Fraca prestação de Cotrim e Ventura, num debate de “tiro” a Marques Mendes
Cotrim de Figueiredo com maior conhecimento institucional, Ventura mais eficaz na barragem retórica. Foi este o desfecho de um debate fraco e que foi subindo na crispação.
O debate começou de forma estranhamente tranquila, com João Cotrim de Figueiredo e André Ventura a guardarem para mais tarde os ataques mais agressivos e até pessoais. A explicação para tal não foi qualquer pacto de não agressão, mas sim o primeiro tema colocado aos intervenientes: Marques Mendes e os clientes para os quais trabalhou.
Ambos os candidatos centraram a sua atenção no candidato que não estava na sala, sobretudo Ventura, que defendeu que Marques Mendes é “o mais ligado aos interesses instalados” e “o candidato menos independente de todos”. Já Cotrim deu pouco gás ao tema, defendendo apenas que mais transparência é desejável, até para o próprio candidato.
Depois desta longa primeira parte do debate, este aqueceu, e o nível de cordialidade não voltou a recuperar até final. Questionados sobre o que fazer face ao chumbo do Tribunal Constitucional à lei da nacionalidade, Ventura aproveitou para trabalhar o campo em que se sente mais à vontade, o da imigração, voltando a falar de nacionalidades em concreto e insistindo na perda de nacionalidade para estrangeiros que, tendo obtido a nacionalidade portuguesa, cometam crimes em Portugal. Perante o chumbo, aliás previsível, do TC, Cotrim foi pragmático e sensato, defendendo que mais vale deixar cair esse ponto e ter uma nova lei da nacionalidade, enquanto Ventura colocou a questão no ponto dos princípios inegociáveis e acusou Cotrim de querer “ficar com o país cheio de bandidagem”.
No campo internacional, em que Ventura foi questionado pela sua proximidade a figuras que procuram a desintegração europeia, o líder do Chega fugiu à questão e voltou ao território familiar da imigração, que considera ser o principal problema da Europa. Já Cotrim de Figueiredo insistiu na necessidade de reformar a Europa mas fez questão de afirmar a ligação ao projeto europeu.
Foi nesta fase do debate que Ventura, talvez por estar menos à vontade a falar de temas internacionais, aumentou o nível do ataque ao seu adversário, colando-o às “elites de Bruxelas” e afirmando que este procurou uma “reforma dourada em Bruxelas”. Foi, aliás, uma estratégia que viria a repetir mais tarde, quando disse que Cotrim é “o candidato do Príncipe Real e eu o candidato do País real”. Misturou imigração, agricultura e funcionários públicos, numa série de ataques confusos mas sucessivos que levou Cotrim a exclamar “que torrente!”, antes de tentar responder e recuperar o tempo que tinha a menos, uma desvantagem que durou quase até ao fim.
No tema das pensões, que se insinuou, Ventura voltou ao registo habitual de prometer tudo a todos: pensões mínimas iguais ao salário mínimo, a defesa dos agricultores e dos funcionários públicos (“milhões de funcionários públicos que nos estão a ver”, disse). Já Cotrim voltou a registo mais equilibrado ao explicar que não pode defender uma solução que resolva alguns problemas já mas que torne inviáveis as pensões do futuro.
A última parte do debate foi sem dúvida a pior. Ambos os candidatos quiseram usar o tempo que restava para desferir ataques mais fortes, a roçar ou a atingir mesmo o pessoal, em temas que foram desde José Sócrates (com ambos os candidatos a tentarem colar o outro ao ex-Primeiro-Ministro) à pedofilia.
Num registo em que está menos à vontade, Cotrim ensaiou mesmo um ataque direto ao Chega e aos seus quadros envolvidos em casos de pedofilia, mas foi pouco convicto e revelou um assomo populista que lhe é fora do comum e no qual acabou por falhar. Os últimos minutos, muito crispados de ambos os lados, foi uma má maneira de acabar um mau debate.
Foi um debate confuso e fraco no conteúdo, com Cotrim ser mais institucional mas mais hesitante na comunicação do que o habitual e Ventura, no seu último debate televisivo desta campanha, a ser igual a si próprio: pouco profundo, pouco exato mas sempre eficaz no seu estilo agressivo e de utilização de grandes slogans, em vez de falar de soluções concretas. Para além disso, algo já visto noutros debates, demonstrou muito pouca ou nenhuma preocupação com as funções de Presidente da República, preferindo repisar os seus habituais temas fortes, muitos dos quais sem relação com ao cargo ao qual se candidata.
Em suma, Cotrim de Figueiredo venceu no conteúdo “sério” mas não foi eficaz nas explicações na comunicação, parecendo algo em baixo de forma; Ventura foi igual a si próprio, eficaz no seu estilo mas recorrendo aos argumentos simplistas de sempre, com pouca ligação a soluções concretas ou às funções de Chefe de Estado.
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