ECO da Campanha. Sondagem aquece caravanas no apelo ao voto útil
O mais recente estudo de opinião, que coloca os cinco candidatos taco a taco na luta pelo primeiro lugar, contaminou o terceiro dia de campanha. E Marques Mendes até já admite derrota.
Os motores da caravana aqueceram ao terceiro dia de campanha num desesperado apelo ao voto útil, depois de a última sondagem da Pitagórica ter colocado Seguro, Gouveia e Melo, Ventura, Cotrim Figueiredo e Marques Mendes numa luta renhida pelo primeiro lugar. O candidato apoiado pela AD até levou para a campanha o fantasma do chumbo do Orçamento do Estado para 2027, mostrando como o papel do próximo Presidente da República vai ser fundamental na gestão de eventuais crises políticas.
O candidato e líder do Chega, André Ventura, aproveitou a deixa para acusar Luís Marques Mendes de criar “fumaça” sobre o Orçamento do Estado para 2027 por estar “desesperado” e a “descer nas sondagens”.
“Estamos em janeiro, temos umas eleições daqui a poucos dias e isto é só o Luís Marques Mendes a querer atirar fumaça, é só fumaça, para não discutirmos as eleições presidenciais”, acusou André Ventura, durante uma arruada no Pinhal Novo, distrito de Setúbal.
“Este é o típico exemplo de quando um candidato começa a perder o controlo das coisas, começa a disparatar e dizer coisas sem sentido. Passaram esta campanha toda a dizer ‘o André Ventura só fala de temas das legislativas, só fala de temas do parlamento e não pode ser que estamos em presidenciais’. Mas mal começam a descer nas sondagens, trazem o parlamento e os orçamentos para a campanha presidencial”, criticou.
Ventura falou em “desespero” e acusou Mendes de o tentar “entalar” com o tema, uma vez que lidera o Chega, partido que tem atualmente 60 deputados na Assembleia da República sendo a segunda força política com mais parlamentares, atrás do PSD.

Tema quente
Sondagem coloca Seguro e Gouveia e Melo a liderar luta renhida a cinco
A sondagem pôs os motores a trabalhar a todo o vapor. De um lado o apelo ao voto útil, como fez o candidato apoiado pelo PS, António José Seguro: “Dizem-nos as sondagens que há candidatos que não têm hipóteses de passar à segunda volta. A confirmarem-se essas sondagens, o voto nesses candidatos é um voto que não conta”. Do outro lado, os candidatos apoiados pelo BE e PCP, Catarina Martins e António Filipe, respetivamente, a defenderem o voto por convicção.
“As pessoas votam e votam por convicção e a primeira volta das eleições presidenciais é uma volta de convicção, em que se dá força ao projeto que se acredita enquanto país”, afirmou a candidata apoiada pelo BE, que falava aos jornalistas durante uma visita ao Mercado de Torres Novas (distrito de Santarém).
“Quando um cidadão ouve dizer que o seu voto não conta é que deve ficar incomodado, não sou eu”, reforçou António Filipe. “António José Seguro fará a sua campanha e eu farei a minha. Eu respeito todos os adversários políticos e, portanto, não comento isso”, atirou.
Em defesa do candidato comunista, o antigo secretário-geral da CGTP juntou-se à campanha n’A Voz do Operário, em Lisboa, para apelar à mobilização à esquerda. Carvalho da Silva lamentou a insistência nos apelos ao voto útil, considerando que a primeira volta é a altura para “conquistar todos os votos para as eleições e todos os votos serem fidelizados.”
“Em vez de se andar a fazer apelos a que os outros deem apoio, comecem pela casa de cada um, de cada candidato”. O antigo líder da CGTP garantiu que se todos os candidatos conseguirem mobilizar o eleitorado a ir votar, a esquerda vai ter candidato na segunda volta, “e depois logo se resolve”.
Na primeira sondagem da Pitagórica para a CNN Portugal/TVI/Jornal de Notícias/TSF após os últimos debates televisivos de dezembro, António José Seguro (19,3%) e Henrique Gouveia e Melo (19,2%) surgem em primeiro e segundo lugar, respetivamente, estando separados apenas por 0,1 pontos percentuais.
Luís Marques Mendes (15,4%), o candidato apoiado pelos dois partidos que compõem o Governo, caiu para quinto lugar e fica atrás de João Cotrim de Figueiredo (18%), candidato da Iniciativa Liberal. André Ventura, por sua vez, reúne 18,9% das intenções de voto.
Os restantes candidatos surgem a grande distância. A sondagem indica 2,9% de intenções de voto em Catarina Martins, 2,8% em António Filipe, 1,8% em Jorge Pinto e 1,5% em Manuel João Vieira.
À questão sobre quem pensam que está em melhor posição para passar à segunda volta, os inquiridos apontaram o social-democrata que se destaca, com 32%, dez pontos acima do líder do Chega (22%), que fica em segundo lugar nesta tabela.
António José Seguro vê uma “tendência favorável” nas sondagens e diz que sente “isso na rua”, que a sua candidatura “está a crescer”. Ao mesmo tempo vai apertando com a esquerda e repetindo que é o único candidato dessa área política que pode chegar à segunda volta. O candidato apoiado pelo PS defende que o voto em si “é o voto seguro”.
“O voto seguro é que garante que quem defende a dignidade, quem defende o Estado Social, quem defende a nossa Constituição, esteja na segunda volta. O voto, em mim, é um voto contra o extremismo, contra os populismos”, afirmou.
“Os dados são muito simples. Só há um candidato do centro-esquerda e da esquerda que pode passar à segunda volta. Essa é uma realidade. É um facto. E, portanto, aquilo que eu apelo é a todos os portugueses que queiram ter esse candidato na segunda volta, que votem em Seguro”, diz sobre si mesmo.

Com “alguma surpresa”. Foi assim que Luís Marques Mendes reagiu esta manhã, no mercado de Torres Vedras, à tracking poll que o coloca em quinto lugar, com os primeiros cinco candidatos com percentagens dentro da margem de erro: “É surpreendente porque não bate muito certo com a rua e a realidade do terreno”.
Ainda assim, e prometendo não “perder o entusiasmo” com esta sondagem tal como não embandeirou “em arco” com outras, aproveitou para carregar no apelo ao voto útil: “Apelo a que os eleitores do centro não dispersem votos. Se houver grande dispersão corro o risco de perder a eleição, sejamos francos. Se houver concentração posso ganhar, provavelmente”.
A figura
Cavaco Silva e a defesa do legado de Sá Carneiro

Aníbal Cavaco Silva está “chocado” com o que considera ser uma “tentativa de apropriação” do nome de Francisco Sá Carneiro “por parte de pelo menos três candidatos presidenciais”. Num artigo de opinião publicado esta terça-feira no Observador, o antigo primeiro-ministro mostrou-se indignado com o aproveitamento de “André Ventura, João Cotrim de Figueiredo e Henrique Gouveia e Melo” que, considera Cavaco Silva, “no plano ético, político, social e económico, estão quase nas antípodas daquilo que Francisco Sá Carneiro defendia.”
O antigo Presidente da República lembra que tem a autoridade de quem foi “ministro das Finanças e do Plano do Governo presidido por Francisco Sá Carneiro”, além de ser alguém que estudou “os seus textos sobre o exercício do poder democrático em Portugal”. Cavaco Silva chegou a dizer que é “intolerável que na campanha eleitoral em curso, com o objetivo de atacar o candidato Luís Marques Mendes, se procure reescrever a história de um político de excecional craveira como Francisco Sá Carneiro”.
Depois do artigo de Aníbal Cavaco Silva no Observador, António Filipe juntou-se à condenação, “por uma questão de princípio”. Questionado sobre o tema, o candidato apoiado pela CDU sublinhou que é errado “atribuir posições políticas e opiniões a pessoas que não estão cá nem para confirmar, nem para desmentir.”
“As pessoas, enquanto são vivas, enquanto estão entre nós, transmitem as suas posições, tomam as suas posições. Quando essas pessoas não estão cá para poder confirmar ou desmentir, eu acho que, por princípio, não se deve fazer isso”, atirou.
António Filipe pediu “respeito” pela “memória das pessoas falecidas”, frisando que nunca ninguém o “ouvirá dizer o que se alguém fosse vivo, diria ou faria.”

A frase
"Se houver grande dispersão corro o risco de perder a eleição, sejamos francos. Se houver concentração posso ganhar, provavelmente.”
Prova dos 9

O candidato presidencial Gouveia e Melo acusou esta terça-feira António José Seguro, enquanto ex-líder do PS, de ter ido além da troika sem qualquer necessidade, porque existia uma maioria PSD/CDS, e de não ter defendido a área socialista.
Gouveia e Melo reagiu assim, em declarações aos jornalistas, na Feira dos Reis de Vila Verde, concelho de Alijó, após ter sido confrontado com o facto de António José Seguro ter dito que não se podia escolher um candidato a Belém sem experiência, que fosse aprender como Presidente República.
O ex-chefe do Estado-Maior da Armada contrapôs que não tem experiência de “intriga partidária” e que não é “titubeante”, receoso de tomar decisões ou alguém que se refugia em discursos redondos. Visou também o passado político de António José Seguro enquanto secretário-geral do PS entre 2011 e 2014.
“No passado, não defendeu a sua própria área, não defendeu os interesses das pessoas que votaram nele. Há uns anos as pessoas que votaram nele pretendiam que defendesse determinados tipos de conceitos, direitos – e ele não defendeu. Foi para além da troika e não tinha necessidade disso”, declarou o almirante.
Gouveia e Melo assinalou que existia então “uma maioria no Governo” PSD/CDS, na Assembleia da República – “uma maioria que não precisava do apoio dele para nada”.
“E quando se fala em experiência, não tenho experiência nenhuma de intriga partidária. Não tenho. Se é essa a experiência que procuram, por favor, não sou eu. Também não tenho experiência nenhuma de fazer lóbi político ou lóbi de interesses”, acrescentou.
A candidata apoiada pelo BE, Catarina Martins, aproveitou também para voltar a deixar criticas a António José Seguro e ao seu papel no período da troika, em que, enquanto secretário-geral do PS, cooperou com o Governo PSD/CDS-PP liderado por Pedro Passos Coelho.
No domingo, o candidato socialista recordou esses tempos, justificando que quando negociou um acordo de salvação nacional em 2013, defendeu o interesse nacional e dos portugueses, entendimento que não é partilhado por Catarina Martins.
Conclusão: É verdade que António José Seguro, enquanto secretário-geral do PS chegou a um acordo com o Governo de então, liderado por Pedro Passos Coelho, e decidiu viabilizar, através da abstenção, o Orçamento do Estado para 2012, mesmo tendo o Executivo da altura maioria parlamentar suficiente para aprovar o documento orçamental sozinho. Por isso, também é verdade quando Gouveia e Melo acusa Seguro de ter alinhado pelos interesses da troika, quando não tinha necessidade de o fazer.
Norte-Sul
Esta quarta-feira, os candidatos rumam para o quarto dia de campanha. Henrique Gouveia e Melo vai andar pelo distrito do Porto. De manhã, arranca em Leça da Palmeira para uma visita ao porto de Leixões e passa pelo mercado de Matosinhos. Da parte da tarde, vai ao Hospital de São João no Porto, depois segue para Vila do Conde e termina com um jantar com apoiantes na Póvoa de Varzim.
Mais a sul, António José Seguro começa o dia em Lisboa, onde estará presente na conferência “Ambiente, sustentabilidade e Clima”, no Palácio Baldaya, e na apresentação da Agenda pela Igualdade, no restaurante da Assembleia da República. Termina em Santarém, no salão nobre da Casa do Campino.
Marques Mendes vai passar pelo mercado municipal de Setúbal da parte da manhã e à tarde ruma para o distrito de Évora primeiro para um almoço de contacto com a população em Vendas Novas, depois visita os bombeiros voluntários de Vila Viçosa e finaliza o dia de campanha, ao final da tarde, no salão central Eborense, em Évora.
A caravana de Cotrim Figueiredo passa, primeiro, pelo mercado Saloio em Cascais e depois segue para o distrito de Leiria, onde vai visitar a Academia Cultural e Social de Maceira. À noite, finaliza o quarto dia de campanha com um jantar em Leiria.
O candidato apoiado pelo PCP, António Filipe, vai andar por Almada, onde estará num encontro com ecologistas junto à praia da Costa da Caparica. Da parte da tarde, estará no distrito de Beja: primeiro em Cuba, junto à estação de comboios, depois passa por Aljustrel, onde vai participar numa sessão pública no Sindicato dos Trabalhadores da Indústria Mineira e termina em Beja com um jantar com apoiantes.
A caravana de Cataria Martins amanhece em Lisboa para uma visita à Boutique da Cultura e depois parte para a Figueira da Foz, onde estará com o movimento SOS Cabedelo, na praia da Cova. A candidata apoiada pelo BE termina o dia com uma sessão pública no Laboratório do Ambiente, também na Figueira da Foz.
Jorge Pinto começa o dia em Lisboa para participar numa sessão na Ordem dos Advogados subordinada ao tema “Reforma da Justiça”. E finaliza a ação de campanha no Montijo.

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