Portugueses entre os que menos poupam na Europa

Portugal está no fim da tabela da poupança europeia. Com uma taxa de poupança de 11,95% no segundo trimestre, o fosso face à média da Zona euro atingiu o valor mais elevado em ano e meio.

Portugal continua a ser o parente pobre da poupança na Zona Euro. Com uma taxa de poupança das famílias de 11,95% no segundo trimestre deste ano. O país mantém-se na última posição entre os oito Estados-membros da moeda única que já divulgaram dados, revela o Eurostat esta segunda-feira.

Entre os 14 Estados-membros da União Europeia que divulgaram dados, apenas a Polónia apresenta números piores que Portugal. E entre os oito países da Zona Euro que já apresentaram dados, nenhum bate Portugal pela negativa.

Os dados de Portugal comparam com uma taxa média de 14,97% de média da União Europeia e 15,5% registados na Zona Euro, que faz com que o nível de poupança das famílias portuguesas face à média da área do euro se traduza em 3,5 pontos percentuais, ou seja, no maior diferencial desde o quarto trimestre de 2023, segundo dados do Eurostat.

Estes dados do Eurostat contrastam parcialmente com as estatísticas nacionais divulgadas pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) em setembro, que apontavam para uma taxa de poupança de 12,6% no segundo trimestre, ligeiramente acima dos 11,95% reportados pelo Eurostat. Esta divergência explica-se por diferenças metodológicas entre as duas instituições na forma como calculam e ajustam os indicadores, mas a tendência de fundo mantém-se.

Apesar de a taxa de poupança nacional ter subido ligeiramente 0,12 pontos percentuais face ao primeiro trimestre, o ritmo de crescimento fica muito aquém do observado na generalidade dos países europeus. No segundo trimestre de 2025, segundo o Eurostat, “a taxa de poupança das famílias aumentou em nove Estados-membros da União Europeia e diminuiu em cinco”, com destaque para a Finlândia, que registou o maior aumento (+2,2 pontos percentuais), seguida pela Bélgica (+1,5 pontos percentuais) e pela Suécia (+1,3 pontos percentuais).

A justificação para que os portugueses continuem a poupar menos que a média das famílias europeias não é linear, mas cruza vários fatores:

  • Por um lado, os salários em Portugal continuam abaixo da média europeia, o que naturalmente limita a capacidade de poupança.
  • Por outro, o peso das despesas fixas — habitação, energia, alimentação — consome uma fatia substancial do orçamento familiar, deixando menos margem para guardar dinheiro ao fim do mês.

Mas há outro dado que complementa este retrato: a taxa de investimento das famílias. Se a taxa de poupança trata-se da proporção do rendimento disponível das famílias que não é gasta em consumo, a taxa de investimento mede a proporção do rendimento disponível canalizada para investimento em capital fixo — essencialmente, compra e renovação de habitação própria.

No segundo trimestre, a taxa de investimento das famílias portuguesas fixou-se em 6,27%, um aumento de 0,28 pontos percentuais face ao trimestre anterior. Entre os oito Estados-membros da Zona Euro e os 14 países da União Europeia que apresentaram dados, nenhum teve um desempenho superior a Portugal.

Apesar deste aumento trimestral, a taxa de investimento das famílias nacionais continua significativamente abaixo da média da Zona Euro, que se fixou em 8,96% no segundo trimestre. Esta diferença revela que as famílias portuguesas estão a investir menos em habitação própria do que a generalidade dos seus pares europeus — uma realidade que se explica, em parte, pelos preços elevados da habitação e pelas dificuldades de acesso ao crédito que muitas famílias ainda enfrentam.

Nota: Se está a aceder através das apps, carregue aqui para abrir o gráfico.

O nível de poupança das famílias está intrinsecamente ligado ao comportamento do consumo. Segundo o INE, as despesas de consumo final aumentaram 1,4% no segundo trimestre, mas o rendimento disponível das famílias registou um crescimento superior, de 1,5%, o que permitiu a ligeira recuperação da taxa de poupança. “Em termos reais, o consumo final aumentou 0,7% no ano acabado no segundo trimestre de 2025”, adiantou o INE, sublinhando que o crescimento do consumo continua a ser travado pela inflação persistente.

O investimento das famílias em habitação também deu sinais positivos: “O investimento das famílias, que corresponde sobretudo ao património relativo à habitação, registou um aumento de 4,3%” no segundo trimestre, segundo o INE. Ainda assim, a taxa de investimento das famílias portuguesa de 6% continua muito distante da média da Zona Euro.

Mas o cenário nacional ganha ainda mais relevância quando se olha para o contexto europeu mais alargado. Segundo o Eurostat, “no segundo trimestre de 2025, o consumo real per capita das famílias aumentou 0,3% na Zona Euro”, após uma descida de 0,1% no trimestre anterior. Ao mesmo tempo, “o rendimento real per capita das famílias aumentou 0,5%”, após um aumento de 0,1% no primeiro trimestre de 2025. Estes dados mostram que, na generalidade da Europa, as famílias estão a conseguir fazer crescer os seus rendimentos a um ritmo superior ao do consumo — o que favorece a acumulação de poupança.

Na União Europeia, a tendência é semelhante. “No segundo trimestre de 2025, o consumo real per capita das famílias aumentou 0,4% na União Europeia”, depois de uma queda de 0,3% no trimestre anterior. Simultaneamente, “o rendimento real per capita das famílias aumentou 0,6%”, após ter permanecido estável no primeiro trimestre de 2025.

O Eurostat também destaca que o aumento do rendimento real per capita na área do euro durante o segundo trimestre “é principalmente explicado pela contribuição positiva da remuneração dos trabalhadores e dos benefícios sociais que não sejam transferências sociais em espécie”, enquanto “os impostos correntes e as contribuições sociais líquidas foram o maior contributo negativo tanto na área do euro como na União Europeia”.

Estes dados mostram que, apesar de os salários estarem a crescer na Europa, o peso dos impostos e das contribuições sociais continua a pressionar o rendimento disponível das famílias — uma realidade que Portugal conhece bem, com um esforço fiscal por parte das famílias entre os mais elevados da Zona Euro.

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