Setor automóvel precisa de libertar-se da “camisa-de-forças” da regulamentação na Europa
Líder da indústria de componentes para automóveis critica a imposição excessiva de regras às empresas europeias, que concorrem com chinesas que beneficiam de apoios do Estado e custos mais baixos.
Num momento em que o setor automóvel europeu continua a ser pressionado pela crescente concorrência chinesa, que traz para a região carros mais baratos, o presidente da Associação de Fabricantes para a Indústria Automóvel (AFIA), José Couto, alerta que a Europa não pode continuar a perder quota de mercado para estas empresas e precisa de libertar-se da “camisa-de-forças” de regulamentação que contribui para a “tempestade” no setor.
“Com a queda da motorização automóvel tradicional, não podemos estar a perder quota de mercado para outros que vêm aqui pôr os seus carros, vender os seus veículos na Europa e que não respeitam algumas regras. Desde logo, as regras que têm a ver com os direitos dos trabalhadores, e são financiados, subsidiados ou subvencionados pelo Estado”, critica o presidente da AFIA, em declarações à margem a 12.ª Automotive Industry Week, em Vila Nova de Gaia.
Perante aquilo que designa como uma “tempestade”, o responsável argumenta que a Europa tem de perceber como vai resolver esta situação. “A Europa tem de encontrar capacidades internamente para ser mais autónoma e ser mais competitiva“, explica, acrescentando que é preciso “agir rapidamente”. “O nosso concorrente, a China, tornou-se mais competitiva que a Europa e descobrimos todos que precisamos de acertar o caminho da reindustrialização”, completa.
Estamos numa camisa-de-forças pela regulamentação, pelo contexto, por aquilo que criámos de regras e mais regras e imposições regulatórias que nos travam, que impedem que a Europa avance mais rapidamente e possa recuperar aquilo que tem perdido.
Face a uma situação com inúmeros desafios, José Couto coloca a diminuição da regulamentação no topo das prioridades para a indústria automóvel europeia voltar a ser competitiva. “Estamos numa camisa-de-forças pela regulamentação, pelo contexto, por aquilo que criámos de regras e mais regras e imposições regulatórias que nos travam, que impedem que a Europa avance mais rapidamente e possa recuperar aquilo que tem perdido”, atira.
Além da redução da regulação, o presidente da AFIA diz que é preciso rever os pressupostos que estão nessa regulamentação, argumentando que é necessário “continuar com os pressupostos da descarbonização, mas criar condições que não nos limitem quando comparados com os nossos concorrentes”.
“Não queremos de forma alguma perder o objetivo da descarbonização, mas temos de perceber que alguns dos nossos concorrentes não o fazem e, por isso, é altamente limitativo para a Europa“, avisa. “Não posso estar a impor regras às empresas que trabalham na Europa e ser permissivo” com o que entra no mercado europeu, reforça.
Além da concorrência chinesa, José Couto reconhece que a imposição de tarifas por parte dos EUA “vai exigir uma reação diferente” parte das empresas. “Vai haver uma polarização até da prefabricação dos automóveis”, reconhece. Nota que, em termos de mercados, quem vai crescer mais é a América Central e a América do Sul, “mas provavelmente o veículo não será exatamente igual ao veículo que o consumidor europeu procura”.
“Há aqui um conjunto de desafios que têm de ser resolvidos rapidamente porque os acontecimentos também têm ciclos muito mais curtos do que tínhamos há 10 anos“, quando se idealizava um automóvel em 3 ou 4 anos. “Tudo indica que podemos encurtar muito esse tempo porque temos tecnologias diferentes, temos a inteligência artificial, temos um conjunto de ferramentas que são completamente novas”.
Apesar de todos estes desafios, José Couto refere que “nos últimos 100 anos a indústria automóvel sempre soube reagir de forma compensatória perante as perturbações”, salientando que “esta resiliência da indústria automóvel, nomeadamente em Portugal”. “Temos resistido e evoluído, mesmo perante situações em que eles, os nossos competidores, tinham condições mais favoráveis, isso deixa-me de alguma expectativa de que as coisas vão correr bem”, conclui.
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