Presidenciais 2026. Esquerda, direitas e tabus nos apoios para a segunda volta
PCP, Bloco e Livre apoiam Seguro, e à direita reina o silêncio e a liberdade de voto. Candidato apoiado pelo PS parte na frente mas o xadrez não está completo para a luta da segunda volta.
- António José Seguro e André Ventura avançam para a segunda volta das eleições presidenciais, marcada para 8 de fevereiro, após uma primeira volta competitiva.
- Seguro obteve 31% dos votos, superando Ventura, que ficou com 23%, mas a dinâmica eleitoral poderá mudar com os eleitores que não votaram nos candidatos eliminados.
- A campanha promete ser intensa, com Ventura a adotar uma postura agressiva, enquanto Seguro se posiciona como um candidato conciliador, buscando unir todos os portugueses.
E ficaram dois. Na eleição presidencial mais concorrida de sempre, com 11 nomes válidos no boletim de voto, sobram dois para disputar uma rara segunda volta: António José Seguro e André Ventura. Para uma perspetiva do que poderá ser essa corrida marcada para 8 de fevereiro, é preciso olhar para dois fatores: Os resultados deste último domingo e o que deverá ser a movimentação dos eleitores que escolheram agora candidatos que ficaram pelo caminho. Votarão Seguro, Ventura, ou ficam em casa?
Nos resultados, António José Seguro parte com a confiança de ter vencido confortavelmente. Ficou acima dos 31% face aos 23% do segundo classificado, André Ventura. Em votos, estamos a falar de uma diferença de 450 mil entre os dois, e este é o ponto de partida do próximo capítulo.
Porém, o panorama muda se começarmos a fazer contas aos que ficaram pelo caminho. No espaço da direita, João Cotrim de Figueiredo e Luís Marques Mendes tiveram mais de 1,5 milhões de votos. À esquerda, António Filipe, Catarina Martins e Jorge Pinto valeram à volta de 250 mil votos. O que isto indica é que se todos estes eleitores fossem às urnas na segunda volta e se mantivessem ferreamente no seu espaço político, há margem para Ventura vir a vencer. Porém, tal nunca é líquido.

Ventura tentou instalar, desde a primeira hora, essa narrativa, de que esta é uma luta entre esquerda e direita, focando o seu discurso num exercício de anti-socialismo: de um lado o socialismo, do outro o não-socialismo e a direita.
Mas se os partidos mais à esquerda foram claros no apoio a Seguro, ninguém verbalizou o apoio a André Ventura. Porém, ninguém disse também o contrário. Luís Marques Mendes e João Cotrim de Figueiredo afirmaram não recomendar o voto em qualquer candidato; Henrique Gouveia e Melo não disse que não o ia fazer, apenas se recusou a fazê-lo na própria noite eleitoral. O Almirante, que foi durante muito tempo apontado como favorito à vitória nestas eleições, conquistou perto de 700 mil votos, não sendo óbvio que sejam maioritariamente de esquerda ou de direita. Quem vai o Almirante apoiar? É o tabu para os próximos dias.
Mais curiosa – e significativa – foi a posição de Luís Montenegro, que acabou por tentar desmontar a construção filosófica de Ventura. Perante a derrota de Luís Marques Mendes, o Primeiro-Ministro reconheceu que passam à segunda volta “o Dr. António José Seguro, o candidato que representa o espaço político à esquerda do PSD, e o Dr. André Ventura, que representa o espaço público à direita do PSD”. E conclui, para justificar não declarar apoio a qualquer candidato: “Nesta segunda volta não estará representado o nosso espaço político. Aceitamos essa escolha democrática e o PSD não estará envolvido”. Ou seja, entre a visão de dois blocos – esquerda socialista e direita não-socialista – de Ventura, Montenegro contrapõe uma visão tripartida: duas que estarão em confronto na segunda volta e uma do espaço político do PSD, mais ao centro.
Na noite eleitoral, o tom para as próximas três semanas foi dado. Ventura, que prometeu começar a campanha assim que saísse daquela sala no hotel Marriott, em Lisboa, carregou na colagem de Seguro ao socialismo e a José Sócrates, defendeu que a direita ganhou a primeira volta e que, como tal, tem de se unir sob a sua liderança para assegurar a vitória na segunda. Já António José Seguro, falando no Centro Cultural das Caldas da Rainha, apresentou-se como o candidato da democracia contra o extremismo e o populismo, reforçou o caráter independente da sua candidatura (preparando a estratégia para a segunda volta) e optou por um tom mais conciliatório, face à agressividade combativa de André Ventura. “Regressei para unir os portugueses”, afirmou, dizendo que não quer ser o presidente dos portugueses da esquerda ou da direita, mas de todos.
Para já, Seguro parte na frente e conta também com a alta taxa de rejeição de André Ventura, a mais alta entre os líderes políticos. Mas vai enfrentar um líder do Chega agressivo e motivado, que deverá passar a campanha em modo de ataque permanente, não apenas a Seguro mas também a Luís Montenegro, por não lhe ter dado o apoio para a segunda volta. É que se as presidenciais ficarão resolvidas a 8 de fevereiro, Ventura parece estar a usar esta disputa para se posicionar no campo legislativo, afirmando-se como “o líder da direita”.
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