Nexperia, a empresa de ponta que os holandeses tiraram aos chineses

Intervenção na empresa detida pela chinesa Wingtech, que produz semicondutores para gigantes da indústria automóvel, veio escalar as tensões com a China e pode parar o setor automóvel.

Foi com uma Lei aprovada nos tempos da Guerra Fria, para permitir ao Estado assumir o controlo de empresas por questões de segurança, que os Países Baixos justificaram a intervenção feita na Nexperia. Invocando riscos para a segurança nacional e europeia, o governo neerlandês tirou da empresa detida pela chinesa Wingtech todo o poder de decisão e assumiu o controlo temporário da fabricante de chips, que serve gigantes do setor automóvel europeu. Mas que empresa é esta no centro da polémica e que está a colocar os Países Baixos no meio de uma disputa pelo domínio tecnológico entre os EUA e a China?

A decisão de tirar, pelo menos temporariamente, a Nexperia dos chineses foi tomada no passado dia 30 de setembro, ainda que apenas se tenha tornado pública no dia 12 de outubro, e levou ao afastamento do CEO da Wingtech, Zhang Xuezheng, do seu cargo de diretor executivo da Nexperia.

O comunicado divulgado pelas autoridades neerlandesas revela que “a decisão tem por objetivo evitar uma situação em que os bens produzidos pela Nexperia (produtos acabados e semi-acabados) fiquem indisponíveis em caso de emergência”. No entanto, soube-se entretanto que a intervenção aconteceu depois de os Países Baixos terem sido pressionados por Washington para fazer mudanças no controlo da fabricante.

Registos judiciais recentemente publicados, e citados pelo Politico, revelam que o Ministério dos Negócios Estrangeiros dos Países Baixos e um organismo do governo dos Estados Unidos responsável pela proteção de tecnologia crítica norte-americana se reuniram em junho para discutir a situação da Nexperia. Nesse encontro, os responsáveis norte-americanos manifestaram a sua preocupação pelo facto de o líder da empresa manter-se o mesmo da empresa chinesa, pedindo o afastamento do CEO, Zhang Xuezheng, fundador da Wingtech.

É quase certo que o CEO terá de ser substituído para que a empresa possa qualificar-se para uma isenção na lista de entidades” para exportar para os EUA, revelam os mesmos documentos, confirmando que a decisão tomada pelas autoridades dos Países Baixos ocorreu após o país ter sido confrontado com esta exigência norte-americana.

A dona chinesa da Nexperia entrou em dezembro de 2024 para a chamada lista ‘negra’ dos EUA devido a preocupações de segurança nacional, sendo que as empresas norte-americanas estão proibidas de exportar produtos fabricados nos Estados Unidos para as empresas que integram essa lista, a não ser que tenham uma aprovação especial.

Comprada em 2018 pela Wingtech Technology por 3,6 mil milhões de dólares, a Nexperia resulta de um dos spin-offs feitos pela Philips. Apesar de produzir tecnologia de ponta, focada no fabrico de semicondutores, a história da empresa recua aos anos 20 do século passado, quando a Philips comprou as empresas britânicas Mullard e a alemã Valvo, estabelecendo centros de produção de semicondutores em Hamburgo e Nijmegen.

Mais tarde, nos anos 1950, a Philips iniciou a produção de semicondutores em Nijmegen e Hamburgo. À semelhança do que aconteceu com outras empresas que têm vários negócios, em 2006, a Philips decidiu separar a sua divisão de semicondutores, criando a NXP Semiconductors.

Num segundo spin-off, a NXP voltou a separar uma parte do negócio, criando a Nexperia, que seria vendida aos chineses em 2018. Hoje é um dos principais fornecedores europeus de chips indispensáveis para veículos e equipamento industrial.

A Volkswagen é uma das empresas do setor automóvel que depende dos chips fornecidos pela Nexperia

A Volkswagen e a BMW estão entre as fabricantes automóveis que usam chips da Nexperia, assim como a Bosch que usa os seus chips para peças automóveis. Apesar de tanto a Volkswagen como a BMW terem adiantado que a sua produção ainda não foi afetada pela situação, ambas as empresas adiantaram que estão a trabalhar para identificar potenciais riscos.

Não é a primeira vez que a indústria enfrenta uma crise no fornecimento de semicondutores. Foi precisamente isso que aconteceu após a pandemia da covid-19, o que originou uma estratégia europeia para tornar a produção mais “regional”, com a Nexperia a afirmar-se como um fornecedor vital para a indústria automóvel.

China contra-ataca

O “ataque” neerlandês é um dos mais visíveis na Europa a uma empresa de capitais chineses, mas não é o único. Em 2022, o Reino Unido ordenou que a Nexperia desinvestisse na Newport Wafer Fab por questões de segurança e, em 2023, o governo dos Países Baixos escrutinou a aquisição da startup de chips Nowi pela Nexperia, ainda que tenha permitido a concretização do negócio.

Num momento em que Washington e Pequim continuam a medir forças – EUA aprovaram recentemente a ordem executiva que transfere a rede social TikTok nos EUA para donos norte-americanos –, a interferência na Nexperia não ficou sem resposta por parte das autoridades chinesas.

O ministério do Comércio impôs restrições às exportações da Nexperia China e dos seus subcontratados a 4 de outubro, o que equivale a uma proibição da exportação de certos componentes fabricados na China, depois de classificar a ação na empresa como “um ato de interferência excessiva motivado por preconceitos geopolíticos, e não por uma avaliação de risco baseada em factos”.

Perante esta disputa entre a Nexperia, a China e os Países Baixos, a associação que representa a indústria automóvel europeia avisou que os fabricantes automóveis podem enfrentar uma perturbação significativa na produção do setor, que tem a braços uma crise de procura, tarifas por parte dos EUA e concorrência crescente.

Segundo um comunicado da ACEA, os fabricantes de automóveis e os seus fornecedores receberam na semana passada um aviso da Nexperia de que a empresa já não podia garantir a entrega dos seus chips.

Sem estes chips, os fornecedores automóveis europeus não conseguem fabricar as peças e componentes necessários para abastecer os fabricantes de veículos“, o que poderá levar a uma paralisação da produção, avisa a associação.

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