Trabalhadores da Galp criticam “cumplicidade da ministra” no negócio com a Moeve

  • Lusa
  • 19 Janeiro 2026

A CCT criticou o executivo por não revelar se há e quais são as condições impostas à Galp para assegurar a soberania energética ou a manutenção de trabalhadores.

A Comissão Central de Trabalhadores (CCT) da Petrogal criticou esta segunda-feira as declarações da ministra do Ambiente e da Energia sobre o negócio entre Galp e Moeve, rejeitando que a portuguesa vá ganhar dimensão com o negócio.

Na semana passada, Maria da Graça Carvalho encarou com otimismo as negociações entre as duas empresas para a fusão dos negócios de refinação e combustíveis na Península Ibérica.A governante rejeitou que a operação represente uma perda estratégica para Portugal, defendendo que a Galp ganhará influência sobre um conjunto mais alargado de ativos de refinação na Península Ibérica.

Não, senhora ministra. A Galp não vai ser muito maior do que é hoje, ao contrário, vai ser menor”, afirmaram os representantes dos trabalhadores em comunicado, sobre as declarações da ministra Maria da Graça Carvalho.

No entender da CCT, a ministra “até inventou que com uma posição a rondar os 20% na empresa a ser criada (…) a Galp passará a ter duas refinarias em Espanha. Esta posição é inaceitável e expõe a cumplicidade da ministra mas, sobretudo, o grau de deturpação da realidade a que está disposta a assumir para justificar mais um negócio desastroso para o país”.

Em causa está o acordo não vinculativo assinado entre a Galp e os acionistas da Moeve (ex-Cepsa) – a Mubadala Investment Company, fundo soberano dos Emirados Árabes Unidos, e o fundo norte-americano The Carlyle Group – para avançar com discussões sobre a junção dos respetivos portefólios de ‘downstream’ (refinação, petroquímica e venda de combustíveis) na Península Ibérica.

O plano em estudo prevê a criação de duas novas plataformas empresariais: uma dedicada ao retalho de combustíveis e mobilidade (RetailCo), que reunirá as redes de postos de abastecimento e será co-controlada pela Galp e pela Moeve, e uma plataforma industrial (IndustrialCo), focada em refinação, petroquímica, ‘trading e combustíveis de baixo carbono (como biocombustíveis e hidrogénio).

Nesta plataforma industrial, a Galp terá uma participação minoritária, superior a 20%, enquanto a maioria do capital ficará nas mãos dos acionistas da Moeve. Entre os ativos potencialmente integrados encontra-se a refinaria de Sines, considerada estratégica para o abastecimento energético nacional.

A minha posição, agora estou a falar por mim, é que vejo isto por outro prisma. Quando dizem que perdemos o controlo de uma refinaria, eu digo que nós ganhámos o controlo de outras duas, porque em Espanha há duas”, afirmou Maria da Graça Carvalho, numa referência às refinarias da Moeve em San Roque, em Cádiz, e em Palos de la Frontera, em Huelva. “Portanto, vão ser três refinarias em que a Galp passa a ter uma influência”, acrescentou.

Para a CCT, a ministra “seguiu o exemplo do primeiro-ministro no discurso de ano novo”, numa perspetiva motivacional: “Aquela coisa do copo meio cheio ou meio vazio”. Para os representantes dos trabalhadores, a situação é de um copo meio vazio, com “a perda de influência sobre o que resta do aparelho refinador que ainda garante a soberania nacional” e “a incapacidade de Portugal conseguir produzir a totalidade dos combustíveis sólidos e gasosos de que necessita”.

A CCT criticou o executivo por não revelar se há e quais são as condições impostas à Galp para assegurar a soberania energética ou a manutenção de trabalhadores. “A administração deve fazê-lo desde já, assumir perante a opinião pública e os trabalhadores que não vai despedir ninguém, não vai haver despedimentos coletivos e que vai assegurar o futuro da refinaria de Sines a bem do interesse nacional”, defendeu a CCT.

A ministra frisou que o processo ainda está numa fase inicial e que as empresas dispõem de um ano para negociar os termos finais do acordo e submetê-lo às autoridades da concorrência – um período em que acredita que o Governo terá tempo para exigir garantias. A ministra mostrou-se confiante de que a operação vá ultrapassar o crivo das autoridades da concorrência, ainda que reconheça a exigência do processo.

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