessária para salvaguardar a sustentabilidade da dívida a longo prazo e manter espaço para reagir a choques futuros”. A organização recomenda “trajetórias credíveis de ajustamento orçamental de médio prazo com esforços mais fortes para conter e realocar gastos e melhorar receitas”.
Os especialistas sublinham ainda a necessidade de “monitorização eficaz, supervisão e políticas regulamentares robustas” para “abordar riscos de estabilidade financeira”, especialmente face ao “crescimento rápido da capitalização de mercado dos criptoativos”.
A OCDE conclui que, embora existam cenários positivos — como “reduções nas restrições comerciais ou desenvolvimento e adoção mais rápidos de tecnologias de inteligência artificial” que “poderiam fortalecer as perspetivas de crescimento” – a prioridade dos países e dos seus governos deve ser a gestão proativa dos múltiplos riscos que se acumulam no horizonte.
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